[A seguinte série de artigos foi publicada no Revolution/Revolución, órgão do Partido Comunista Revolucionário dos EUA. O seguinte artigo foi publicado no nº 141, datado de 24 de Agosto de 2008.]

As alterações e fissuras na economia mundial
e a rivalidade entre as grandes potências:
O que está a acontecer e o que isso pode significar

4ª Parte – O ressurgimento do imperialismo russo

Por Raymond Lotta

Este é o quarto de uma série de artigos sobre as principais alterações que estão a ocorrer na economia imperialista mundial – e sobre algumas das suas maiores implicações geopolíticas.

A análise começou com uma análise das recentes tendências e principais desenvolvimentos na economia mundial. A isso seguiu-se um exame da ascensão da China no sistema mundial e da sua crescente capacidade de projectar internacionalmente o seu poder. A análise virou-se então para a União Europeia e o seu aparecimento como bloco imperialista altamente integrado, coordenado e cada vez mais afirmativo.

Os Estados Unidos continuam a ser a potência imperialista dominante no mundo, económica e militarmente. Os EUA são os guardiães de uma ordem capitalista global que beneficia, pelo menos por agora, todas as grandes potências. Mas a posição global dos EUA está a enfraquecer. Ao mesmo tempo, está a crescer o potencial de várias potências, ou alianças de potências, para criarem desafios internacionais mais formidáveis ao imperialismo norte-americano – económica e estrategicamente.

A ascensão da China é talvez a alteração tectónica mais significativa na paisagem económica global. Mas o regresso do imperialismo russo talvez seja a alteração mais dramática e inesperada.

Há uma década atrás, a economia russa estava praticamente de rastos. Hoje em dia, a classe dominante russa mostra um crescente poder económico no mundo e prossegue um programa estratégico que está a entrar em conflito mais agudo com o imperialismo norte-americano.

I. O fim da Guerra Fria, a transição económica e a crise: 1991-1998

Durante cerca de trinta e cinco anos, a União Soviética foi uma sociedade socialista genuína. A revolução soviética de 1917 criou uma economia que deixou de ter por base a exploração. Tomou medidas radicais e inspiradoras para eliminar a opressão das mulheres e obter a igualdade entre as nacionalidades. Mas a União Soviética deixou de ser um país socialista em meados dos anos 50.

Uma nova classe burguesa chegou ao poder e transformou a sociedade soviética numa forma particular de capitalismo-imperialismo. Era um capitalismo em que uma burguesia estatal explorava o trabalho assalariado. Era um capitalismo em que a concorrência entre blocos capitalistas ocorria num quadro de propriedade do estado. Quando a União Soviética se desmoronou em 1991, também se desmoronou esse capitalismo de estado.

A Guerra Fria entre os EUA e a União Soviética terminou com o fim e a desintegração da União Soviética. Tratou-se de uma mudança decisiva na situação internacional global. Abriu uma nova oportunidade económica e estratégica ao imperialismo norte-americano: para o investimento, para a resolução a seu favor de conflitos em diferentes partes do mundo (como a luta na África do Sul), para expandir a sua principal aliança militar – a NATO – à Europa de Leste.

Na Rússia, um novo regime, liderado por Boris Ieltsin e apoiado pelos EUA, tentou reestruturar a economia russa segundo linhas semelhante às das instituições e práticas dos países capitalistas ocidentais. Abriu totalmente as portas aos investidores ocidentais. Uma nova Rússia começou a emergir num quadro de domínio global dos EUA.

A). A reforma económica dos anos 90

O regime de Ieltsin, com a intromissão e a ajuda de conselheiros ocidentais e do Fundo Monetário Internacional [FMI] dominado pelos EUA, levou a cabo uma série de reformas para refazer a economia e estimular o crescimento. Desregulou os preços, eliminou os subsídios especiais e o controlo governamental dos preços. Promoveu a formação dos mercados financeiro e bolsista. Liderou um enorme programa de privatizações, vendendo antigas empresas estatais a investidores privados e grupos de investimento. Diminuiu os gastos sociais.

O FMI forneceu crédito e empréstimos na condição de o governo russo impor e levar a cabo a sua “terapia de choque”.

A privatização teve os efeitos mais destruidores das várias reformas. Na antiga União Soviética, a actividade industrial, comercial e financeira era levada a cabo esmagadoramente por empresas estatais. Em 1997, o sector privado era responsável por mais de 70% da produção económica da Rússia.

Foram criados muitos novos negócios privados. Mas o controlo tinha caído nas mãos de um pequeno mas poderoso novo estrato de investidores e empresários ricos. Esse estrato recolheu enormes lucros e acumulou uma vasta riqueza com a compra, venda e consolidação dos direitos de propriedade dos antigos bens estatais.

A rápida reestruturação da economia russa não levou a uma recuperação económica e crescimento. Os empréstimos estrangeiros e o investimento directo estrangeiro não se materializaram na escala antecipada pelos governantes da Rússia. A corrupção e a recolha de lucros de curto prazo cresceram rapidamente. As lutas internas dentro da classe capitalista russa escalaram. O investimento industrial decresceu nitidamente. A Rússia entrou em crise.

As estatísticas são surpreendentes: entre 1991 e 1997, a produção económica da Rússia afundou em mais de 40% (um declínio maior que durante a Grande Depressão nos EUA dos anos 30). O desemprego era em média de 13 a 15%.

Para a população em geral, os resultados da “terapia de choque” foram horrendos. As desigualdades de rendimentos aumentaram significativamente. O colapso dos serviços públicos básicos e uma gigantesca deslocação de pessoas levaram a um agudo crescimento do crime, das doenças mentais e das taxas de suicídio. A esperança de vida caiu de 70 para 65 anos – sem precedentes em sociedades industriais modernas em tempo de paz.

B). Os factores internacionais e a crise de 1998

Era esta a dinâmica em jogo: a ineficiente e caótica economia da Rússia não conseguia “ligar-se” competitiva e lucrativamente à economia internacional; simultaneamente, a instabilidade na economia capitalista mundial estava a afectar a Rússia.

No verão de 1997, a Ásia de Leste foi atingida por uma grande crise financeira. Os investidores afastaram-se do mercado de bens imobiliários, da bolsa e do mercado de divisas. Agora, estava a aumentar a pressão sobre a Rússia. Os empréstimos de bancos e governos estrangeiros estavam a chegar ao fim do prazo, mas havia poucos sinais de crescimento económico.

A Rússia não conseguia cumprir o pagamento dos seus empréstimos. A confiança dos investidores depressa se desfez. E, a 13 de Agosto de 1998, os mercados russos de acções, obrigações e divisas desmoronaram-se. A divisa da Rússia, o rublo, perdeu 60% do seu valor em apenas alguns meses. Cinco dos dez maiores bancos faliram. Os salários reais afundaram-se em dois terços do seu valor. Ieltsin perdeu quase toda a credibilidade[1].

É útil olharmos para trás para termos um pouco de perspectiva histórica.

O colapso do bloco imperialista soviético em 1990-91 levou a uma nova vaga de globalização sob o domínio dos EUA. Os mercados e as regiões do mundo, incluindo no antigo bloco soviético, foram ainda mais abertos ao capital imperialista. Uma economia industrial integrada, global e de trabalho barato estava na forja – com a China a ser transformada na “oficina/fábrica” do capitalismo internacional.

O capitalismo monopolista russo integrou-se nessa economia mundial mais globalizada mas sofria de duas desvantagens. Primeiro, estava a integrar-se numa posição de fraqueza interna. A economia russa estava infestada de ineficiências industriais que vinham dos anos 70. E a privatização e as reformas de desregulação dos preços da era Ieltsin tinham tido inicialmente efeitos destabilizadores.

Segundo, o contexto internacional externo era desfavorável ao capital russo. A agitação nos mercados financeiros internacionais tornou difícil estabilizar o rublo e atrair investimento estrangeiro. Os preços mundiais de produtos como o petróleo, o gás natural e outras matérias-primas abundantes na Rússia eram baixos. Isso era um entrave à capacidade da Rússia para aumentar as receitas das exportações.

Os anos 90 também foram um período em que o imperialismo norte-americano, sob o comando do então presidente Clinton, visava agressivamente restringir a margem de manobra do imperialismo russo. Em particular, Clinton estava a pressionar a NATO, a aliança militar liderada pelos EUA na Europa Ocidental, para se expandir e incorporar os países do antigo bloco soviético situados na Europa de Leste e no Báltico.

II. A presidência de Putin: Um novo projecto imperial num quadro internacional alterado e sombrio

A crise financeira de 1998 foi uma espécie de ponto de viragem. A economia russa atingiu o fundo. Os conflitos dentro da classe dominante russa estavam a intensificar-se – sobre questões de controlo e gestão económica e de política e postura internacional. Nesse enquadramento, “um novo tipo de postura competitiva, capitalista mas com uma primazia restabelecida da direcção estratégica do estado e segundo uma ideologia largamente ‘eurasiática’ [menos orientada para o ocidente], começou a tomar forma”[2].

A). Uma re-restruturação

Vladimir Putin articulou e defendeu essa nova orientação.

Política e economicamente:

Geopoliticamente:

Ideologicamente, Putin ventilou uma atmosfera política nacionalisto-chauvinista e um movimento de criação da base social para um imperialismo russo ressurgente.

B). O enquadramento internacional

Uma combinação de factores internacionais favoráveis tornou possível que Putin alterasse esse programa. Estes factores incluíam: o crescente preço dos recursos energéticos; o rápido crescimento económico da China; e o alargamento da UE, com a consolidação do euro – a divisa da União Europeia – e o seu crescente papel nas transacções internacionais, incluindo as petrolíferas (Ver a 3ª Parte desta série, “A União Europeia como potencial rival do domínio dos EUA”).

Ao mesmo tempo, um outro factor internacional confrontou a classe dominante russa com novas necessidades.

O regime Bush tinha aproveitado os ataques de 11 de Setembro para desencadear uma guerra por um império norte-americano mais vasto – fazendo-o sob a capa de uma “guerra ao terror”. O objectivo dessa “guerra sem fim” é assegurar o domínio global dos EUA durante as próximas décadas. O seu primeiro acto foi o derrube do regime talibã no Afeganistão.

Durante a preparação da guerra do Afeganistão, os EUA começaram a estabelecer bases militares em vários países da Ásia Central. O imperialismo norte-americano estava agora mesmo à porta da Rússia, com uma crescente capacidade militar para impor uma presença muito para além do Afeganistão. E o imperialismo norte-americano estava a aumentar a disputa pelo controlo da produção e transporte de petróleo e gás natural na Ásia Central.

III. O ressurgimento: Energético e militar

Entre 1999 e 2007, a economia da Rússia cresceu 7% ao ano – uma taxa de crescimento mais elevada que a de qualquer dos outros principais países industrializados que integram o G-8. O mercado de valores da Rússia é um dos que mais rapidamente está a crescer no mundo[3]. A Rússia detém actualmente a terceira maior reserva de divisas internacionais do mundo, depois da China e do Japão. As reservas de divisas externas são as receitas em dólares, euros e outras principais divisas mundiais provenientes das exportações e de várias entradas de capital – e as decisões da Rússia de manter ou vender dólares podem influenciar significativamente o peso internacional do dólar[4].

A reviravolta económica da Rússia é o resultado de dois factores relacionados.

Primeiro, os preços dos mercados mundiais de petróleo, gás natural e outros recursos naturais subiram nos anos 2000 – e as receitas das exportações da Rússia dispararam em resultado disso.

Segundo, o crescimento das exportações estimulou a economia russa para além do sector das matérias-primas e reactivou alguma da capacidade industrial inactiva da era pré-1991. As receitas das exportações também tornaram possível a importação de equipamento e tecnologia avançada para reinstalar alguma da envelhecida capacidade industrial da Rússia.

Um progressista especialista na Rússia parece estar correcto ao caracterizar um importante elemento do projecto imperial da Rússia como sendo o de “usar [os] recursos do país para conseguir um maior papel nas questões globais e conseguir mais oportunidades de internacionalização para o capital russo”[5].

A). A energia como sector estratégico

À medida que a economia da Rússia ressurgia, Putin orientou a consolidação dos sectores do petróleo e do gás natural. Assegurou o controlo estatal das mais promissoras novas fontes de energia do Extremo Oriente da Rússia. Definiu condições rígidas de operação para as empresas de energia estrangeiras.

A Gazprom, a empresa russa de gás natural, é a peça central do sector estratégico da energia da Rússia. A Gazprom é responsável por 8% do PIB da Rússia. O seu principal accionista é o governo russo. Dmitry Medvedev, que sucedeu a Putin como presidente no início de 2008, tinha sido presidente da Gazprom.

A Gazprom é a maior empresa produtora de gás do mundo. É a terceira maior empresa do mundo, depois da Exxon-Mobil e da GE. A Gazprom detém algo entre um quarto e um terço das reservas estimadas de gás natural do mundo e detém a maior rede de gasodutos do mundo[6].

Através da Gazprom, a Rússia controla as rotas de fornecimento e exportação de gás das regiões do Mar Cáspio e Ásia Central para a Europa. Isto implicou a assinatura de uma série de acordos com o Cazaquistão, o Turquemenistão e o Uzbequistão.

A Gazprom também tem aumentado a sua presença directa no mercado europeu. Isto tem envolvido a aquisição de empresas da Europa Ocidental ou de acções de empresas, a construção de infra-estruturas e aquilo a que se chama permutas: o capital da Europa Ocidental adquire activos de campos russos de petróleo e gás, enquanto a Rússia adquire activos de instalações de transporte e distribuição da Europa Ocidental.

A Europa Ocidental depende da Rússia para quase 25% do gás natural que consome. Em 2010, o gasoduto do Norte da Europa, que atravessa o fundo do Mar Báltico, ligará ainda mais a Rússia e a Alemanha. Por sua vez, a Rússia precisa do mercado europeu, que absorve 75% das exportações do crude petrolífero da Rússia[7].

A Rússia de Putin está a tentar expandir a sua influência na Europa, amarrando os países a acordos energéticos de longo prazo que visam debilitar a aliança UE-NATO. Há uma crescente cooperação industrial e tecnológica entre a Rússia e a EADS, a empresa aeroespacial da Europa Ocidental, e a Rússia está a tentar aumentar a sua participação nessa empresa.

Ao mesmo tempo, há preocupação na UE de que a crescente dependência energética da Rússia limitará a sua liberdade de manobra – e a UE tem tentado diversificar as suas fontes de energia, mesmo enquanto aprofunda os laços económicos com a Rússia.

A Rússia tem usado a energia como arma política. Em Janeiro de 2006, cessou temporariamente a distribuição de gás natural à Ucrânia. A Ucrânia, uma antiga república da ex-União Soviética, é um estado independente que tem tentado ser membro da NATO.

B). As dimensões militares

Com as receitas das exportações, o regime de Putin intensificou os gastos militares. A Rússia tem agora a terceira maior despesa militar do mundo (medida em termos de poder de compra comparado)[8].

Entre 2003 e 2007, a Rússia foi o segundo maior comerciante de armas do mundo, ficando perto dos EUA[9]. A Rússia depende pesadamente da exportação de armas para manter a sua base industrial e tecnológica. A produção de armas é um sector que a Rússia tem desenvolvido e para o qual tem mobilizado tecnologia de ponta.

As vendas e transferências de armas também são um veículo para a Rússia expandir a sua influência geopolítica na Ásia Central, no Médio Oriente e na América Latina (a Venezuela é um importante cliente). A entrega pela Rússia de sistemas avançados de armas ao Irão permitiu à Rússia ampliar a sua presença no Médio Oriente e influenciar a liberdade de acção dos EUA em relação ao Irão, sem confrontar directamente o imperialismo norte-americano.

C). A realidade

O renascimento da economia russa não produziu na prática uma sociedade mais justa.

Nalguns sectores industriais, os operários são forçados a trabalhar longas horas extraordinárias. As pensões foram reduzidas ou eliminadas. Com a recuperação económica, subiram os rendimentos e os salários, mas a desigualdade social permanece enorme. Em 2005, o rendimento médio dos 10% mais ricos da Rússia era 15 vezes mais elevado que o dos 10% mais pobres. Em 2008, a revista Forbes contou 87 multimilionários na Rússia, com uma riqueza total de cerca de meio bilião [500 mil milhões] de dólares – colocando a Rússia no segundo lugar do ranking de multimilionários, apenas depois dos Estados Unidos[10].

Um dos pequenos segredos sujos da recuperação da Rússia é que os trabalhadores imigrantes estão a desempenhar um papel cada vez mais importante no funcionamento da economia. Algumas estimativas colocam o número de trabalhadores estrangeiros legais e indocumentados em 14 milhões – ou seja, cerca de 10% de toda a população russa[11]. Os incidentes e ataques racistas e anti-estrangeiros têm estado em ascensão.

Os cuidados de saúde continuam a ser um problema social importante. De facto, já em 2005, um em cada cinco hospitais da Rússia não tinha redes de água quente nem esgotos[12].

Prospera uma enorme economia clandestina ou desregulada, que se sobrepõe ao crime organizado. A Rússia é um importante ponto de passagem da indústria internacional do sexo.

IV. A rivalidade entre as grandes potências na Ásia Central: O elo chinês

A Rússia é singular entre as principais potências imperialistas por não depender das importações para satisfazer as suas necessidades energéticas. Mas, como todas as potências imperialistas, a Rússia é impelida a expandir-se globalmente. E o imperialismo russo enfrenta uma necessidade particular: o controlo sobre a produção de energia e os oleodutos da Ásia Central é essencial à expansão económica da Rússia e à sua acumulação de força estratégica.

Entretanto, o imperialismo norte-americano tem os seus próprios planos e programa para expandir a sua influência e controlo na Ásia Central e na região do Mar Cáspio – e para fazer recuar a influência russa.

A). Rivalidade energética

A região do Mar Cáspio está dividida entre oito novos estados formados quando a União Soviética se desmoronou, entre os quais o Azerbaijão, a Geórgia e o Cazaquistão, além da Rússia e do Irão. Essa região tem o potencial para se tornar num importante produtor de petróleo e gás natural durante a próxima década. Tem sido uma arena crucial do investimento das companhias petrolíferas internacionais.

Neste momento, o imperialismo russo desfruta de um acesso privilegiado aos recursos energéticos da Ásia Central e de um quase monopólio do transporte de gás natural para fora da Ásia Central. Mas a luta pelo controlo do fluxo de petróleo e gás natural da bacia do Mar Cáspio para os mercados da Europa e da Ásia está a aquecer.

Empresas dos EUA, da Europa Ocidental e do Japão colaboraram no chamado oleoduto BTC. Este oleoduto transporta o petróleo do Azerbaijão através da Geórgia para a Turquia, evitando totalmente a Rússia. Os EUA deram um forte apoio financeiro e político a esse oleoduto como forma de reduzir a influência russa[13].

A Rússia e os EUA estão envolvidos numa intensa competição nessa região. Isso envolve manobras diplomáticas, o estabelecimento de bases militares e acordos de armas, exercícios militares e alianças de segurança. Recentemente, essa competição imperialista rebentou em conflito militar aberto entre a Geórgia, um aliado próximo dos Estados Unidos, e a Rússia.

Os EUA têm liderado o caminho da transformação da Geórgia numa cabeça-de-ponte do imperialismo norte-americano e ocidental na região. A Rússia, por seu lado, tem ajudado regiões independentistas. A Rússia vê o Cáucaso e a região do Mar Cáspio como “zona de influência especial” – e tanto mais quanto mais a NATO faz pressão a leste.

B). A emergente aliança Rússia-China

À medida que a economia mundial sofre grandes alterações e que aquece a rivalidade entre as grandes potências, o imperialismo russo tem agido de forma a se aliar mais de perto à China e à sua maior e mais dinâmica economia capitalista.

A China é o segundo maior parceiro comercial da Rússia, depois da Alemanha. A vasta influência financeira da China tornou possível um crescente número projectos conjuntos de exploração entre companhias petrolíferas russas e estatais chinesas no Extremo Oriente da Rússia. A China também tem sido o cliente número um de armas da Rússia nos últimos 15 anos.

A Rússia e a China estão a manobrar por uma posição na Ásia Central. Ambos têm condenado os EUA pela sua intromissão e tentativas de forjar uma cadeia de postos militares avançados de abastecimento na região. Ambos têm interesses mútuos no combate a movimentos fundamentalistas islâmicos que se opõem aos regimes dominantes e ameaçam de separatismo[14].

Em 2001, a Rússia e a China juntaram-se para formar a Organização de Cooperação de Xangai (OCX). A OCX é uma aliança militar e de segurança da Ásia Central. Os seus outros membros principais são o Cazaquistão, o Quirguistão, o Tajiquistão e o Usbequistão. O Irão e a Índia têm o estatuto de observadores na OCX.

A OCX mudou a dinâmica da Ásia Central. Em 2005, a Rússia e a China apoiaram o sitiado presidente do Usbequistão e a sua repressão dos protestos. A isso seguiu-se a expulsão pelo Usbequistão das forças dos EUA. Em 2005, a OCX realizou os seus primeiros exercícios militares conjuntos na China; e, em 2007, a OCX levou a cabo os seus primeiros exercícios militares na Ásia Central[15].

A OCX é um importante desenvolvimento nas relações internacionais.

V. Conclusão: Alguns problemas e questões a ter em conta

Com o ressurgimento do imperialismo russo, vários problemas e questões se colocam:

A economia mundial e a política mundial estão em grande agitação. O terreno em que está a decorrer a rivalidade entre as grandes potências, e em que estão a decorrer as lutas de classe e as lutas sociais e revolucionárias, está a alterar-se dramaticamente.

Artigos anteriores:
1ª Parte
2ª Parte - O desenvolvimento capitalista da China e a ascensão da China no sistema imperialista mundial: A sua natureza a as suas implicações
3ª Parte - A União Europeia como potencial rival do domínio dos EUA
Artigos seguintes:
5ª Parte - Japão e Índia.

NOTAS:

1. Para uma descrição do período de Ieltsin e da crise de 1998, ver Gregory L. Freeze, ed., Russia: A History [Rússia: Uma História] (Oxford, Oxford University Press, 2002), Capítulos 14 e 15. [regressar]

2. Kees van der Pijl, Global Rivalries: From the Cold War to Iraq [Rivalidades Globais: Da Guerra Fria ao Iraque] (Londres, Pluto, 2006), pág. 356. [regressar]

3. Sobre o desempenho económico da Rússia pós-1999, ver Vladimir Popov, “Resurgent Russian Economy?” [“Economia Russa Ressurgente?”], International Journal, Primavera de 2008; e Lúcio Vinhas de Souza, A Different Country: Russia’s Economic Resurgence [Um País Diferente: O Ressurgimento Económico da Rússia] (Bruxelas, Centre for European Policy Studies, 2008), www.ceps.eu. [regressar]

4. Para uma análise detalhada do fortalecimento do rublo e de como isso pode afectar a posição internacional do dólar, ver Juliet Johnson, “Forbidden Fruit: Russia’s Uneasy Relationship with the U.S. Dollar” [“Fruto Proibido: A Inquieta Relação da Rússia com o Dólar Norte-Americano”], Review of International Political Economy, 15:3 (Agosto de 2008). [regressar]

5. Tony Wood, “The Putin Era” [“A Era Putin”], New Left Review, Março-Abril de 2007 (44), pág. 68. [regressar]

6. A posição da Gazprom como terceira maior empresa do mundo tem por base a capitalização no mercado. Sobre a Gazprom, ver de Souza, Russia’s Economic Resurgence, págs. 73-82. [regressar]

7. Agência internacional de Energia, World Energy Outlook 2004 [Perspectivas da Energia Mundial 2004] (Paris, IEA, 2004), pág. 284; Michael Richardson, “Russia Puts Energy Importers Over a Barrel”, YaleGlobal On Line, 10 de Julho de 2007, www.yaleglobal.yale.edu. [regressar]

8. SIPRI Yearbook 2008: Armaments, Disarmament and International Security [Anuário SIPRI 2008: Armamentos, Desarmamento e Segurança Internacional] (Oxford, Oxford University Press, 2008), Apêndice 5A. [regressar]

9. The Economist, “The World’s Biggest Arms Exporters” [“Os Maiores Exportadores de Armas do Mundo”], 29 de Julho de 2008, www.economist.com. [regressar]

10. Dmitri Trenin, “Getting Russia Right” [“Perceber Correctamente a Rússia”], The Globalist, 8 de Maio de 2008, www.theglobalist.com; Luisa Kroll, “World’s Billionaires” [“Os Multimilionários do Mundo”], Forbes.com, 5 de Março de 2008. [regressar]

11. Dados do Gabinete Federal de Migração da Rússia, citados em Vinhas de Souza, Russia’s Economic Resurgence, pág., 92. [regressar]

12. Unidade de Informações do The Economist, Russia Country Profile 2006 [Perfil da Rússia 2006], pág. 24. [regressar]

13. Sobre a rivalidade EUA-Rússia na região do Mar Cáspio, ver Michael T. Klare, Rising Powers, Shrinking Planet [Potências em Ascensão, Planeta a Encolher] (Nova Iorque, Metropolitan Books, 2008), Capítulo 5. [regressar]

14. Sobre as relações Rússia-China e as movimentações rumo a uma aliança, ver Andrew Kuchins, “Russia and China: The Ambivalent Embrace” [“Rússia e China: O Abraço Ambivalente”], Current History, Outubro de 2007; e Alexei D. Voskressenski, “The Rise of China and Russo-Chinese Relations in the New Global Politics of Eastern Asia” [“A Ascensão da China e as Relações Russo-Chinesas na Nova Política Global da Ásia Oriental”], (2007), disponível online. [regressar]

15. Os exercícios militares de 2005 e 2007 da Organização de Cooperação de Xangai são discutidos em Roger N. McDermott, The Rising Dragon: The SCO Peace Mission 2007 [O Dragão em Ascensão: A Missão de Paz de 2007 da OCX], Occasional Paper, www.jamestown.org. [regressar]