Hiroxima e Nagasáqui: O pior crime de guerra do mundo e os países dispostos a fazê-lo novamente

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 16 de maio de 2016, aworldtowinns.co.uk

Versão abreviada de um artigo de 3 de agosto de 2015 do SNUMAG.

“Naquele verão fatal, 8:15. O rugido de um B-29 rompe a paz matutina. Um paraquedas abre-se no céu azul. Então, de repente, um clarão, uma enorme explosão – silêncio –, o inferno na terra.”

“Os olhos das meninas que observavam o paraquedas derreteram. As caras delas tornaram-se gigantescas bolhas chamuscadas. A pele das pessoas que procuravam ajuda balouçava das unhas delas. O cabelo delas só mantinha as pontas. As roupas delas estavam rasgadas em farrapos. As pessoas apanhadas nas casas derrubadas pela explosão foram queimadas vivas. Outras morreram quando os olhos e os órgãos internos delas explodiram dos corpos delas. Hiroxima foi um inferno onde aqueles que de alguma maneira sobreviveram invejaram os mortos.” (Da declaração memorial a 6 de agosto de 2007 do presidente da câmara de Hiroxima, Tadatoshi Akiba, num apelo para libertar o mundo de todas as armas nucleares)

“Uma mulher que cobriu os olhos dela do clarão baixou as mãos para descobrir que a pele da cara se tinha derretido nas palmas das mãos dela. [...] Centenas de trabalhadores do campo e outros cambalearam, gemendo e chorando. A alguns faltavam partes do corpo, e outros ficaram tão queimados, que embora estivessem nus, Yoshida não podia dizer se eram homens ou mulheres. Ele viu uma pessoa cujos globos oculares estavam pendurados pela cara abaixo, com as covas vazias.” (De Nagasaki, Life After Nuclear War [Nagasáqui, A Vida Depois da Guerra Nuclear], de Susan Southard, Viking, 2015)

A 6 de agosto de 1945, um bombardeiro norte-americano largou um dispositivo nuclear sobre um hospital em Hiroxima, uma cidade japonesa com pouca importância militar. A bomba estava presa a um paraquedas e programada para explodir no ar a grande altitude, de forma a maximizar o número de pessoas que seriam expostas à letal radiação. Cerca de 140 mil residentes da cidade foram mortos ou ficaram tão feridos que morreram passados alguns meses.

Quando informado sobre a explosão que tinha ordenado, o Presidente norte-americano Harry Truman exclamou com alegria: “Isto é a maior coisa da história”. Para mostrar o quão “fantástica” era a bomba atómica, três dias depois, a 9 de agosto, os EUA lançaram outra, destruindo a cidade de Nagasáqui e matando outras 70 mil pessoas.

Muitos anos de sofrimento com cancro e outras doenças causadas pela radiação venenosa era o que tinham pela frente os sobreviventes e os filhos deles. O novo livro de Susan Southard, baseado em entrevistas com sobreviventes feitas durante a última década, relata a forma como algumas pessoas ficaram tão monstruosamente desfiguradas que os filhos fugiam delas. O facto de cerca de 192 mil vítimas ainda estarem vivas mostra que isto não é uma história assim tão antiga.

Os EUA iniciaram a era nuclear nos dias finais da II Guerra Mundial. A Alemanha já se tinha rendido. A economia do Japão tinha sido destruída e a sua capital tinha sido bombardeada e transformada em cinzas; o seu exército tinha sofrido derrotas decisivas. Muitos historiadores acreditam que o Japão se teria rendido sem o bombardeamento atómico. O objetivo do bombardeamento foi apenas garantir que os EUA e os seus aliados iriam ganhar a guerra, mas ainda mais, garantir que os EUA e apenas os EUA iriam beneficiar da rendição do Japão.

Os EUA estavam decididos a não deixar que a União Soviética calçasse os sapatos do Japão como principal potência colonial na Ásia. A URSS ainda era então um país socialista, embora uma década depois viesse a tomar um caminho diferente. Tinha sido aliada dos EUA durante a guerra contra a Alemanha e o Japão, mas ainda antes de a guerra ter terminado os EUA estavam a mostrar os seus dentes à URSS e a prepararem-se para dominar grande parte do mundo.

A URSS já não existe, mas os EUA e outros países ainda ameaçam o mundo com o holocausto nuclear. Os EUA, a Grã-Bretanha, a França, a Rússia, a China, a Índia, o Paquistão, a Coreia do Norte e Israel detêm milhares de ogivas nucleares e os mísseis, aviões e submarinos para os usarem.

Quando Obama andava em campanha para a presidência em 2008, prometeu procurar chegar a um desarmamento nuclear. O comité que o galardoou com o Prémio Nobel da Paz no ano seguinte citou o acordo para um “mundo livre do nuclear” que ele assinou com a Rússia. (Se Obama tivesse merecido o Prémio Nobel da Paz por isto, também o teria o presidente russo Vladimir Putin.)

No entanto, o tratado não visava nada disto. Permitiu aos dois lados que cada um retivesse 1550 armas nucleares estratégicas distribuídas e prontas a usar, não contando com as armazenadas. Muitas delas são imensamente mais poderosas que as bombas que devastaram Hiroxima e Nagasáqui. Os milhares de armas nucleares táticas não cobertas pelo tratado são mesmo, de certo modo, mais perigosas que as estratégicas, porque o uso delas está previsto na doutrina militar oficial comum e, uma vez iniciados os ataques nucleares dos dois lados, ninguém pode dizer como terminarão. Uma guerra mundial nuclear não está no horizonte neste momento, como esteve em vários momentos durante o tempo da contenda norte-americano-soviética pela dominação do mundo entre os anos 1960 e os anos 1980, mas ainda assim, a única razão para se ter armas nucleares é para poder usá-las.

Embora a corrida aos armamentos entre os EUA e a Rússia hoje já não tenha a ver com uma acumulação cada vez maior de bombas nucleares, Obama lançou um programa de um bilião [um trilião no Brasil] de dólares para modernizar as instalações norte-americanas de fabricação de bombas atómicas, para produzir novas e para renovar os mísseis, os submarinos e os bombardeiros que os irão usar, e para atualizar as ogivas já existentes. Há notícias de que a Rússia está a atualizar os seus veículos de disparos nucleares. Esforços semelhantes estão a ser levados a cabo pela Grã-Bretanha (a modernização do seu arsenal nuclear e uma nova frota de submarinos de mísseis balísticos Trident) e pela França (novos mísseis ar-terra de ogivas nucleares). Em vez de estarem a trabalhar para remeter as armas nucleares para o passado, estes programas visam assegurar a usabilidade deles até muito longe no futuro.

Quando lhe foi pedido que explicasse a aparente reviravolta de Obama, um conselheiro indicou a “invasão da Ucrânia por Putin”. (The New York Times, 21 de setembro de 2014). Isto é um exemplo perfeito da postura do tempo da Guerra Fria, em que cada uma das duas superpotências imperialistas estava disposta a arriscar destruir o mundo para não perder a competição para o dominar. A ameaça implícita do uso de armas nucleares para “proteger” a Ucrânia – por outras palavras, para impedir a Rússia de desafiar os interesses geopolíticos dos EUA – é completamente demente do ponto de vista dos interesses da população da Ucrânia e do mundo.

Quanto a combater o terrorismo islamita, o atual pretexto para a intervenção militar norte-americana e europeia no Médio Oriente, se o terrorismo for definido como o massacre de civis inocentes para um objetivo político, então raramente houve um ato terrorista mais horrendo nas suas consequências ou de uma escala maior que o bombardeamento nuclear de Hiroxima e Nagasáqui.