Do jornal Público, Sexta-feira, 31 de Maio de 2002

“Nos EUA as Prisões Servem para Fazer Vingança”

Entrevista com Robert King

Por Ana Gomes Ferreira

No ano passado, Robert King, ex-membro do Black Panthers Party, foi libertado da prisão mais infame dos Estados Unidos, que se chama Angola.

Faz amanhã 60 anos que Robert King nasceu. Nasceu no Louisiana, no Sul racista e segregacionista dos Estados Unidos. Um dia, tornou-se presidiário – 31 anos de cadeia, 29 em solitária. O seu principal crime? Ser activista político atrás das grades, ofensa capital para um negro na América dos anos 60 e 70.

Membro do desaparecido Black Panthers Party (partido dos panteras negras), está em Lisboa para falar do sistema prisional e penal dos EUA. Representa a Coligação Nacional para a Libertação dos “Angola 3”, um trio de presos políticos de que já fez parte. Foi libertado em Fevereiro do ano passado. Anda pelo mundo a contar a sua história, em campanha pela libertação de Herman Wallace e Albert Woodfox. “A minha missão prende-se com os meus dois camaradas, na prisão por crimes que não cometeram, e com todos os presos políticos que foram detidos pelo Estado e que não têm voz.”

PÚBLICO – Por que é que foi preso?

Robert King – A primeira vez fui acusado de assalto à mão armada, em 1961. Éramos quatro e considerámo-nos culpados por um roubo que duas pessoas tinham cometido. Completei a pena em Novembro de 1969. Em 1970 fui preso durante uma investigação a outro assalto. Apesar de a identificação que a vítima fez nada ter a ver comigo, fui acusado. Deram-me um advogado que me abordou dizendo que se me considerasse culpado apanhava 15 anos mas não arriscava o julgamento em que poderia ser condenado a 60. Nos anos 60, a pena máxima para assalto era de 60 anos, depois foi elevada para 99. Se me tivessem oferecido dois anos, ou parecido, eu teria arriscado. Mas como não tinha cometido o crime, não aceitei, foi a tribunal e acabei com 35 anos de prisão. Zanguei-me.

P. – Foi por revolta que tentou fugir da prisão?

R. – Eu não tentei fugir da prisão. Eu fugi. E mais 25 pessoas vieram comigo. Senti-me como um escravo, senti que tinha o direito de me rebelar. Fui apanhado e aumentaram-me a pena, para 43 anos. Apesar de ser um prisioneiro estadual, puseram-me numa prisão de segurança máxima, em New Orleans, onde estava na cela 23 horas seguidas, só com 10 ou 15 minutos para um duche, porque tentei fugir mais vezes. Na altura, eu não sabia racionalizar as coisas, mas havia racismo, havia discriminação. E estavam a crescer. Na prisão havia uma televisão e um dia vi interromperem a programação para darem um directo de uma intervenção da polícia num edifício. E o que eu vi fez-me querer transportar-me para aquela casa: a polícia estava dentro da minha comunidade, brutalizava a minha comunidade. Era uma coisa que acontecia de forma sistemática, mas eu na altura não tinha consciência, não tinha educação. Soube depois que era comum a polícia entrar nas casas de membros do Black Panthers Party. Soube que o partido era uma organização revolucionária que representava sobretudo as necessidades dos negros, mas também de todos os pobres. Tentavam inspirar as pessoas a mudar, porque apesar de os negros da América terem sido libertados em 1865, apesar da libertação dos escravos, não eram livres. Os negros eram vítimas da exploração económica, da depravação política e da degradação social. O partido apontou essa hipocrisia e eu aderi.

P. – Quando é que se tornou membro do Black Panthers Party?

R. – Quando estava na prisão de New Orleans. Com eles, lutei contra a coisa deplorável que era aquela prisão: onde cabiam 40 pessoas encerravam o dobro ou o triplo, a comida era horrível, havia ratazanas e baratas. Havia frio, havia piolhos. Lutámos contra isto e o resultado foi termo-nos tornado alvos, eu e os meus dois camaradas, o Albert Woodfox e o Herman Wallace.

P. – Acabaram por ser todos transferidos para Angola. O que representava esta prisão?

R. – Era considerada a prisão mais sanguinária da nação. Os presos eram espancados, violados, assassinados. Se alguém tentava fugir, era caçado e morto. Angola era uma plantação de 7300 hectares e os presos trabalhavam 17 ou 18 horas por dia, no campo. O Albert e o Herman decidiram juntar as pessoas e levar a ideologia do partido para dentro da prisão. Havia racismo e segregação. Os brancos estavam num lado, os negros no outro. Em 1972 [quando King chegou a Angola], já depois de Albert e Wallace terem iniciado a organização da prisão, apareceu um guarda morto. Apesar de não haver provas, concluíram que Albert e Wallace estavam implicados e foram colocados em regime de solitária. Soube-se depois – e há documentos a prová-lo – que a pessoa que testemunhou contra eles foi comprada. Acabou por ser libertada. Os meus camaradas continuam na solitária [23 horas dentro das celas], por um crime que não cometeram e vão morrer na prisão se não forem libertados. É por isso que eu estive na Inglaterra, em Paris, na Alemanha, em Bruxelas, onde pretendo voltar para a semana, para falar a deputados europeus sobre o sistema prisional americano.

P. – Quando foi libertado, encontrou um mundo muito mudado?

R. – Não. As coisas pioraram. O racismo foi incorporado no sistema. A cor já não é o elemento que prevalece, como acontecia antigamente. Mas o racismo ainda existe. Os brancos continuam a ser considerados os filhos da América. É a eles que é dado o benefício da dúvida. O maior problema, agora, é a mentalidade, que precede a cor e que provoca uma divisão tão grande. Há quem chame a esta mentalidade individualismo... as pessoas aceitam a divisão.

P. – Os negros continuam a povoar as prisões americanas.

R. – No Louisiana, os negros ainda são 85 por cento da população prisional. Quando fui pela primeira vez para a prisão, os que eram condenados a prisão perpétua tinham a possibilidade de ser libertados. Nos últimos 20/25 anos, os políticos fizeram questão de garantir que perpétuo significa mesmo perpétuo. Conheço uma pessoa em Angola que tem 15 penas de prisão perpétua e 210 anos de cadeia. Soa estranho: é como se um tipo tivesse a sorte de chegar ao fim de uma pena, e ainda tivesse mais 14...

P. – Soa a absurdo...

R. – É absurdo, é ridículo. E sendo as prisões pequenas réplicas da sociedade, temos que concluir que a sociedade também mudou mas não para melhor.

P. – Que sistema prisional defende?

R. – Sabemos que há presos políticos que foram vítimas do terrorismo doméstico de J. Edgar Hoover e do FBI antes do 11 de Setembro. Sabemos que há muita gente erradamente condenada que deveria ser libertada. Mas o complexo da indústria prisional dos EUA está a crescer e quanto mais se investe nas prisões, menores são as hipóteses de as pessoas serem libertadas. Para eles, tudo isto faz sentido do ponto de vista económico: não vão acabar com o que lhes dá lucro. A prisão é uma nova forma de escravatura. Chamam-lhes prisioneiros, mas são escravos. A prisão, na sua forma presente, devia ser abolida. Até lá chegarmos, vou trabalhar com pessoas que querem rever as leis para libertar os que estão na prisão há 30 e 40 anos. A prisão tem que ser mais humana. Na Europa é mais humana. Nos Estados Unidos, as prisões servem para fazer vingança, são sobre castigo total. Não existe a regeneração ou a reintegração social dos presos.

 

Robert King em Lisboa:
Hoje, às 22h, na livraria Ler Devagar (Bairro Alto)
2ª feira, 18h, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova (Av. Berna)

 

Os Panteras Negras

O Partido dos Panteras Negras pela Auto-Defesa foi criado em Outubro de 1966, em Oakland, na Califórnia, por Huey Newton e Bobby Seale. Praticava uma militância de autodefesa para as comunidades minoritárias e lutava para estabelecer o socialismo revolucionário através da organização das massas e da aplicação de programas comunitários. Foi uma das primeiras organizações da história dos Estados Unidos que lutou pelas minorias étnicas e pela emancipação das classes. Inspirou-se nos princípios defendidos por Malcolm X. No final dos anos 60, a organização radicalizou-se, assumindo-se exclusivamente como um partido da comunidade negra. O director do FBI, J. Edgar Hoover, chamou-lhe “a maior ameaça à segurança interna” e iniciou um programa de destruição da estrutura, com prisões maciças e assassínios selectivos. A liderança desapareceu, o que, a par das lutas internas e das acções de protesto que levaram a confrontos violentos com a polícia, desfez o partido. Actualmente, existe o Novo Partido Panteras Negras, sem ligação ao anterior.

A.G.F.


A Prisão de Angola

Mumia Abu-Jamal, um ex-Pantera Negra que foi o mais famoso condenado à morte dos Estados Unidos – a pena foi recentemente comutada para prisão perpétua (*) –, chamou-lhe “lugar onde se manufacturam mortos”. Angola, a prisão de alta segurança com a história mais infame dos Estados Unidos, foi erguida no lugar onde, no passado, existia uma plantação de arroz. Porque a maior parte dos escravos que a trabalhavam chegaram de Angola, o lugar ganhou o nome do país africano colonizado pelos portugueses. Angola tornou-se o símbolo da segregação racial e da repressão racista nos EUA. Ainda hoje, é símbolo da discriminação: 63 por cento da população do Louisiana é branca, porém só 23 por cento dos detidos não são negros; a taxa de encarceração de negros neste estado aumentou de 437 por cem mil habitantes nos anos 80, para 1771 por cem mil habitantes em 2000. Angola é uma das maiores prisões de alta segurança do mundo e a mais densamente povoada, com cinco mil detidos. Os presos já não são brutalizados, violados e espancados até à morte, como no passado. Porém, a prisão continua a fabricar corpos. Os directores de Angola estimam que 85 por cento dos detidos só de lá sairão quando morrerem.

A.G.F.

(*) NOTA DA PÁGINA VERMELHA: Não se confirma nesta altura a notícia da “comutação” da pena de Mumia