O Haiti seis meses após o terramoto – A fatídica realidade da ajuda imperialista

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 19 de Julho de 2010, aworldtowinns.co.uk

O texto que se segue é uma versão condensada de um artigo publicado na edição datada de 25 de Julho de 2010 do Revolution/Revolución, jornal do Partido Comunista Revolucionário, EUA (revcom.us).

Passaram seis meses desde que um catastrófico terramoto atingiu o Haiti em Janeiro. A cidade de Port-au-Prince continua literalmente soterrada em escombros, o que dificulta o serviço de transportes e torna quase impossível a reconstrução. Pouco foi recuperado ou reconstruído. Porquê?

Em primeiro lugar, isto reflecte o facto de o Haiti ser um país pobre e económica e politicamente enfraquecido porque tem estado dominado pelo imperialismo, e sobretudo pelo imperialismo norte-americano. Os especialistas estimam que para remover todos os escombros seriam necessários 1000 camiões durante três anos. Até agora só foram limpos 2% dos escombros. Mas a comunicação social relata que o Haiti só tem 300 camiões [a fazer a limpeza].

E depois há as regras do capitalismo – em que nada é feito a menos que daí resulte lucro. Por isso, milhões de camiões e outro equipamento pesado que estão nos EUA, incluindo dezenas de milhares de carrinhas e jipes parados em parques de estacionamento e que não se vendem devido à depressão económica, não são usados para ajudar as centenas de milhares de pessoas que sofrem no Haiti.

Foram instaladas enormes barreiras nas estradas devido às relações capitalistas de propriedade e produção no próprio Haiti. Têm surgido na comunicação social frequentes relatos de que os planos de construção de melhores campos de acolhimento estão a ser impedidos pela impossibilidade de obtenção de autorização dos grandes proprietários que controlam os locais previstos. De facto, tem havido muitos relatos de pessoas expulsas dos campos instalados após o terramoto porque os proprietários pensam que mesmo as terras cheias de entulho poder ter uma utilização mais lucrativa.

O seguinte texto é do The New York Times: “O entulho (...) também tem um potencial valor monetário se for reutilizado. ‘Não se trata apenas do entulho, é a questão da propriedade do entulho’, disse o Sr. Scales [da Organização Internacional para as Migrações]. A maior parte [das pessoas nas terras que vão ser limpas] são arrendatários, mas tecnicamente o entulho pertence aos donos dos terrenos. E perceber quem é o dono de que terra e obter a sua autorização para escavar tem sido difícil.”

Pensem no que se está aqui a dizer: “Não se trata apenas do entulho, é a questão da propriedade do entulho”. O que está aqui a acontecer diz muito sobre a loucura absoluta e a brutalidade das regras que fazem funcionar o sistema capitalista – e sobre a incapacidade total deste sistema de sequer encarar, e muito menos satisfazer, as mais elementares necessidades das pessoas. Cerca de 1,6 milhões de pessoas têm que viver nas ruas durante a estação dos furacões enquanto as classes proprietárias decidem quem deve recolher os lucros das ruínas das suas antigas casas!

Até agora, só 28 mil pessoas foram colocadas em abrigos permanentes ou temporários estáveis. A maioria das pessoas nem sequer recebeu uma tenda. Segundo os números oficiais, desde o terramoto só foram instaladas 97 mil tendas – uma para cada 16 pessoas sem tecto – e a maioria delas está agora a desfazer-se. Dezenas de milhares de pessoas nem sequer têm uma lona. A maioria dos que perderam as suas casas ainda continua nos cerca de 1200 campos de acolhimento à volta da zona do terramoto. Só um quarto desses campos está a ser gerido por agências organizadas – que têm uma maior probabilidade de instalar latrinas, luz e talvez água limpa. Os outros foram estabelecidos pelas massas populares, normalmente lideradas por comités de residentes, sendo elas próprias a obter comida, água e cuidados de saúde. Menmen Vilase, uma mulher grávida de nove meses, disse: “Eu gostaria de viver sob um tecto de plástico, mas não tenho meios para isso”.

O NYT (10 de Julho de 2010) descreveu um desses campos instalado em fila única ao longo da faixa central de uma movimentada via rápida. Dezenas de pessoas já ficaram feridas porque os carros chocaram com as barracas delas. Em Março foram finalmente construídas latrinas pelo grupo francês Ajuda Islâmica, mas estão do outro lado da estrada, pelo que as pessoas com diarreia têm que disparar através do trânsito para chegarem aos balneários. Um jornalista do Revolution/Revolución visitou esse bairro de barracas em Janeiro – em todo este tempo, essas latrinas foram a única ajuda significativa que eles receberam.

Enfrentado tudo isto, dezenas de milhares de pessoas regressaram a casas muito danificadas e inseguras, vivendo diariamente o terror de serem enterradas vivas se as suas instáveis estruturas se desmoronarem, caso haja um outro terramoto. Outras mudaram-se para os cemitérios, para a lixeira municipal, para os campos desportivos inundados. As pessoas vivem no meio de entulho que ainda tem restos humanos. Um homem disse: “É melhor estar aqui com o cheiro dos cadáveres do que naquele campo que fede a urina”.

O NYT noticiou que responsáveis da ONU “pediram paciência (...) Eles apontam êxitos no fornecimento de comida de emergência, água e abrigos e no evitar da fome, do êxodo e da violência”. Nigel Fisher, representante especial adjunto do secretário-geral das Nações Unidas no Haiti disse ao Times que “vale a pena salientar o que não aconteceu. Não tivemos nenhuma grande erupção de doenças. Não tivemos nenhuma grande degradação da segurança.” (7/10/10)

Bem, quando pessoas como esta falam em “violência” e “degradação da segurança”, não estão a falar na segurança das massas. Não estão a falar do grande aumento da violação de mulheres nos campos nem do roubo e venda de crianças para o tráfico sexual internacional, nem dos ataques aos “ocupantes de terras” feitos por arruaceiros com machetes ao serviço dos grandes proprietários de terras – e tudo isto tem estado a acontecer.

O que eles querem dizer é que, até agora, não houve nenhuma grande insurreição política do povo haitiano contra a ocupação dos EUA/ONU nem contra o facto de os imperialistas e o servil governo haitiano não conseguirem satisfazer as mais elementares necessidades do povo. Quando falam em “evitar o êxodo”, estão a vangloriar-se de terem impedido um grande número de haitianos de escaparem às suas condições desesperadas e irem para os Estados Unidos. Para os EUA e outros imperialistas (incluindo a ONU), milhões de pessoas a viver nos limites da morte é suficientemente aceitável desde que as pessoas sejam mantidas longe do ponto de se sublevarem ou de inundarem os EUA, onde poderiam ser uma fonte de instabilidade social.

E quanto a todos os milhares de milhões de dólares da ajuda prometida ao Haiti?

Há aqui três realidades a analisar. A primeira realidade é que quando se lê as letras miudinhas, a ajuda prometida ao Haiti vinha com “condições” que eram basicamente as de o Haiti abandonar oficialmente a sua soberania nacional.

A “justificação” para esta ultrajante imposição do domínio estrangeiro é a história e a actual realidade de corrupção generalizada e “incompetência” do governo haitiano. Há aqui um subtexto racista e colonialista – os imperialistas insinuam que o povo haitiano é simplesmente demasiado ignorante para tratar das suas próprias questões, pelo que devem ser as grandes potências a “suportar o fardo do homem branco” (como lhe chamou o escritor britânico pró-imperialista Rudyard Kipling) de governarem a sua sociedade por eles. Essa corrupção e incompetência “nativas” têm sido uma das principais justificações para todo o tipo de intervenções imperialistas e uma importante forma de encobrimento dos enormes fracassos do seu sistema.

Agora deve-se dizer que depois do Katrina, da queda de Wall Street, do colapso imobiliário e da catástrofe petrolífera capitalista no Golfo, os EUA se deveriam calar quanto à incompetência e corrupção de outras nações!

Mas, mais importante, a corrupção governamental no Haiti (e noutros lugares) é muito real, mas é um produto directo do domínio norte-americano.

Dizendo-o abertamente, os EUA têm sido a principal força a moldar – muitas vezes através da violência – o estado haitiano e a sua estrutura social e económica. E muito especificamente, os EUA actuaram de forma a derrubar todos os regimes que não fossem totalmente “corruptos”. Porquê? Porque as pessoas que os EUA querem ver como estrutura local de poder no Haiti são as que irão vender os interesses do povo e da nação haitiana aos EUA, a troco de títulos prestigiosos, ligações e de um opulento salário.

Contudo, mesmo assim, o Haiti enfrenta agora uma segunda realidade – a de que a vasta maioria da ajuda que lhe foi prometida não apareceu.

A terceira realidade aqui é a de que os planos dos EUA para o Haiti – caso se venham a materializar – são de o reconstruir para melhor servir as necessidades do imperialismo norte-americano, e não para ajudar o povo haitiano.

Segundo Ansel Herz, que escreveu em HaitiAnalysis.com, “[Hillary] Clinton, juntamente com o Secretário-Geral da ONU Ban Ki-Moon, estão a promover um plano criado pelo economista de Oxford Paul Collier de expansão das zonas francas de exportação a todo o Haiti. O plano deles impõe que o Haiti faça sair da pobreza os moradores dos bairros de lata urbanos através de empregos em fábricas têxteis como a Fábrica Interamericana de Vestuário (...)”

Em Julho, manifestações de milhares de pessoas ocuparam as ruas de Port-au-Prince e outras cidades haitianas. Embora haja muitas e diversas forças e reivindicações, o seu tema unificador foi a exigência da demissão do governo do Presidente Rene Preval. Annessy Vixama, um dirigente da Tet Kole, uma das principais organizações de camponeses do Haiti, fez a justa reivindicação de que “o estado tem que deixar de ajudar os negócios internacionais que actuam contra a maioria do povo e começar a ajudar os camponeses”.

O estado, no Haiti ou em qualquer outro lugar, nunca é “neutro”; não representa “o povo” nem “a nação” em geral – surge com base no sistema económico e político subjacente num determinado país e reflecte e serve esse sistema. No Haiti, o sistema de base é a exploração e o domínio dos imperialistas (sobretudo dos EUA) e dos aliados dos imperialistas dentro do Haiti, entre as classes de grandes proprietários de terras e capitalistas. O sistema é este, são estas as forças de classe que o estado foi construído para servir e o único a que pode servir. E, de facto, se o estado haitiano é fraco, é sobretudo porque os imperialistas optaram repetidamente por o controlar directamente, através de golpes de estado, invasões e ocupações; de facto, o Haiti tem estado sob ocupação dos EUA/ONU desde que o Presidente Aristide foi sequestrado e retirado do país em 2004, e a maioria da ajuda e do investimento não passa pelo governo e é canalizado por ONGs (“organizações não-governamentais”, em geral pró-imperialistas).

A crescente luta contra este governo e a exigência de que satisfaça as necessidades das massas são inteiramente justas e devem ser apoiadas em todo o lado. E essa luta tem o potencial de fortalecer e desencadear um movimento pela revolução que vise a questão fundamental do imperialismo norte-americano e do seu domínio estrangulador do Haiti.