Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 12 de Janeiro de 2009, aworldtowinns.co.uk

O genocídio nazi dos judeus da Europa e os massacres de palestinianos por Israel

O seguinte texto inclui excertos de um artigo mais longo do SNUMAG de 31 de Janeiro de 2005, com novos parágrafos iniciais e finais.

É intolerável que o genocídio nazi dos judeus da Europa seja usado como argumento para apoiar os assassinatos cometidos por Israel. Tanto agora como no passado, as potências imperialistas e os seus líderes nunca tiveram nenhum amor especial pelos judeus, e ainda menos alguma vez se opuseram realmente a qualquer opressão.

A verdade é que os EUA e a Grã-Bretanha nunca ergueram um dedo para impedir esse genocídio, encobriram-no enquanto estava a ocorrer e depois da guerra protegeram os homens que o levaram a cabo.

Quando os nazis chegaram ao poder nas eleições alemãs de 1933, eles pretendiam expulsar os judeus da Alemanha. Mas poucos países os deixavam entrar. Na realidade, apenas um os acolheu em grande número: a então socialista URSS. Em 1938, o Presidente norte-americano Franklin D. Roosevelt convocou a Conferência de Evian, uma reunião de 32 países que teve lugar em França, para decidir o que fazer em relação aos refugiados judeus. Embora os EUA e a Grã-Bretanha estivessem a admitir dezenas de milhares por ano, havia dez vezes mais pessoas a pedir vistos. As duas principais potências pediram a outros países que, em alternativa, as acolhessem. A França recusou. O único país presente que concordou em aumentar as suas quotas foi a República Dominicana. A imprensa nazi saudou a conferência como sinal de que o mundo estava a aproximar-se das suas políticas raciais.

O navio SS Saint Louis partiu de Hamburgo, na Alemanha, em Maio de 1939, rumo a Cuba com 937 refugiados desesperados a bordo, quase todos judeus alemães. A maioria tinha solicitado visto aos EUA. Cuba tinha-lhes dado autorização para aí desembarcarem enquanto esperavam por uma resposta. Pouco antes de aí chegarem, os EUA pressionaram Cuba a mudar de posição e proibir os refugiados de saírem do navio. Nenhum outro país latino-americano os viria a acolher. O navio navegou tão perto da costa norte-americana que os passageiros puderam ver as ruas iluminadas de Miami à noite. O navio esperou perto da praia por uma resposta a um telegrama enviado a Roosevelt pedindo refúgio humanitário. O governo norte-americano já tinha decidido negativamente, mas não enviou nenhuma resposta. Em Junho, o navio foi obrigado a voltar à Europa, onde muitos dos seus passageiros acabaram por ir parar a campos nazis da morte.

Em 1941, quando os nazis proibiram oficialmente a emigração judaica, mais de 80% dos judeus alemães já tinham partido. Mas a invasão alemã da Polónia tinha trazido a principal concentração de judeus da Europa para debaixo do controlo do Terceiro Reich. À medida que os exércitos nazis se deslocavam pela Europa Oriental em direcção à União Soviética, atravessando violentamente as zonas fortemente judaicas da Bielorrússia e da Ucrânia, muitos milhões de judeus ficaram sob as suas botas. Em Janeiro de 1942, numa conferência num subúrbio verdejante e coberto de folhas de Berlim chamado Wansee, foi adoptado um plano para “a solução final”: todos os judeus seriam enviados para campos no leste. Os demasiado fracos para trabalhar seriam exterminados. Os restantes seriam forçados a trabalhar e a passar fome até à morte. Os que sobrevivessem também seriam exterminados.

Os Aliados Ocidentais sabiam disto, mas mantiveram-no em segredo. Quando o Conselho Mundial Judaico em Genebra enviou ao Departamento de Estado dos EUA um telegrama em que detalhava os planos de Wansee, o governo dos EUA não só o ignorou como também disse a um importante rabi norte-americano, que também tinha recebido o relatório, que mantivesse a boca calada. O Vaticano soube de toda a história desde o início através de fontes católicas mas, apesar dos apelos vindos de baixo, o Papa Pio XII recusou-se a fazer uma declaração pública contra a morte de judeus, que a Igreja ainda considerava oficialmente “assassinos de Cristo”. Hoje em dia, o Vaticano está a tentar santificar esse Papa.

No gueto de Varsóvia, uma organização combatente judaica liderada por comunistas e outras forças de resistência enviaram batedores pelos esgotos para fora dos muros em que os nazis os tinham aprisionado. Eles seguiram os comboios que levavam famílias aos milhares para um destino desconhecido. No fim da linha estava Auschwitz, onde acabaram por perecer mais de um milhão de judeus, 75 mil polacos não-judeus, 18 mil ciganos e 15 mil prisioneiros de guerra soviéticos, mortos por gases venenosos e com os seus corpos cremados em fornos.

Um representante do governo polaco pró-britânico derrubado pelos nazis foi levado ao gueto para ouvir a sua história. Eles descreveram o campo e disseram-lhe que os comboios estavam a levar 10 mil judeus por dia para a morte, só de Varsóvia. Embora não particularmente inclinado a favor dos judeus, ele concordou em sair da Polónia e contar às autoridades britânicas e norte-americanas, pensando que, como aliados políticos, eles o iriam escutar. Ele era o tipo de homem que esperava poder reunir-se com Churchill e teve uma longa conversa com Roosevelt. Nada aconteceu.

Auschwitz, tal como os outros campos de concentração, recebia desde 1942 um abastecimento constante de vidas judaicas e carvão por via-férrea. Sem essas vias-férreas, a fábrica da morte teria acabado por parar e os fornos de gás teriam arrefecido. Porque é que os Aliados não as bombardearam?

Auschwitz aproximava-se do seu clímax infernal. A Polónia estava esvaziada de judeus. Os comboios trouxeram 440 mil húngaros, metade da população judaica do país, para a morte, durante um período de apenas algumas semanas em Maio e Junho. Os EUA e a Inglaterra limitaram-se a assistir.

Em Agosto e Setembro desse ano, a força aérea dos EUA levou a cabo bombardeamentos a um complexo industrial a menos de cinco minutos de distância das câmaras de gás por via aérea. Uma sobrevivente de Auschwitz que falou num recente documentário da BBC recordava amargamente como ela e outros prisioneiros assistiram a centenas de passagens de aviões militares sobre as suas cabeças. Eles diziam uns aos outros: porque é que eles não bombardeiam este lugar? Mesmo que matem muitos de nós, essa é a única hipótese que qualquer um de nós tem de sobreviver.

Outubro de 1944 viu uma das revoltas de prisioneiros que se conhecem em Auschwitz. Centenas de prisioneiros atacaram os guardas com machados e pedras. Usaram explosivos contrabandeados para fazerem explodir uma câmara de gás e incendiar um crematório. Os Aliados chegaram a considerar despejar armas no campo por via aérea. Nunca o fizeram.

De facto, os campos continuaram a funcionar sem qualquer interferência exterior até 27 de Janeiro de 1945, quando o Exército Vermelho soviético chegou aos seus portões. Encontraram cerca de 7000 sobreviventes, todos demasiado fracos para caminhar. Os nazis tinham levado consigo outros 58 mil numa marcha de morte, à medida que fugiam para ocidente. Eles estavam decididos a que, mesmo que fossem derrotados, nenhum judeu ficasse vivo.

Os crimes dos EUA, porém, não acabaram nessa data. Muito poucos líderes e torcionários nazis foram alguma vez levados à justiça pela simples razão de que os EUA os protegeram. Logo após o fim da guerra, os EUA recrutaram muitos antigos nazis proeminentes para participarem nos seus esforços contra a União Soviética.

As brutais potências aliadas identificaram três milhões de alemães como tendo cometido crimes durante a guerra. Um milhão deles foi julgado. Onze foram condenados à morte. Alguns receberam curtas penas de prisão. A maioria dos restantes teve que pagar uma multa ou foi considerada inelegível para ocupar cargos públicos durante um breve período. Em 1951, quase todos eles foram amnistiados. Grandes capitalistas como Krupp, cujas fábricas tinham usado trabalhadores dos campos de concentração, receberam de volta as suas fortunas. O comandante nazi de Auschwitz foi enforcado, mas, dos 10 mil membros da força de elite nazi, as SS, que aí levaram a cabo os assassinatos, apenas cerca de 750 sofreram alguma punição, mesmo a mais leve.

Como foi recentemente reafirmado no livro U.S. Intelligence and the Nazis [Os Serviços de Informações dos EUA e os Nazis], de Norman J. W. Goda, baseado em arquivos oficiais norte-americanos, milhares de nazis e oficiais das SS foram levados para os EUA, onde “poderiam ser úteis na oposição às inclinações comunistas das comunidades imigrantes”, como dizia um artigo da Associated Press. A Igreja Católica e os serviços de informações militares norte-americanos agiram conjugadamente para contrabandear alguns dos nazis mais notórios para fora da Alemanha. De facto, diz Goda, a CIA pegou num grupo de oficiais alemães que tinham sido responsáveis pelos serviços de informações na Frente Leste e usou-os como o núcleo à volta do qual viriam a ser erguidos os futuros serviços de informações da Alemanha Ocidental, ainda hoje a funcionar.

Uma razão importante que explica a conduta dos EUA, da Grã-Bretanha, da França e de outras potências ocidentais durante a guerra foi a seguinte: Se fosse conhecida a verdade sobre os campos de extermínio, a pressão pública para fazer algo sobre isso teria interferido na sua liberdade para definirem prioridades militares segundo os seus objectivos globais da guerra. Eles também achavam, não sem justificação, que muitos judeus eram simpatizantes da União Soviética. Os bolcheviques emanciparam os judeus de um país, a Rússia czarista, que durante séculos tinha sido um inferno para eles. Eles acolheram os judeus no movimento revolucionário e na vida pública de que antes estavam excluídos. No decurso da II Guerra Mundial, o Exército Vermelho salvou as vidas de 1,5 milhões dos 4 milhões de judeus dos territórios ocupados ou invadidos pela Alemanha (Arno Mayer, Why Did the Heavens Not Darken? [Porque é que os Céus não Escureceram?]).

Se se quiser saber quais eram os objectivos dos EUA na guerra, basta ver-se o que é que dela resultou quando eles ganharam: os Estados Unidos tornaram-se na principal potência imperialista, capaz de engordar à custa da exploração em todo o mundo. A Grã-Bretanha, embora humilhada relativamente à sua anterior posição, sobreviveu como potência importante e tornou-se no principal aliado dos EUA. A Alemanha e o Japão, que tinham tentado e não conseguiram obter o tipo de domínio global que os EUA obtiveram, não tiveram outra alternativa senão tornarem-se parceiros associados do sindicato do crime liderado pelos EUA. Os EUA e a Grã-Bretanha não puderam dispensar uma única bomba para salvar vidas judaicas porque tinham outros objectivos. Eles protegeram os nazis depois da guerra pelo mesmo tipo de razões imperialistas.

Hoje em dia, numa das mais cruéis ironias da história, os governantes de todas as potências ocidentais – os actuais representantes das mesmas classes dominantes capitalistas monopolistas que estavam activas ou cúmplices no genocídio dos judeus da Europa – usam-no para justificar ainda mais assassinatos: a opressão e os massacres do povo palestiniano por Israel. Os EUA, em particular, com o apoio de todas as outras potências imperialistas, ergueram Israel como posto avançado chave na execução dos interesses imperialistas na região, não por causa da suposta influência judaica na vida pública, mas pelas mesmas razões por que permitiram inicialmente o genocídio judeu: os interesses imperialistas.

Os actuais governantes reaccionários igualam oposição a Israel a anti-semitismo, num esforço cínico para encobrir a verdadeira natureza de Israel e o papel que ele desempenha, e a que muitos judeus se opõem. Como tão frequentemente proclamam os políticos norte-americanos, Israel tem uma relação especial com Washington porque os seus cidadãos desfrutam dos benefícios dos serviços do seu país aos EUA, enquanto os povos de outros países da região recolhem a miséria da subserviência do seu país. Mas, embora em geral igualar Israel e judeus promova o sionismo, também fomenta o anti-semitismo, como se a razão dos crimes que enchem de repugnância a maioria da humanidade fosse alguma suposta natureza judaica inerente e não o imperialismo e os seus parceiros sionistas.

Alguns manifestantes pró-palestinianos na Europa têm levado consigo cartazes que vão direito ao cerne da questão: “Gaza = gueto de Varsóvia”. Esta é uma posição correcta face aos esforços para usar um genocídio para justificar os massacres.

Não devemos retirar os acontecimentos do seu contexto histórico, como fazem os promotores do sionismo, e perdermo-nos em comparações pouco científicas. Mas uma profunda lição do genocídio dos judeus é igual à do que estamos a ver hoje em Gaza e na Palestina: o sistema imperialista vai produzir horrores, vezes sem conta, sob diferentes formas e muitas vezes para além da nossa imaginação, até que seja derrotado em todo o mundo. Para se construir uma oposição aos actuais crimes, precisamos de ligar isto ao fim de um sistema criminoso.