O Mar de Aral – Um desastre ambiental criado pelo homem

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 1 de Abril de 2013, aworldtowinns.co.uk

O aquecimento global e as rápidas alterações no ecossistema estão a criar uma séria crise à própria sobrevivência da humanidade. Um terço da água doce do planeta desapareceu ou está à beira de desaparecer. Os poços de água subterrânea, usados por três mil milhões de pessoas, estão a secar ou a níveis reduzidos, além de a ficarem poluídos.

O Lago Chade, que fornece água a mais de 20 milhões de pessoas no Chade, Camarões, Níger e Nigéria, encolheu 95 por cento desde 1963. O Lago Karachay, na Rússia, é um aterro de lixo nuclear, com níveis de radioactividade quase comparáveis a Chernobil. Dezenas de milhões de pessoas em todo o mundo estão a protestar contra o abuso e a destruição da natureza. A natureza está a falar através dos seres humanos, que também já estão fartos e querem uma revolução.

O Mar de Aral – um exemplo de vida ou morte

O Mar de Aral tem sido tão duramente atingido por uma catástrofe ambiental criada pelo homem que os seus resultados podem ser facilmente vistos do espaço.

O Mar de Aral é uma bacia rodeada por terra da Ásia Central. Está situada entre o Cazaquistão a norte e o Uzbequistão a sul. O seu nome traduz-se aproximadamente como “Mar de Ilhas”, numa referência às mais de 1500 ilhas de um hectare ou mais que antes estavam espalhadas pelas suas águas.

Antes o quarto maior mar interior do mundo, quase metade do tamanho de Inglaterra, com uma área de 68 mil quilómetros quadrados, o Mar de Aral começou a encolher constantemente nos anos 1960, depois de os rios Amu Darya e Syr Darya, que o alimentavam, terem sido desviados para projectos soviéticos de irrigação. Em 2004, o mar tinha encolhido para 25 por cento da sua área original, e um aumento de quase cinco vezes da sua salinidade tinha matado a maioria da sua flora e fauna natural. Em 2007, tinha diminuído para 10 por cento da sua dimensão original, dividindo-se em três lagos separados, dois dos quais são demasiado salgados para terem peixe. Muitas espécies de peixe desapareceram.

A antes próspera indústria pesqueira foi destruída. As antigas aldeias e cidades à beira-mar ficaram a 70 ou 100 quilómetros de distância das actuais linhas de costa. Tornaram-se cemitérios de navios. Alguns dos pontões estavam lá há uma geração. A maior fabrica de processamento de peixe do mundo, que produzia mais de 40 mil toneladas de peixe por ano e empregava 60 mil pessoas, fechou. Este colapso trouxe desemprego e sofrimento económico.

Os ecossistemas do Mar de Aral e dos deltas dos rios que o alimentavam quase foram destruídos, e não apenas por causa da salinidade muito elevada. O mar em recuo deixou para trás enormes planícies cobertas de sal e substâncias químicas tóxicas que são recolhidas e levadas pelo vento como pó tóxico e espalhadas pela área vizinha. As colheitas da região são destruídas pelo sal que é depositado sobre a terra.

O Mar de Aral também está muito poluído, em grande parte como resultado do teste de armas, de projectos industriais e do escoamento de pesticidas e fertilizantes. Isto, juntamente com o ar carregado de sal e pó, tem causado sérios problemas de saúde pública, entre os quais elevadas taxas de certos tipos de cancro e doenças pulmonares.

Com a redução da extensão do Mar de Aral, perdeu-se a sua função de definição do clima, causando alterações climáticas locais, com verões que se tornam mais quentes e mais secos, invernos mais frios e mais longos e pouca chuva na primavera. A estação de cultivo foi reduzida a 170 dias por ano e as tempestades do deserto ocorrem durante mais de 90 dias por ano.

O capitalismo foi restaurado na União Soviética em meados dos anos 1950 por representantes de uma nova classe capitalista que tinha emergido no interior do Partido Comunista e do aparelho de estado. Embora a economia tivesse continuado a ser caracterizada por empresas estatais e pelo planeamento centralizado durante mais de três décadas, o objectivo da economia mudou para o de maximizar o lucro. Nos anos 1960, ao executar novas políticas relativas ao papel das regiões do país, os novos governantes imperialistas da URSS atribuíram à Ásia Central a função de abastecedora de matérias-primas, nomeadamente de algodão.

Mais importante, o governo soviético decidiu que os dois rios que alimentavam o Mar de Aral, o Amu Darya a sul e o Syr Darya a nordeste, seriam desviados para irrigar o deserto para o cultivo de arroz, melões, cereais e, acima de tudo, algodão. Isto fazia parte do plano soviético para que o algodão, ou “ouro branco”, se tornasse na principal exportação. Isso acabou por acontecer, e hoje o Uzbequistão é um dos maiores exportadores de algodão do mundo. Este projecto transformou o deserto em campos de algodão, mas também transformou o Mar de Aral e a região à volta dele num deserto – com terríveis consequências sociais, económicas e ecológicas.

A construção de canais de irrigação começou em larga escala nos anos 1940. Muitos dos canais foram mal construídos e deixavam que a água vazasse ou se evaporasse. No Canal de Qaraqum, o maior da Ásia Central, talvez tenha sido desperdiçada 30 a 75 por cento da água. Hoje em dia, só 12 por cento da extensão dos canais de irrigação do Uzbequistão estão impermeabilizados.

Em 1960, entre 20 e 60 mil milhões de metros cúbicos de água em cada ano iam para a terra em vez de para o mar de Aral. A maioria do fornecimento de água do mar tinha sido desviada, e nos anos 1960 o Mar de Aral começou a encolher. De 1961 a 1970, o nível do mar desceu a uma média de 20 centímetros por ano. Nos anos 1970, a taxa média quase triplicou para 50-60 centímetros por ano, e nos anos 1980 continuou a descer, agora a uma média de 80.90 centímetros em cada ano. A taxa de utilização da água para irrigação continuou a aumentar: a quantidade de água retirada dos rios duplicou entre 1960 e 2000, e a produção de algodão quase duplicou no mesmo período.

O desaparecimento do lago não foi uma surpresa para os governantes soviéticos; eles já sabiam muito tempo antes que isso iria acontecer. Já em 1964, Aleksandr Asarin do Instituto de Hidroprojectos, tinha chamado a atenção que o lago estava condenado. Ele explicou: “Isso fazia parte dos planos quinquenais, aprovados pelo conselho de ministros e pelo Politburo. Ninguém nos níveis mais baixos podia ousar dizer uma palavra que contradissesse esses planos, mesmo que fosse sobre o destino do Mar de Aral.”

Ao mesmo tempo, a reacção às previsões foi variável. Alguns peritos soviéticos aparentemente consideravam que o Aral era um “erro da natureza”, e um engenheiro soviético disse em 1968 que “é óbvio para todos que a evaporação do Mar de Aral é inevitável”. Mas, no verão de 2003, o Mar de Aral Sul estava a desaparecer mais rapidamente que o previsto. Nas zonas de mar mais profundo, as águas do fundo são mais salgadas que em cima, e não se misturam. Por isso, só o cimo do mar é aquecido pelo verão e evapora mais rapidamente do que seria esperado normalmente.

De 1960 a 1998, a quantidade de água que o mar perdeu foi o equivalente a secar completamente o Lago Erie na América do Norte (o décimo maior lago do mundo) e o Lago Ontário (entre o Canadá e os EUA). Durante o mesmo período de tempo, a sua salinidade aumentou de cerca de 10 g/l para cerca de 45 g/l. Em 2004, a área da superfície do Mar de Aral era de apenas 17 160 quilómetros quadrados, 25 por cento da sua dimensão original. Em 2007, a área do mar tinha encolhido para 10 por cento da sua dimensão original, e a salinidade do que restava da zona sul do mar tinha aumentado para níveis de mais de 100 g/l. Em comparação, a salinidade normal da água do mar é tipicamente à volta de 35 g/l.

Em 1987, a continuação do encolhimento dividiu o lago em dois corpos separados de água, o Mar de Aral Norte e Sul. Foi escavado um canal artificial para os ligar, mas em 1999 essa ligação tinha desaparecido, porque os dois mares continuavam a encolher. Em 2003, o Aral Sul dividiu-se novamente nas bacias oriental e ocidental. O encolhimento do lago também criou o Aralkum, um deserto no antigo leito do lago. Desde então, a perda do Aral Norte tem sido parcialmente invertida.

Nos anos 1960, numa reunião que decorreu em Tashkent, capital do Uzbequistão, o vice-ministro da irrigação da URSS falou sobre os planos soviéticos para intensificar a produção de algodão desviando os dois principais rios para irrigar as plantações. Nessa reunião, alguém na audiência gritou: “Mas o que irá acontecer ao Mar de Aral?” O vice-ministro respondeu: “O Aral terá de se extinguir graciosamente”. (Natalya Antelava, BBC News).

Muitas décadas depois, o governador da região de Aralsk, uma área afectada pelo desastre, Nazhbagin Musabaev, disse: “O Mar de Aral não morreu, o Mar de Aral foi assassinado”.

É absolutamente claro que os governantes imperialistas da União Soviética estavam conscientes das consequências dos seus projectos económicos e do seu impacto no Mar de Aral, mas a força motriz era o modo de produção capitalista que requer o máximo lucro no menor tempo.

Projectos de recuperação!

O Mar de Aral está agora dividido nas secções Norte e Sul. Em 2005, no Cazaquistão, o governo cazaque construiu uma barragem no lado norte para canalizar alguma da água para o mar. Foram feitas algumas reparações da irrigação do rio Syr Darya. O nível de água no sector norte subiu de 30 para 38 metros, mas calcula-se que o nível de viabilidade seja de 42 metros. Devido à diminuição do nível de salinidade, uma quantidade considerável de peixe regressou, restabelecendo algumas das actividades piscatórias dos habitantes locais. O mar, que tinha retrocedido 100 quilómetros para sul da cidade portuária de Aral, está agora a 25 quilómetros. Esta recuperação e a sua rapidez não eram esperadas pelos observadores. A recuperação parcial deu lugar às nuvens de chuva há muito ausentes, trazendo uma tentativa de esperança aos agricultores afectados pela nuvem de pó regional, bem como tendo um efeito positivo no ecossistema em geral.

O Mar de Aral Sul, situado no Uzbequistão, um país muito mais pobre, foi abandonado ao seu destino. O governo uzbeque quer usar o Rio Amu Darya para irrigar as suas plantações de algodão. Também planeia explorar petróleo nos leitos secos, tornando-os numa arena de disputa entre as potências imperialistas. Isto terá certamente um grande impacto na ecologia da zona e pode mesmo afectar a recuperação parcial do lado norte.

O governo cazaque planeia transformar a costa norte num paraíso turístico para atrair pessoas de todo o mundo, construindo hotéis e todas as outras infra-estruturas necessárias para poder competir nesse mercado. Se esse projecto for em frente, o consumo de água e a poluição de mar também irão aumentar e podem pôr em risco a volátil recuperação parcial. Se o projecto de turismo for abandonado, o governo cazaque pode pensar duas vezes nos benefícios imediatos do investimento para salvar o Mar de Aral Norte. Porém, o Mar de Aral Sul ainda está no corredor da morte.

A rivalidade regional e entre as grandes potências e o futuro do Mar de Aral

Cerca de 68 por cento da água que flui para a bacia do Mar de Aral vem do Quirguistão e do Tajiquistão. Cerca de 12 por cento desses caudais começam no Afeganistão. Todos estes países estão entre os mais pobres da região. O Tajiquistão quer concluir a barragem de Rogun iniciada nos anos 1970. Se concluída, será a mais alta represa do mundo – 336 metros de altura. A barragem projectada de seis turbinas poderia produzir uma imensa quantidade de electricidade barata. A construção e o controlo da distribuição de energia é uma questão importante da rivalidade entre as potências imperialistas, bem como entre os governos locais. Os imperialistas norte-americanos pensam que a energia barata é vital para a prosperidade do Afeganistão, bem como do Paquistão, que eles vêem como uma barreira à expansão do fundamentalismo islâmico. O presidente do Uzbequistão, Islam Karimov, chama “estúpido” a este projecto porque iria impedir o fluxo de água para as plantações de algodão do seu país. A Rússia quer construir a barragem e ficar com uma grande parte da energia produzida, o que significa o monopólio da forma como ela será distribuída.

O projecto da barragem de Rogun esteve muitas vezes em cima e fora da mesa desde os anos 1970, uma importante fonte de corrupção e suborno de altos responsáveis. Era um grande bastão nas mãos dos governantes soviéticos para submeter os governos locais e as rivalidades deles.

O aumento dos preços da energia na última década torna mais provável a construção da barragem de Rogun. Se este projecto for levado a cabo, poderá ter um efeito devastador no que resta do Mar de Aral e à volta dele. A forma como as linhas fluviais vitais do Mar de Aral são utilizadas depende de quais são as alternativas que são mais lucrativas, e também de como o seu resultado poderia ser usado para dar vantagem a alguns estados imperialistas e reaccionários sobre os seus rivais. O futuro do Mar de Aral e o seu impacto na natureza e nos homens não desempenham nenhum verdadeiro papel nesses cálculos.

O ambiente e o sistema social

Dois terços dos serviços (alimentação, água, medicamentos, polinização, etc.) fornecidos pela natureza à espécie humana estão em sério declínio mundial, segundo um relatório de 2005 da ONU. Cerca de metade das florestas tropicais desapareceram. Tudo isto tem sido causado sobretudo por actividades económicas capitalistas. Mas o que também é importante é que muita desta devastação ambiental se concentra em zonas do mundo dominadas por potências imperialistas. As potências imperialistas consomem uma parte imensamente desproporcionada dos recursos mundiais e as nações oprimidas suportam uma parte terrivelmente desproporcionada do fardo da crise ambiental. Portanto, a luta para salvar o planeta está ligada à luta contra o imperialismo à escala mundial.

Os ecossistemas naturais do nosso planeta já foram seriamente lesados. Se não protegermos e preservarmos o rápido desaparecimento dos ecossistemas, e se não agirmos para parar as alterações climáticas, este planeta poder ficar inabitável. É urgentemente necessário um sistema social e económico radicalmente diferente, que tenha em conta os efeitos de curto e longo prazo de qualquer projecto sobre a humanidade no seu todo, bem como a sustentabilidade desses projectos.

Para inverter a relação entre as pessoas e a natureza da forma que ela existe no sistema capitalista, em primeiro lugar as relações entre as pessoas têm de mudar. Enquanto existirem relações injustas, de opressão e exploração, na sociedade, a natureza não pode escapar à pilhagem, ao abuso e à destruição. Que outra coisa seria de esperar de um sistema que não tem nenhum respeito pelas pessoas, quanto mais pela natureza?

Qualquer empreendimento económico ou sector de produção têm um impacto para além da sua própria área de operação, na economia em geral e na sociedade. No capitalismo, os capitalistas não têm em conta estes custos ambientais e da sociedade em geral nas suas actividades. A devastação do nosso planeta é um exemplo de vida ou morte desta situação.

Numa genuína economia socialista, os custos e benefícios globais da actividade económica têm de se tornar numa preocupação da sociedade. Isto significa analisar os problemas e as contradições que qualquer actividade económica pode criar, não só no país, mas também a nível internacional. Isto significa ter o conhecimento mais avançado da humanidade e libertar a criatividade das massas para resolver os problemas e as contradições ao serviço da preservação e fazer florescer ainda mais todo o meio ambiente do nosso planeta.

O sistema capitalista-imperialista não é capaz de satisfazer as necessidades das pessoas, nem as da natureza. Ele não é capaz de a proteger, e tudo fará para a destruir se isso for o que o lucro impuser.