Nixon, Kissinger e o Bangladesh: Com sangue nas mãos

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 30 de Março de 2014, aworldtowinns.co.uk

Por Susannah York

Capa do livro

O livro The Blood Telegram – Nixon, Kissinger and a Forgotten Genocide [O Telegrama de Blood – Nixon, Kissinger e um Genocídio Esquecido, usando um trocadilho com Blood=sangue – NT] (Alfred Knopf, 2013) do professor da Universidade de Princeton Gary J. Bass revela o sinistro papel desempenhado em 1971 pelo então Presidente Richard Nixon e pelo Secretário de Estado dele, Henry Kissinger, durante a chacina de nove meses de bengalis pelo Paquistão, no que era então o Paquistão Oriental, agora Bangladesh. De acordo com diversas fontes, centenas de milhares e talvez mesmo até três milhões de pessoas terão sido mortas. Cerca de 10 milhões de refugiados, sobretudo hindus, fugiram para a Índia, só para serem mantidos em campos de desespero onde as pessoas morriam de fome, falta de água potável e doenças evitáveis.

O Telegrama de Blood é um relato absorvente e revelador golpe-a-golpe da diplomacia cínica – na realidade, criminosa –, bem como dos frequentemente cruéis golpes e facadas nas costas entre os vários actores: Nixon, Kissinger, o general Agha Yahya Khan que governava o Paquistão, a dirigente indiana Indira Gandhi e outros responsáveis governamentais indianos, membros do Departamento de Estado norte-americano e representantes dos EUA no Paquistão e na Índia como Archer Blood. O autor Bass esquadrinhou milhares de páginas de material recentemente desclassificado da Biblioteca Nixon, dos Arquivos Nacionais de Washington e de arquivos na Índia, entrevistas com membros da Casa Branca, diplomatas e generais indianos e gravações da Casa Branca nunca antes escutadas e bastante sórdidas. Quase todos os parágrafos do livro dele têm notas de rodapé, num total de 2600 notas.

O livro é muito próximo e pessoal, revelando a imoralidade e baixeza, sobretudo de Nixon e Kissinger, que consciente e regularmente mentiram ao público, ao Congresso dos EUA e a outros governos e violaram as leis que eles alegavam estar a representar, durante a guerra civil entre o Paquistão Oriental e Ocidental.

O cônsul-geral norte-americano em Daca, Archer Blood, enviou muitos avisos de um banho de sangue iminente, dizendo que não havia nenhuma hipótese de o Paquistão se manter unido. A resposta de Nixon foi: “Eu sinto que qualquer coisa que possa ser feita para manter o Paquistão como país viável é extremamente importante”. Kissinger comentou: “Porque é que devemos dizer alguma coisa [a Yahya] que iria desencorajar o uso de força [no Paquistão Oriental]?”

Alguns antecedentes

Quando a Índia obteve a sua independência da Grã-Bretanha em 1947, a Grã-Bretanha aproveitou as divisões que tinha ajudado a incendiar e outros factores para dividir a sua antiga colónia em dois estados, com base na religião, a República Islâmica do Paquistão e a Índia, predominantemente hindu. Com a partição, morreram provavelmente dois milhões de pessoas e houve 15 milhões de refugiados, caracterizados pelas suas afiliações religiosas, que fugiram das terras em que viviam há gerações e atravessaram as fronteiras de cada país (os hindus que viviam no Paquistão mudaram-se para a Índia e os muçulmanos da Índia para o Paquistão) para regiões completamente estranhas a eles.

Esta invulgar criação geográfica nascida de interesses reaccionários contraditórios combinou grupos étnicos diferentes, tanto no Paquistão Oriental como no Ocidental. Havia pachtuns, punjabis e baluchis no Paquistão Ocidental, um país predominantemente muçulmano. O Paquistão Oriental incluía bengalis e biharis, uma maioria muçulmana e uma considerável minoria hindu. A partição da colónia britânica deixou tanto a Índia como o Paquistão devastados, tendo resultado em muitas vidas perdidas em revoltas, violações, assassinatos e pilhagens. Este foi o crime original que definiu o palco para os horrendos acontecimentos de 1971.

A diferença entre o Paquistão Oriental e Ocidental era mais que apenas a distância, os 1500 quilómetros de território indiano que os separava. O Paquistão Ocidental era economicamente muito mais desenvolvido, incluía o governo central, as instituições militares e tentou tornar o urdu no idioma oficial do país. Os paquistaneses orientais eram maioritariamente muçulmanos e a maioria falava bengali e viam-se como bengalis. Os muçulmanos biharis falantes de urdu que se tinham mudado para o Paquistão Oriental depois da partição eram uma excepção. Os paquistaneses orientais eram olhados para baixo pelos paquistaneses ocidentais. O Paquistão Ocidental só tinha 25 milhões de habitantes, em comparação com os 57 milhões de paquistaneses orientais. Desde o início que a questão do idioma oficial do país era tema de grande protesto.

Com a independência da Grã-Bretanha, as pessoas da parte oriental foram inicialmente leais ao governo no Paquistão Ocidental, mas gradualmente foram sentindo que o colonialismo britânico tinha sido substituído pelo domínio paquistanês ocidental. A parte ocidental suspeitava dos bengalis e da minoria hindu do Paquistão Oriental e via-os como pró-Índia. Em 1958, os generais paquistaneses impuseram a lei marcial no Paquistão Oriental, proibiram os partidos políticos e impossibilitaram os bengalis de expressarem as suas queixas.

Richard Nixon e Henry Kissinger

As reivindicações de uma maior autonomia da parte oriental eram constantes. Duas décadas após a criação do estado, a oposição crescia e muitas manifestações de estudantes e operários faziam pressão pela autonomia. Enfrentando uma grave crise de legitimidade, o governante militar do Paquistão Ocidental, general Yahya, finalmente concordou com a realização de eleições.

O desastroso Ciclone Bhola atingiu o Paquistão Oriental em Novembro de 1970 e o que dele resultou alimentou a fúria contra o Paquistão Ocidental. A devastação tirou a vida a 500 mil pessoas nas zonas baixas do Paquistão Oriental. Uma testemunha relatou como, depois de ventos de 250 quilómetros por hora, não havia nada visível a não ser corpos de pessoas e gado espalhados pela terra. Alguns tinham sido lançados a 10 metros de altura para as árvores ou o mar. Vista de um helicóptero, a zona atingida pela tempestade parecia-se a um “enorme pudim de chocolate pontilhado de passas” – numa perspectiva mais próxima, a terrível realidade era que as “passas” eram cadáveres.

Após o ciclone, o general Yahya visitou a zona mas mostrou-se impassível perante o sofrimento e a devastação. A quase total falta de apoio do governo baseado no Paquistão Ocidental criou uma maior aversão entre os paquistaneses orientais que sofreram essa crise. Isto ajudou a criar a base para a revolta que iria ocorrer pouco depois. Quando as eleições finalmente se realizaram, a Liga Awami de Mujibur Rahman fez uma campanha no Paquistão Oriental com promessas de mais autonomia para que o Paquistão Oriental pudesse decidir as suas próprias condições comerciais, emitir a sua própria moeda e criar uma milícia. O general Yahya recusou-se a aceitar a maioria parlamentar que resultou da vitória esmagadora da Liga Awami.

O cônsul-geral norte-americano, Blood, inspirado por algum do entusiasmo nacionalista bengali nas ruas, acreditava que o governo dele devia intervir para impedir um massacre e tinha esperança numa solução política. Decorriam conversações entre políticos orientais e ocidentais. Blood pensava que Yahya estava a protelar até um maior contingente do exército dele poder ser levado para o Paquistão Oriental. Blood enviou repetidas descrições da acumulação militar e da crise iminente e pediu aos EUA para intervirem contra isto, e tudo isto Nixon e Kissinger continuaram a ignorar. Navios de armamento, cheios até ao limite, eram descarregados na cidade portuária de Chittagong, apesar dos esforços para um bloqueio por parte dos enfurecidos bengalis. A 25 de Março de 1971 começou um grande tiroteio. Houve grandes explosões em toda a cidade de Daca e colunas de tropas marcharam pela cidade, com tanques fornecidos pelos EUA à frente. A guerra civil tinha começado.

O telegrama de Blood

O general Yahya Khan com Richard Nixon

Duas semanas depois do início da chacina no Paquistão Oriental, enfurecido com o silêncio de Nixon e Kissinger, Blood enviou um telegrama de cinco páginas, assinado por ele e pela maioria do pessoal dele, denunciando a política dos EUA como “bancarrota moral”, por tolerarem as atrocidades (a que ele chamou genocídio porque os assassinatos eram sobretudo contra bengalis hindus) e a supressão dos resultados das eleições, e a continuação do apoio e armamento dos EUA ao general Yahya.

O conteúdo do telegrama de Blood tornou-se imediatamente público e obteve credibilidade em vários círculos governamentais. Mas Nixon e Kissinger estavam determinados a continuar a apoiar Yahya. O Paquistão já era o recipiente de milhares de milhões de dólares em jactos, bombardeiros, tanques blindados e veículos militares dos EUA. Visto como traidor por Nixon e Kissinger, Blood foi demitido e foi-lhe atribuído um trabalho burocrático em Washington.

Nixon racionalizou o que ele enganosamente chamou não-acção dos EUA, comparando a situação no Paquistão Oriental com a chacina de habitantes do Biafra quando eles se tentaram separar da Nigéria em 1967-70, dizendo que seria hipócrita intervir nos assuntos internos do Paquistão quando os EUA não tinham feito nada no Biafra. Kissinger também tentou retratar a política norte-americana como sendo de não-intervenção. À medida que as mortes se foram tornando mais expostas, o Congresso impôs uma proibição do fornecimento norte-americano de armas e componentes militares ao Paquistão. Para contornarem a lei, Nixon e Kissinger combinaram em segredo com o Rei Hussein da Jordânia e o Xá do Irão que estes países servissem como canais para as armas e aviões norte-americanos para o exército paquistanês, com garantias privadas de que não haveria nenhuma penalização por violarem a proibição. A proibição pelo Congresso de remessas de armas serviu de cortina de fumo para esconder o que realmente estava a acontecer.

Em finais de Junho, um jornalista do New York Times baseado na Ásia do Sul calculou que tinham morrido 200 mil pessoas no Paquistão Oriental e que estavam a fugir diariamente 154 mil refugiados. Ao mesmo tempo, Nixon insistia que Yahya era um bom amigo e um homem decente que estava a fazer “um trabalho difícil a tentar segurar essas duas partes do país separadas por milhares de milhas e a tentar mantê-las unidas, (...) foi errado assumir que os EUA deveriam andar por aí a dizer a outros países como deveriam tratar dos seus assuntos políticos”.

As relações entre o Paquistão e a Índia já eram azedas desde a independência e a partição que dela resultara. A Índia tinha as suas próprias preocupações estratégicas frias e calculistas. Estava envolvida numa luta com o Paquistão por causa dos esforços indianos para anexar Caxemira. Bass diz que Indira Gandhi estava preocupada que a revolta no Paquistão Oriental encorajasse a revolta da sua própria população rebelde devido à extrema pobreza das pessoas e às acções delas contra o governo. Ela também temia que pudesse fornecer uma abertura ao movimento revolucionário maoista naxalita que então varria o estado indiano do Bengala Ocidental e outras regiões do país. Bass condena a “falta de preocupação dela com os direitos humanos”. Este prisma dos direitos humanos impede-o de ver Gandhi como líder de uma classe exploradora compradora (dependente dos imperialistas) aliada a uma União Soviética que, apesar de reter algumas das características do socialismo – uma economia planificada e a propriedade do estado – tinha restaurado o capitalismo, tinha-se tornado numa superpotência imperialista e estava em disputa com os EUA pelo domínio mundial.

Quando os refugiados paquistaneses orientais em fuga aos massacres começaram a surgir em grande número na fronteira indiana, Indira Gandhi tentou assumir uma elevada posição moral. O governo dela falava emocionadamente dos milhões de refugiados. Mas em privado estava preocupado que os exilados pudessem ser revolucionários e não regressassem ao país deles. Entre muitas pessoas no governo dela houve um clamor a favor da guerra. Em público, Gandhi alegou que a Índia não tinha nenhuma intenção de ir para a guerra, mas começou a treinar paquistaneses orientais que queriam pegar em armas – no Mukti Bahini (Exército de Libertação), inicialmente sob liderança indiana mas que acabou por fugir ao seu controlo. Quando ela perguntou aos seus generais quanto tempo levaria o exército indiano a estar pronto para a guerra, eles responderam seis meses e começaram os preparativos.

Uma diplomacia pública e muitas ameaças e torcer de braços encobertos ocorreram entre os EUA e a Índia. Ambos insistiram em que não estavam a dar nenhum apoio aos dois lados da guerra, mas nos bastidores estavam a preparar-se não só para uma guerra total entre a Índia e o Paquistão, como também a tentar atrair a China e a União Soviética a participarem nos respectivos lados. Por razões que apenas mencionaremos brevemente, Kissinger foi secretamente à China para preparar uma reunião de Nixon com Mao Tsétung. Aí, apelou ao governo chinês, que considerava o Paquistão um aliado contra a União Soviética e a Índia (a China e a Índia já se tinham envolvido por duas vezes em conflitos armados), para enviar soldados para a fronteira China-Índia e causar perturbações à Índia na sua fronteira norte, caso a Índia entrasse em guerra com o Paquistão. Por outro lado, alguns responsáveis indianos estavam a ver a possibilidade de a União Soviética ajudar militarmente no caso de um ataque da China. E, ao mesmo tempo que se preparava para a guerra com o Paquistão, Gandhi queria garantir que parecesse que a Índia estava a ajudar os bengalis a fugir aos massacres perpetrados pelo exército paquistanês ocidental.

No final de Novembro, houve um conflito fronteiriço e uma batalha aérea, com o Paquistão e a Índia cada um a culpar o outro. Daí em diante, o exército indiano lançou cada vez mais ataques terrestres contra o Paquistão Oriental, ao mesmo tempo que os negava. A 3 de Dezembro, o Paquistão lançou ataques aéreos contra os principais aeródromos do norte da Índia, nos estados do Punjab, Rajastão e Uttar Pradesh. Isto deu a Gandhi a desculpa que ela queria para lançar um ataque total ao Paquistão. O exército indiano avançou para capturar rapidamente Daca, a leste. Numa fúria azeda, Nixon ordenou a interrupção de toda a ajuda norte-americana à Índia, invocando a agressão militar indiana. Kissinger chamou-lhe “conspiração indo-soviética, violando um amigo nosso”. Derrotado, o exército paquistanês assinou um tratado de paz a 16 de Dezembro, o qual acabou com a guerra e criou um novo estado, o Bangladesh. Houve um rápido crescimento das forças revolucionárias comunistas, juntamente com um vasto apoio entre as massas e a expansão de algumas zonas libertadas fora do controlo dos vários exércitos reaccionários. (Este artigo não irá analisar a complexidade do que aconteceu no Bangladesh durante este período).

É importante que o livro de Bass tenha exposto completamente o papel pouco conhecido (fora da Ásia do Sul) desempenhado por Nixon e Kissinger na guerra do Bangladesh. Ao focar-se neste acontecimento específico, ele fornece uma perspectiva que abre os olhos em relação às sórdidas relações entre governos reaccionários que ocorrem nos bastidores do complexo desenvolvimento de crises, muitas vezes criadas por eles e normalmente vedadas aos olhares do público.

Num livro anterior, Bass defendeu a necessidade da intervenção humanitária para impedir ou parar chacinas em massa, sempre que elas ocorram no mundo. Em O Telegrama de Blood, Bass defende que deveria ter havido uma intervenção para impedir o massacre, mas que em vez disso foram mantidas as políticas que se concretizaram, por duas razões: a longa aliança dos EUA com o Paquistão e a amizade pessoal de Nixon com o seu ditador general Yahya; e o desejo de não pôr em risco o papel de Yahya na facilitação da desejada visita de Nixon à China, vista como um importante trunfo da Guerra Fria para Nixon e Kissinger.

Mas ao livro falta o contexto mundial e deixa impune a defesa pelo governo norte-americano dos seus interesses nacionais. Talvez excepcionais na sua baixeza aberta, ainda assim Nixon e Kissinger não eram apenas dois indivíduos. Eles foram cúmplices e facilitaram o assassinato de paquistaneses orientais não sobretudo por causa dos seus desejos subjectivos ou da sua imoralidade pessoal, mas pelos interesses globais que eles serviam. Eles eram importantes representantes dos interesses de uma classe dominante imperialista, os capitalistas monopolistas que governam os EUA, e que antes e depois destes acontecimentos têm uma longa história de manter e tentar ampliar um império mundial de exploração e opressão.

O livro de Bass chama à política de Nixon e Kissinger para o Bangladesh um dos piores crimes do século XX e prova essa afirmação com grande detalhe. Contudo, ignora algumas das provas que ele próprio traz à luz do dia, e sobretudo as conclusões para que essas provas objectivamente apontam. No seu prefácio, ele diz que “o apoio [de Nixon e Kissinger] a uma ditadura militar envolvida em assassinatos em massa é uma recordação do que o mundo pode facilmente vir a ser se não houver nenhuma preocupação com a dor de estranhos distantes”. Contudo, embora seja verdade que Nixon e Kissinger não tinham nenhuma preocupação com as vidas dos bangladeshianos, eles estavam extremamente preocupados com os interesses dos imperialistas norte-americanos. O apoio encoberto dos EUA ao Paquistão Ocidental, por um lado, e a sua recusa pública em intervirem para parar a chacina no Bangladesh pelo Paquistão Ocidental, por outro lado, eram dois lados da mesma moeda: os interesses da manutenção e expansão do império norte-americano face à rivalidade soviética pelo domínio do mundo.

Os EUA aliaram-se ao regime de Yaya porque a classe dominante norte-americana considerava o Paquistão um aliado fidedigno nos seus esforços para “conter” (cercar) a União Soviética e opor-se à Índia apoiada pelos soviéticos. A tentativa de conversações de Nixon e Kissinger com a China baseava-se não apenas, nem sequer sobretudo, nas ambições pessoais deles, mas sim nessa mesma necessidade do império.

Bass quer mostrar que os EUA deveriam ter intervindo no Bangladesh do lado dos direitos humanos, e que o maior crime de Nixon e Kissinger não foi deixar que isso tivesse acontecido. Ele não compreende completamente que a intervenção dos EUA historicamente só têm sido e só pode ser pelos seus próprios interesses estratégicos e não por qualquer necessidade humanitária. As discussões sobre intervenção ou interferência nos assuntos internos de um estado soberano sempre foram decididas com base nos objectivos de longo e por vezes curto prazo do império norte-americano e não em bases morais. De facto, tal como Bass extensivamente documenta, em 1971 no Bangladesh, Nixon e Kissinger intervieram, do lado que na perspectiva deles melhor representava os interesses globais dos EUA.

A importância da Guerra Fria

Embora aceitando a importância da Guerra Fria, Bass menospreza o conluio e sobretudo a disputa entre os EUA e a União Soviética como forças motrizes dos acontecimentos mundiais nessa altura. Depois da II Guerra Mundial, a Guerra Fria atravessou muitas fases diferentes. A partir de meados dos anos 1950, a União Soviética passou a ser socialista em palavras, mas na realidade capitalista e imperialista. A disputa EUA-União Soviética sobre as esferas de influência na Ásia, África e América Latina levou à corrida às armas nucleares e à crescente possibilidade de uma guerra nuclear.

Ironicamente, Nixon tinha sido antes pessoalmente identificado com as tentativas norte-americanas de estrangular a revolução chinesa, mas, com o desenvolvimento dos acontecimentos mundiais, ele e Kissinger passaram a ver a abertura de canais com a China como uma jogada estratégica no avanço da disputa norte-americana da Guerra Fria e no reforço das suas esferas de influência. Nessa altura, a China, que ainda era um país socialista, estava a adoptar algumas medidas tácticas, incluindo uma “abertura ao Ocidente”, como parte do lidar com a muito real ameaça de ataque à China por parte da União Soviética. Antes aliados socialistas, a China tinha exposto a União Soviética por esta se ter tornado capitalista. Havia intensas escaramuças na fronteira sino-soviética. Nixon e Kissinger compreenderam essa tensão e pensaram que, através da manutenção de relações com a China, poderiam ter uma aliança táctica com a China contra a União Soviética.

Os massacres de 1971 e os 10 milhões de refugiados ocorreram durante um período em que Nixon andava a propagar a sua “teoria do louco”, segundo a qual o mundo deveria compreender que ele era suficientemente louco para lançar armas nucleares. Nixon e Kissinger ameaçaram usá-las contra os vietnamitas. Mas a luta de libertação vietnamita e outros factores acabaram por forçar Nixon a assinar um acordo de paz. Em 1973, o mesmo governo Nixon/Kissinger que argumentou publicamente contra a intervenção no Bangladesh, organizou um golpe militar no Chile contra o governo eleito de Salvador Allende, visto até certo ponto como uma ameaça aos interesses norte-americanos devido ao medo dos EUA de que ele reforçasse a influência política soviética na América Latina e noutros lugares. Estes acontecimentos foram alimentados pela disputa EUA-União Soviética da Guerra Fria. Com a queda do muro de Berlim, a Guerra Fria terminou num triunfo norte-americano. Os objectivos estratégicos dos EUA passaram a ser então desmantelar o bloco soviético e estabelecer-se como a única superpotência.

Não esquecer a história

Com início muito antes da Guerra Fria e ao longo da história dos Estados Unidos, as invasões, massacres, ocupações, golpes militares, o uso de armas nucleares contra populações civis (em 1945) e as ameaças de as usarem contra muitos outros países, e o apoio a esquadrões da morte e a tiranos, tudo isto tem feito parte da construção e da base histórica do império norte-americano.

Ao longo dos quase 70 anos após a II Guerra Mundial, os EUA extinguiram voluntariamente milhões e milhões de vidas – esmagadoramente civis – frequentemente para aterrorizar e esmagar populações inteiras. Mataram cerca de três milhões com armas convencionais no sudeste asiático durante a Guerra do Vietname, mais de meio milhão durante o seu apoio e organização de esquadrões da morte na América Central nos anos 1980, já para não falar na continuação desses crimes quando a Guerra Fria já não fornecia nenhuma desculpa, como nos anos 1990 os mais de meio milhão de iraquianos mortos – sobretudo crianças – através da imposição de sanções económicas estropiantes, e nas ocupações do Afeganistão e do Iraque. Os interesses da humanidade e as vidas de milhares de milhões de pessoas não foram nada em comparação com as considerações do império.

O que aconteceu no Paquistão em 1971 fez parte disto, não foi uma aberração de Nixon/Kissinger. Nixon (que depois da sua morte foi de alguma forma absolvido pelos fazedores de opinião pública) e Kissinger (que apesar dos seus crimes ainda é altamente considerado nos círculos imperialistas) basearam todas as suas acções principalmente na base da protecção e expansão do império norte-americano e das suas esferas de influência.

Paquistão – uma situação explosiva criada pelos EUA

O próprio Paquistão é um exemplo de como os EUA usaram países inteiros para os seus próprios interesses e objectivos estratégicos. Durante décadas, os EUA viram-no como contrapeso à Índia que era então aliada da União Soviética. Durante grande parte da sua existência, o Paquistão foi governado por juntas militares que promoveram a islamização como base da sua legitimidade, como ferramenta de estado e como meio de sufocar as massas populares. Quando a União Soviética invadiu o Afeganistão nos anos 1980, os EUA incrementaram o apoio militar e económico ao Paquistão para ajudarem a oposição islamita aos soviéticos. Posteriormente, os EUA apoiaram os ISI (serviços secretos) paquistaneses na ajuda para fazerem os talibãs chegar ao poder, o que o Paquistão via como uma forma de assegurar que o Afeganistão ficasse sob sua influência, em vez de cair sob a da Índia. Uma vez mais, os crimes foram a base para mais crimes.

Depois do colapso da União Soviética, os EUA passaram a cultivar a Índia como seu principal aliado na região, causando uma crescente rivalidade entre a Índia e o Paquistão. Na invasão do Afeganistão em 2001, os EUA expulsaram os talibãs e outros islamitas do Afeganistão para o Paquistão e depois incendiaram ainda mais o ódio no Afeganistão e no Paquistão devido aos seus bombardeamentos em massa de civis e à brutalidade global da sua ocupação – detendo ilegalmente e torturando paquistaneses e afegãos, usando ataques de drones e outras operações militares que têm matado muitos civis.

A intervenção das potências imperialistas e outros estados reaccionários, independentemente de sob que disfarce, deve ser entendida desta forma. A intervenção dos EUA ou de qualquer potência imperialista nunca resultará em nada de bom. Ao pensarem na Ucrânia ou na Síria, as pessoas devem lembrar-se do que os EUA fizeram no Bangladesh.