México: A “nova cara” do papa de duas caras

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 1 de fevereiro de 2016, aworldtowinns.co.uk

O seguinte artigo é do Aurora Roja, o sítio internet da Organização Comunista Revolucionária (OCR), México (aurora-roja.blogspot.com)

O papa Francisco irá aterrar no México a 12 de fevereiro. Ele irá falar com familiares de desaparecidos, com povos indígenas e com outras pessoas cujas vidas foram tornadas num inferno pelo funcionamento do sistema capitalista-imperialista que governa o mundo. Irá exprimir as condolências dele para com os pobres, condenar algumas injustiças, criticar o “consumismo” e a “sociedade do deitar fora” e talvez a “falta de vontade política” dos governantes, mas não irá condenar o sistema que causa todo este sofrimento. Também irá falar com [o Presidente mexicano] Enrique Peña Nieto, com a hierarquia católica e com outros homens poderosos. Jorge Bergoglio [o verdadeiro nome do papa] sabe que a legitimidade do estado mexicano está em crise. Ele sabe do assassinato e desaparecimento de estudantes da faculdade de formação de professores de Ayotzinapa e de dezenas de milhares mais, dos outros massacres cometidos e encobertos pelas forças de segurança estatais, da pobreza esmagadora que a maioria das pessoas enfrenta, da corrupção desavergonhada do estado, da cumplicidade com o crime organizado e da impunidade quase total desfrutada pela polícia criminal, pelas forças armadas e pelas autoridades civis. O papa irá tentar canalizar a exasperação e fúria das pessoas para um beco sem saída. Irá pregar a paz social e a reconciliação entre opressores e oprimidos. Irá condenar a luta revolucionária que é necessária para pôr fim ao atual sistema e a todo o sofrimento desnecessário que ele causa.

A Francisco foi confiada a tarefa de dar à Igreja Católica uma nova cara. Porquê? Porque o mundo de hoje, com todas as suas intoleráveis injustiças e degradação, a sua desnecessária pobreza e morte, está em crise, e devido à crise climática põe em perigo os ecossistemas que sustentam a vida na Terra. Nestas condições, a Igreja precisa de adotar um discurso mais “compassivo” para se dirigir aos desapropriados, para que possa recuperar a sua influência sobre eles. Entre as razões para a debilitação da influência da Igreja sobre as pessoas estão a proteção dada pelo Vaticano aos padres, bispos e núncios papais abusadores de crianças; o escândalo do Banco Vaticano e o alinhamento geral da Igreja com os poderosos e o abandono dos pobres; e a moralidade da Idade das Trevas que tenta impor, reduzindo as mulheres a úteros e demonizando toda a sexualidade cujo objetivo seja o prazer, a intimidade e o amor em vez da reprodução.

“Desde sempre e para sempre” que a Igreja e a sua doutrina têm propagado a superstição, a ignorância, a subserviência ao poder; a dominação dos homens sobre as mulheres e dos brancos sobre as outras “raças” e das classes possuidoras sobre os que nada têm. O papa Francisco está a tentar modernizar a imagem da Igreja sem mudar a natureza essencial da sua ideologia e missão.

Vejamos a “nova cara” de duas caras do Vaticano:

1. Abençoar o genocídio dos povos indígenas: Ao falar sobre a Conquista [a Conquista espanhola das Américas], Francisco disse: “Houve abundantes pecados, e para eles eu peço perdão; contudo, onde houve pecado também houve graça ainda mais abundante”. A conquista e colonização dos povos originais das Américas não foram “pecados contra deus” mas sim um genocídio físico e cultural que eliminou mais de 95 por cento da população original para servir os interesses das potências europeias e do capitalismo incipiente. Segundo o Papa, esse genocídio foi sobretudo uma coisa boa porque “houve graça abundante” graças aos “padres e bispos que firmemente se opuseram à lógica da espada com a força da cruz”. Na realidade, tanto a espada como a cruz foram armas essenciais para fazer com que os povos originais se submetessem ao regime da monarquia espanhola e à autoridade do papa. Em Michoacán [um estado do México ocidental com uma grande população indígena], Bergoglio tentará identificar-se com “Tata Vasco” (o “papa” Vasco Quiroga, o primeiro bispo de Michoacán) e em Chiapas [um estado do México meridional, também com muitos indígenas, bem como descendentes de africanos] com Bartolomé de las Casas [o primeiro bispo do estado]. Ambos criticaram a escravização dos indígenas (embora de las Casas tenha defendido a escravidão dos africanos) e acabaram por cair nas graças dos reis espanhóis quando procuraram formas menos sangrentas de reprimir as pessoas, dado que os massacres espanhóis estavam a criar muita resistência à “evangelização”. Quando Francisco esteve nos EUA, ele declarou Junípero Serra santo. Serra foi um padre que esgrimiu a cruz e a espada para escravizar os povos indígenas nas minas da América do Sul e nas “missões” na Costa Ocidental do que são agora os Estados Unidos. O sistema de missões levou à morte de mais de 60 000 índios americanos entre 1769 e 1821. As enormes riquezas espremidas do sangue e ossos de milhões de indígenas e negros forneceram uma grande parte da base sobre a qual capitalismo passou a dominar o mundo.

2. Escravizar as mulheres e demonizar as lésbicas, os gays, os bissexuais e as pessoas transgénero (LGBT): A Igreja Católica é um pilar da patriarquia e da dominação dos homens sobre as mulheres. Opõe-se ao direito ao divórcio, à contraceção e ao aborto, e prega que a “vocação” das mulheres é serem mães e servirem a família delas. O papa Francisco disse: “Eu gosto de descrever a dimensão feminina da Igreja como um útero de boas-vindas que regenera a vida”. Ele resumiu o papel das mulheres com quatro verbos: “Desejar, dar à luz, criar e deixar ir”. Durante muitos séculos, esta doutrina condenou milhões de mulheres a manterem-se em casamentos abusivos, por vezes até serem mortas pelos maridos a quem a Bíblia as condena à obediência. Condenou milhões de mulheres a maternidades forçadas ou à morte por falta de abortos seguros e legais, e a carregarem o fardo da culpa quando trabalhavam fora de casa, quando queriam controlar a sua própria reprodução, decidiam não ter filhos e lutavam para serem respeitadas como seres humanos iguais e pela sua participação integral na sociedade. Falando sobre as mulheres, o papa Francisco disse: “Só há um modelo para vocês, Maria. Ela que era fiel, que não percebia o que lhe estava a acontecer, mas que obedeceu.” Estas palavras ecoam passagens misóginas da Bíblia, como: “A mulher deve aprender em silêncio com toda a reverência. E não permito que a mulher ensine, nem exerça autoridade sobre o homem. Esteja, portanto, em silêncio. Porque Adão foi criado primeiro, e Eva depois. E mais, Adão não foi enganado, mas a mulher é que foi enganada e caiu em transgressão.” [Timóteo 2:11]

Ao longo deste ano, Francisco ofereceu “perdão” às mulheres que “se arrependam” do “pecado” do aborto. Esta suposta “clemência” é uma forma de reafirmar a dominação sobre as mulheres que têm a audácia de insistir que só elas, e não o estado nem a Igreja nem mais ninguém, tenham o direito a decidir se elas irão ou não ter filhos. Em muitos países, a Igreja continua a impor leis que criminalizam o aborto e levam à morte ou ao encarceramento de muitas mulheres que fazem abortos (mesmo abortos espontâneos). Isto já acontece em 18 estados do México. O objetivo não é “proteger a vida” mas antes fazer com que as mulheres se submetam à autoridade masculina, a qual é um aspecto basilar de todas as sociedades baseadas na exploração.

O papa também irá oferecer a “compaixão” dele às pessoas LGBT, as quais também não têm nenhuma razão para pedirem “perdão”. Pelo contrário, a Igreja Católica deveria renunciar à sua visão tacanha que considera que todas as relações sexuais cujo objetivo não seja tornar a mulher grávida são um “pecado”. Esta papa supostamente compassivo alega que a legalização do casamento homossexual é “obra do diabo”.

3. O papa e a “guerra suja” na Argentina e a subjugação dos pobres: Francisco alega que luta pela “justiça” para os pobres. A verdadeira posição dele em relação aos oprimidos ficou a nu em 1983 na Argentina, quando os generais fascistas apoiados pelos Estados Unidos fizeram um golpe de estado e sequestraram, torturaram e fizeram “desaparecer” pelo menos 30 000 pessoas. Alguns padres católicos e mesmo bispos opuseram-se ao regime fascista; o qual assassinou cem padres, freiras e outros membros do clero, entre os quais um bispo, Enrique Angelelli. Jorge Bergoglio, que era cardeal nessa altura, ordenou aos padres dele que deixassem de apoiar a resistência antifascista e mesmo que deixassem de trabalhar nos bairros pobres porque os homens que então estavam no poder consideravam essas atividades “subversivas”. Bergoglio foi cúmplice na prisão, tortura e desaparecimento de membros dissidentes do clero e deu legitimidade aos generais fascistas ao aparecer em público e celebrar missa com eles. O papa limita a “compaixão” dele àqueles se entre os pobres que aceitam o sistema que os oprime.

4. Tentar enganar as pessoas sobre o aquecimento global: Na sua encíclica “Laudato Si”, Francisco expõe muitos aspectos da crise climática. Reconhece o aquecimento global e critica a “inação” dos governos e dos poderosos, mas não denuncia o sistema capitalista explorador que está a destruir a Terra. Ele apenas denuncia a “atividade humana” em geral, o “pecado” da humanidade e os “excessos e injustiças” cometidos pelo sistema. Além disso, o papa elogia os acordos alcançados na conferência internacional do clima em Paris (COP21). Isto apesar do facto de todos os objetivos acordados para a redução dos gases de efeito de estufa serem voluntários, e mesmo que sejam conseguidos (o que não é provável) estas emissões ainda assim conduzirão a um aumento da temperatura de pelo menos 3 °C, duas vezes o que a maioria dos cientistas considera ser o limite superior para que a catástrofe seja evitada. Juntamente com o presidente norte-americano Barack Obama, o presidente mexicano Peña Nieto e outros representantes da ordem capitalista, o objetivo do papa é fazer com que pareça que a crise climática está sob controlo e desviar o crescente descontentamento e consternação das pessoas em relação ao futuro do planeta para canais que reforçam o sistema que criou este problema.

5. Continuar a proteger o clero abusador de crianças: O papa gosta de falar da “tolerância zero” em relação aos padres que abusam sexualmente de menores, mas na prática ele continua a encobrir estes crimes. O caso do embaixador do papa na República Dominicana, Josef Wesolowski, deixa cair uma luz brilhante sobre esta hipocrisia. Wesolowski foi acusado de pederastia em dezenas de casos e estava quase a ser preso quando Francisco ordenou que ele fosse transferido furtivamente para fora do país e que fosse levado secretamente de volta ao Vaticano, onde está protegido contra extradição. Posteriormente, na véspera do julgamento dele por um tribunal da Igreja, foi encontrado morto no apartamento dele no Vaticano.

6. Contribuir para a epidemia genocida de SIDA/VIH: O papa Francisco levou a “compaixão” dele ao Uganda, onde abraçou e beijou crianças com VIH, ao mesmo tempo que reafirmou a proibição pela Igreja do uso de preservativos, que poderiam salvar centenas de milhares de vidas humanas. Ele disse que, porque as pessoas morrem de muitas causas, é insensato discutir “essa tira de plástico”. O que se pode dizer em relação a uma moralidade que pede a proibição dos preservativos em vez de salvar as vidas de centenas de milhares de pessoas?

Lutemos por uma moralidade radicalmente diferente e por um mundo muito melhor

Em vez da moralidade ignorante e mortal a que a humanidade está sujeita, precisamos de uma abordagem e de uma moralidade que correspondam à realidade e que contribuam para a emancipação da humanidade. Tal como mostrou Bob Avakian (O BÁsico, 4:17): “A noção de deus, ou deuses, foi criada pela humanidade, na infância dela, com base na ignorância. Isto tem sido perpetuado pelas classes dominantes desde então, ao longo de milhares de anos, para servir os interesses delas na exploração e dominação da maioria das pessoas e para as manter escravizadas à ignorância e à irracionalidade. Fazer nascer um mundo e um futuro novos, e muito melhores, para a humanidade significa derrubarmos essas classes exploradoras e libertarmo-nos delas, deixando para trás para sempre essa ignorância e irracionalidade escravizadoras.”