Iraque: Os assassinos norte-americanos e os três heróis

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 7 de Junho de 2010, aworldtowinns.co.uk

Em Abril passado, a organização web WikiLeaks.org colocou online um vídeo filmado através do visor da arma de um helicóptero de ataque Apache. Mostra as metralhadoras de uma aeronave a abaterem um fotógrafo da agência noticiosa Reuters, o assistente dele e outras pessoas que andavam pela rua em Nova Bagdad, um subúrbio da capital iraquiana. Vários minutos depois, pára uma carrinha e dela saem homens que vão salvar um dos funcionários da Reuters que está ferido e a tentar rastejar para local seguro. Vêem-se crianças atrás da janela da carrinha. O helicóptero voa por cima da carrinha e abre fogo repetidamente a cada passagem, até a tripulação estar satisfeita por todos os ocupantes parecerem mortos. A gravação áudio regista a avidez da tripulação em matar iraquianos e o seu riso e felicitações mútuas perante a imagem de mais de uma dúzia de cadáveres (“Bom tiro!”). Quando as tropas terrestres relataram ter encontrado duas crianças seriamente feridas no que restava da carrinha, um dos membros da tripulação faz troça: “É culpa deles por terem trazido crianças para uma zona de guerra”. Os médicos norte-americanos estão prestes a levar as crianças serem tratadas, quando um oficial lhes diz para as abandonarem para que a polícia iraquiana as recolha mais tarde.

Este massacre e a atitude da tripulação do helicóptero foram tão horrendos que dois soldados norte-americanos que serviram no Iraque escreveram uma “Carta Aberta de Reconciliação e Responsabilidade ao Povo Iraquiano”, e especificamente “A todos os que ficaram feridos ou que perderam entes queridos durante os tiroteios de Julho de 2007 em Bagdad”, reproduzida abaixo. Um deles ainda estava no activo quando a carta foi escrita.

Face ao alvoroço gerado pelo vídeo, o governo de Obama defendeu os actos dos dois jovens membros da tripulação, imprudentes e originadores da morte vinda de cima, como sendo inteiramente adequados. Além disso, ameaçou fechar a WikiLeaks. A 7 de Junho, o Exército prendeu Bradley Manning, um soldado de 22 anos no activo e estacionado no Iraque. Ele está na prisão à espera de uma investigação.

Os responsáveis militares norte-americanos disseram que ele tinha fornecido material classificado à WikiLeaks. Segundo a revista Wired, que divulgou a notícia, Manning foi entregue às autoridades por um “ex-hacker informático” com quem ele tinha conversado online. O informador disse que Manning, um técnico, tinha admitido ter encontrado o vídeo codificado no decurso do seu trabalho e o tinha divulgado. Também disse que Manning tinha obtido um vídeo militar similar do ataque aéreo de 2009 em Garani, no Afeganistão, que matou bem mais de cem pessoas.

Manning, proveniente de uma família militar, disse supostamente ao informador que se tinha cruzado com documentos que “continham coisas incríveis, coisas terríveis (...) que estavam no domínio público e não em nenhum servidor secreto armazenado num quarto escuro em Washington, D.C.”.

Nabil Noor-Eldeen, cujo irmão Namir foi morto no ataque no Iraque que Manning denunciou, elogiou Manning: “Justiça foi o que esse soldado norte-americano fez ao denunciar este crime contra a humanidade” (Washington Post, 7 de Junho de 2010).

O informador disse ter reagido para apoiar os soldados norte-americanos e as suas vidas. Mas a atitude dele é oposta à de Manning e dos dois soldados que escreveram a Carta Aberta.

“Escrevemos-vos, a vós, às vossas famílias e à vossa comunidade com a consciência de que as nossas palavras e actos nunca poderão restabelecer as vossas perdas”, escreveram os dois soldados. “Somos ambos soldados que ocuparam o vosso bairro durante 14 meses. Ethan McCord puxou a vossa filha e o vosso filho para fora da carrinha e, quando o fez, viu as caras dos seus próprios filhos no seu país. Josh Stieber estava na mesma companhia mas não estava lá nesse dia, embora tenha contribuído para a vossa dor, e para a dor da vossa comunidade, em muitas outras ocasiões.”

“Não se trata de devolver tudo aquilo que se perdeu. O que nós queremos é aprender com os nossos erros e fazer tudo o que podemos para contar aos outros as nossas experiências e como as pessoas nos Estados Unidos precisam de perceber o que vos fizeram e vos têm feito, a vocês e às pessoas do vosso país. Perguntamos-vos humildemente o que é que podemos fazer para começarmos a reparar os danos que causamos.”

“Temos falado a todos os que nos querem ouvir, dizendo-lhes que o que é mostrado no vídeo da WikiLeaks é apenas o início da descrição do sofrimento que vos causámos. Da nossa própria experiência, e da experiência de outros veteranos com quem falámos, sabemos que os actos descritos nesse vídeo são ocorrências quotidianas desta guerra: é esta a natureza de como guerras lideradas pelos EUA são levadas a cabo nessa região.”

“Reconhecemos a nossa parte nas mortes e danos aos vossos entes queridos quando contamos aos norte-americanos o que fomos treinados para fazer e o que fizemos em nome ‘de deus e do país’. O soldado no vídeo disse que o vosso marido não devia ter trazido as vossas crianças para o campo de batalha, mas nós reconhecemos a nossa responsabilidade por termos levado a batalha ao vosso bairro e à vossa família. Fizemos-vos o que não quereríamos que nos fizessem a nós.”

“Cada vez mais norte-americanos estão a assumir a responsabilidade pelo que foi feito em nosso nome. Embora tenhamos actuado demasiadas vezes com o coração frio, não nos esquecemos dos nossos actos em relação a vocês. Os nossos corações pesados ainda têm a esperança de podermos restabelecer dentro do nosso país o reconhecimento da vossa humanidade que fomos ensinados a negar.”

“O nosso governo pode ignorar-vos por estar mais preocupado com a sua imagem pública. Também tem ignorado muitos veteranos que regressaram fisicamente feridos ou mentalmente perturbados pelo que viram e fizeram no vosso país. Mas já é mais que tempo de dizermos que os valores dos líderes da nossa nação já não nos representam. O nosso secretário da defesa pode dizer que os EUA não irão perder a sua reputação por causa disto, mas nós mantemos a nossa posição e dizemos que a importância da nossa reputação empalidece quando comparada com a nossa humanidade comum.”

“Com uma tal dor, a amizade pode ser pedir muito. Por favor, aceitem as nossas desculpas, a nossa mágoa, a nossa preocupação e a nossa dedicação a mudar a partir de dentro. Estamos a fazer o que podemos para falarmos contra as guerras e as políticas militares responsáveis pelo que vos aconteceu a vocês e aos vossos entes queridos. Os nossos corações estão abertos a ouvir como podemos dar qualquer passo para vos apoiarmos na dor que vos causámos.” (Colocado a 17 de Abril de 2010 em MichaelMoore.com. O vídeo, intitulado “Assassinato Colateral”, está disponível em WikiLeaks.com.)