Guerra de classes sem rodeios após a revolta na Grã-Bretanha

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 22 de Agosto de 2011, aworldtowinns.co.uk

Por Geoffrey Scott, em Londres

Após os quatro dias de revolta que fizeram estremecer a Grã-Bretanha a semana passada na sequência da morte pela polícia de um jovem negro, Mark Duggan, o estado britânico desencadeou uma vaga de repressão cuja severidade não era aqui vista há muitos anos.

Foram presas quase 2000 pessoas e a polícia anunciou que espera apanhar até mil pessoas mais depois do visionamento de gravações vídeo CCTV. A maioria das acusações é de um tipo que, em tempos normais, não resultaria em detenções, e ainda menos em penas de prisão. Mas os tribunais judiciais têm estado a trabalhar 24 horas por dia após a revolta e a distribuir penas de três e quatro meses ou pior, em nome do restabelecimento da “lei e ordem”. Cerca de metade das pessoas que foram detidas foram enviadas para tribunais da Coroa, os quais só têm autoridade para atribuir penas de mais de seis meses.

Até agora já foram mandados para a prisão 138 jovens com menos de 18 anos de idade (que na Grã-Bretanha são legalmente crianças). O anonimato normalmente concedido aos jovens foi levantado por um decreto especial. A idade média dos condenados em Londres é 19 anos, e só a um terço deles foi concedida fiança, em vez do número habitual de 90 por cento nos tribunais judiciais. As cadeias e as prisões de longa duração estão cheias até à ruptura, com 723 novos presos só na semana anterior a 19 de Agosto.

Algumas penas e medidas de punição administrativa contra as famílias dos condenados foram tão extremas que mesmo meios da comunicação social fieis defensores da lei-e-ordem internacional como o The New York Times avisaram o governo britânico sobre o “impacto” de longo prazo das “penas excessivas para delitos menores” e da “punição colectiva” que poderão vir a desacreditá-las, avisando que poderiam parecer uma guerra das classes altas contra as mais baixas.

Entre algumas das penas mais ultrajantes estão: Nicholas Robinson, um londrino de 23 anos que tirou um pacote de água engarrafada no valor de 3,5 libras [4 euros] de uma loja saqueada, foi condenado a seis meses de prisão. Alguns jovens foram condenados por pouco mais que terem estado presentes. Três raparigas de Croydon sem antecedentes penais foram condenadas a uma pena de seis meses por “roubo”, apenas por terem entrado numa loja, apesar de não terem sido acusadas de tirar nada. Michael Fitzpatrick, um jovem de Manchester de 18 anos, foi condenado a 28 meses de prisão por ter entrado numa loja, tocando (mas não levando) um par de sapatilhas e por ter bebericado de uma garrafa de champanha roubada. Thomas Downey, de 48 anos, da mesma cidade, foi condenado a 18 meses por ter tirado donuts de uma loja saqueada. Na próxima semana, um adolescente será levado a tribunal para ser condenado à prisão por ter comido duas colheres de sorvete. Um outro foi condenado a nove meses por ter levado um pacote de pastilhas elásticas.

Estão a ser atribuídas penas ainda mais longas aos acusados de encorajar outros. Jordan Blackshaw e Perry Sutcliffe-Keenan, que alegadamente colocaram apelos no Facebook a que as pessoas saíssem à rua e se “revoltassem”, foram condenados a quatro anos de prisão por “encorajamento à prática de um delito grave” – embora ninguém a não ser a polícia tenha aparecido no lugar e à hora que eles mencionaram. Quatro anos é a pena de prisão comum na Grã-Bretanha para as agressões sexuais, e 47 meses é a pena média para os sequestros. O contraste fala por si: quase nenhum dos que foram presos foi acusado de causar danos corporais, e muitos não foram sequer acusados de nenhum tipo de violência e, mesmo assim, o “crime” deles – rebelião contra a polícia e a ordem estabelecida e falta de respeito pela propriedade privada – é considerado quase tão mau como a violação e o sequestro. As autoridades britânicas estão a tornar explícito este ponto ao anunciarem que muitos dos transgressores serão obrigados a desfilar nas respectivas comunidades em roupas laranja, evocando Guantânamo, como se fossem “terroristas”.

O primeiro-ministro britânico David Cameron chama a esta repressão a “retaliação”. Claramente, o que está em causa é a actual ordem social. Em tempos como estes, quando essa ordem é ameaçada, mesmo que ligeiramente, o estado britânico, tal como qualquer outro estado capitalista, vai longe no abandono da sua habitual retórica “democrática”. Em resposta às críticas, Cameron denunciou as “falsas preocupações de direitos humanos”, e o estado está a exibir propositadamente a violência em que se baseia a ditadura capitalista.

Os políticos, as autoridades e or grandes órgãos de comunicação social têm tentado evitar cobrir e discutir a morte policial que desencadeou a revolta, como se não tivesse nenhum conteúdo político e social e pudesse ser simplesmente reescrita como uma “revolta para ir às compras”. Mas, a 17 de Agosto, uma vez mais a polícia demonstrou abertamente o seu papel de violentos guardiães do sistema de injustiça quando entraram em casa de Dale Burns, um jovem desarmado de 27 anos, pai de duas crianças, borrifarem-no com gás pimenta e deram-lhe choques eléctricos com tasers por três vezes em rápida sucessão, até que ele morreu.

Esta revolta tem a ver com quê?

É inegável que a maioria dos jovens esteve envolvida na invasão de lojas, particularmente as de cadeias comerciais, e que retirou pequenos bens de consumo. Mas o primeiro edifício que foi destruído não era uma loja, mas sim um escritório de solicitadores policiais em Tottenham, uma correia de transmissão no empurrar dos jovens para o sistema de justiça criminal. O escritório situava-se a apenas algumas centenas de metros do local onde Mark Duggan foi abatido a sangue frio.

Veja-se a história que foi contada pelo Chefe de Polícia Paul Warner, que esteve na linha da frente em Tottenham quando a revolta rebentou inicialmente: “Eles estavam a atirar tudo o que podiam contra nós, tijolos, garrafas, andaimes, postes, tudo. Eu já antes estive nalgumas situações de ordem pública mas nunca vi nada assim... Esta foi a primeira vez que eu senti este nível de aversão a nós. Havia um verdadeiro ódio.” (Evening Standard, 12 de Agosto) O jornal Guardian anunciou na primeira página um especial de duas páginas sobre a luta na zona londrina de Hackney Central, intitulado “O que é que eles queriam? Combater a polícia.” Em todo o lado, de Birmingham a Croydon, a polícia narrou histórias de ter sido ferozmente atacada de cada vez que era ficava em inferioridade numérica perante os jovens. Qualquer pessoa que tenha estado nas ruas, ou apenas visto as gravações vídeo, sabe que isso é verdade. Se tudo o que os jovens queriam fosse saquear, porque iriam arriscar ir para a prisão lutando colectivamente por algo que prometia tão poucos ganhos materiais?

Um outro aspecto do espírito anti-polícia que motivou estes acontecimentos é que durante as quatro noites de revolta houve um fim quase total das lutas entre os gangs locais. Os membros dos gangs falavam abertamente sobre como de repente se sentiram livres para vaguearem em bairros que sempre estiveram fora dos seus limites, à medida que se uniam face a um inimigo maior. Habitantes locais do bairro de Broadwater Farms, em Tottenham, descreveram uma reunião aí realizada para declarar uma trégua permanente entre gangs.

A afirmação pela comunicação social liberal de que esta revolta não era mais que uma “revolta para ir às compras” foi aceite mesmo por algumas pessoas que se consideram informadas. Isso é hipócrita. No fim de contas, os jovens estavam a responder a todo um conjunto de grilhetas invisíveis que os trancam do lado fora de uma sociedade de consumo onde, é-lhes dito de mil formas diferentes, o que se possui é a única fonte de estatuto e sentido. A grande riqueza da Grã-Bretanha, tal como a de todos os países imperialistas e capitalistas monopolistas, baseia-se num sistema que saqueou todo o planeta, explorando os povos de todo o mundo e destruindo o meio ambiente. Porque é que levar uma garrafa de vinho ou um televisor de ecrã plano é considerado moralmente repugnante pelos governantes de um sistema assim? Sim, realmente porquê, a não ser como ameaça a uma ordem baseada na propriedade privada, uma ordem cujo funcionamento “legal” rotineiro torna os meios de produção e a extracção de riqueza do mundo numa questão de propriedade privada de um punhado de exploradores que só podem usar isso contra os interesses das pessoas e do planeta?

Além disso, como pode alguém que se preocupa com uma moralidade ao serviço da humanidade não ficar enojado quando estes jovens que não governam a sociedade nem mais nada e que não são responsáveis pela trapalhada em que se tornou a Grã-Bretanha e o mundo, recebem discursos sobre moral e são chamados todo o tipo de nomes por um sistema que por inúmeras vezes, por exemplo no escândalo das despesas dos deputados e no escândalo das escutas telefónicas de Murdoch, tem mostrado que não se preocupa com mais nada que o poder e os lucros, e cujo bem mais precioso é o lucro pessoal? Com o escândalo das escutas telefónicas, os polícias dos níveis mais baixos mostraram que eram corruptos ao aceitarem subornos para entregarem à comunicação social informações confidenciais sobre celebridades, membros da realeza e vítimas de crimes. Mas pouca gente tem aplicado a palavra corrupção aos Partidos Trabalhista e Conservador e aos altos responsáveis da polícia e de outras instituições cuja intimidade política e pessoal com magnatas como Rupert Murdoch é simplesmente considerada uma relação normal de benefício mútuo. Apesar disso, eles agora criticam as pessoas que têm de sair à rua para fazerem o seu próprio saque, em vez de ele lhes ser entregue em casa. Como é que essas pessoas podem sequer falar em “estado de direito” quando os poderosos da Grã-Bretanha têm mostrado repetidamente que mesmo as suas próprias leis não significam nada para eles quando há dinheiro para ser feito, carreiras políticas para serem desenvolvidas – e potenciais ameaças a essa ordem para serem reprimidas?

Essas pessoas mostraram que não são adequadas para governarem.

A crise económica é um factor – mas não é o único

Os ministros do governo têm denunciado os “amotinados” como “parasitas” que “vivem do dinheiro dos contribuintes”, que “se recusam a trabalhar” e que estariam agora “a morder a mão que os alimenta”, e têm pedido que sejam retirados benefícios estatais aos considerados culpados e mesmo às suas famílias. Mas quem são os responsáveis por um milhão de jovens estar sem emprego? Não foram os jovens que subcontrataram os empregos nos bairros da classe operária de Londres, Birmingham ou Merseyside em Liverpool. Ainda antes de o fumo se ter dissipado de alguns dos locais incendiados, o Gabinete Britânico de Estatísticas comunicou que esta Primavera houve um “chocante” aumento do desemprego, o qual está a atingir de uma forma particularmente dura os jovens, as minorias e as mulheres, sobretudo nas zonas pobres como Tottenham. Será que isto é porque os jovens não querem trabalhar – ou porque o sistema capitalista está a atirar centenas de milhares de pessoas para fora dos seus empregos e para as ruas?

Nesta situação, talvez os políticos que governam este sistema que lança os jovens para as rodas dentadas do desempregado lhes pudessem oferecer mais educação em troca. Pelo contrário: uma semana depois da revolta foi anunciado que este ano houve “um número record de jovens” candidatos à universidade que foram recusados, num momento em que os jovens lutam por entrar no ensino superior face a um enorme aumento das propinas no próximo ano.

Embora o orçamento de austeridade aprovado pelo governo liderado pelos Tories [conservadores] tenha sido indubitavelmente um factor importante que alimentou a revolta, os jovens nas ruas estavam contra todo um sistema que os mantém encerrados no fundo da sociedade – uma sociedade de consumo capitalista onde eles não podem consumir, uma sociedade onde a grande maioria consegue empregos e educação, mas em que eles são afastados das escolas e entram nas fileiras dos desempregados permanentes, dependentes de caridade e subsídios, com os sempre presentes guardiães armados do sistema às suas costas para se assegurarem que eles não saem da linha. As dezenas de milhares de jovens que saíram enfurecidos às ruas do país a semana passada não se limitaram a sair da linha ao protestarem por algo mais – eles vestiram as roupagens nocturnas para a batalha com esses odiados guardiães do sistema, ficando fora da lei e fazendo-o agora juntamente com milhares de outros como eles.

Além das suas tentativas de negarem o sentimento anti-polícia e até certo ponto anti-sistema que esteve no centro deste motim, as autoridades e os seus defensores tentaram centrar as atenções no que eles condenam como sendo “violência gratuita”. Isto, para eles, é à prova de que esses jovens são “selvagens” e que, por isso, a “sociedade” precisa de se proteger contra eles pelos meios mais severos possíveis, como se eles não fossem tão parte da sociedade britânica como todas as outras pessoas. A resposta oficial à revolta é, de facto, a prova de que os jovens têm razão em relação àquilo contra o qual se estão a revoltar: eles não são tidos em consideração nem são tratados como seres humanos e o único futuro que os governantes pretendem autorizá-los a ter é o silêncio servil ou o encarceramento.

Essa “brutalidade gratuita” foi enorme e maliciosamente exagerada. Terá havido toda essa violência? Sim – mas considere-se o seguinte: milhares, talvez mesmo dezenas de milhares de jovens saíram às ruas de muitas das cidades inglesas, noite após noite durante quatro noites, muitos deles com armas rudimentares – e quantas agressões sexuais ocorreram no meio de tudo isto? Apesar duma tentativa do tablóide Daily Mail de inventar uma violação numa história de primeira página (“Violação no calor da revolta”), isso acabou por se revelar ser mentira e a imprensa tablóide não tem conseguido encontrar nem um único caso contra os jovens.

Mas houve actos errados e reaccionários de violência entre as pessoas, desde a devastação de estabelecimentos de pequenos comerciantes que de forma nenhuma são responsáveis pelos problemas das pessoas ao carro que atingiu e matou três jovens de origem paquistanesa que guardavam uma loja em Birmingham. Aqueles de nós que olham para esta revolta do ponto de vista que os jovens têm razão em não aceitar a injustiça, devem salientar que tais actos reflectem uma compreensão incompleta ou simplesmente errada das fontes de problemas contra os quais estes jovens se estão a revoltar. De facto, eles reflectem a perspectiva de cão-come-cão e de cuidar-de-mim-e-da-minha-família (“eu e os meus parceiros”, ou a “comunidade” concebida de um ponto de vista restrito) que o próprio sistema inculca em toda a gente na sociedade, de alto a baixo.

Mas, uma vez mais, é a cúmulo da hipocrisia que as autoridades do sistema finjam estar a preocupar-se com o destino dos imigrantes do sul da Ásia ou de outros sítios, quando estes têm sido alvo da polícia, da propaganda governamental anti-imigrante e da tolerância oficial em relação às campanhas de ódio (quando há brancos a atacar imigrantes, é suposto que “entendamos” os seus medos e que a solução sejam restrições à imigração e deportações). Mas o facto de as pessoas de uma etnia oprimida atacarem outras, e de haver violência entre as pessoas em geral, tudo isto está muito ligado à falta de uma perspectiva revolucionária que possa forjar a unidade entre os explorados e oprimidos e possa desencadear uma mudança revolucionária, e não apenas uma alteração na ordem de debicar.

A indignação destes jovens é justa. Mas eles precisam de mudar – precisam de compreender qual a origem dos seus verdadeiros problemas. Não de precisam de mudar da forma que as estruturas de poder exigem, a de aceitarem o inaceitável (e mesmo que o fizessem, de alguma forma poderiam vir a ser esmagados mais à frente). Todos os que desejam uma mudança social radical deveriam estimar enormemente o ódio ardente destes jovens à injustiça e à actual situação, a intrepidez daqueles que no fundo da sociedade sentem não ter nada a perder. Dado o desespero da sua situação e a falta de esperança que constituem uma grande parte do seu pensamento, na ausência de uma perspectiva revolucionária não é de surpreender que estes jovens muitas vezes ajam segundo as mesmas regras e pontos de vista propagados por aqueles que estão no topo da sociedade e que são constantemente reforçados pelo funcionamento diário do próprio sistema.

Deste ponto de vista, a mudança que é necessária só pode emergir quando mais pessoas compreenderem e combaterem o sistema que é a fonte dos seus problemas, e procurarem formas para derrubarem de facto esse sistema e o substituírem por um completamente diferente, baseado exactamente nos princípios, nos objectivos e nos valores que a Grã-Bretanha oficial rejeita, uma sociedade onde, tal como Karl Marx e Frederick Engels escreveram no Manifesto Comunista, “o livre desenvolvimento de cada pessoa seja a condição do livre desenvolvimento de todos” e vice-versa.

Na Grã-Bretanha, alguma “esquerda” como o Partido Socialista dos Trabalhadores [Socialist Workers' Party, SWP] gostaria de domesticar a força que estes jovens representam e transformá-la em apenas mais uma parte de um grupo de pressão para reformar o sistema, em vez de encontrarem formas de aproveitar o seu potencial para uma insurreição revolucionária contra o sistema. Estes jovens representam uma realidade que é demasiado assustadora para eles enfrentarem, e que poderia fazê-los perder a sua respeitabilidade, arduamente obtida, aos olhos do sistema. E, por isso, embora por vezes denunciem o sistema capitalista, eles repetidamente reduzem a fonte da opressão vivida pelos jovens ao primeiro-ministro conservador David Cameron (um dos seus principais slogans em relação à revolta é que “Cameron deve sair”) e aos “cortes dos Tories”. No seu principal comunicado sobre a revolta (que eles repetidamente chamam de “motim”, tal como a principal comunicação social, abrindo assim a porta à linha burguesa oficial de que a essência da revolta foi a “violência gratuita”), eles defendem que, “tal como o protesto estudantil do ano passado, é a ‘geração perdida’ criada pelos Tories que está no centro destas lutas”. Uma “‘geração perdida’ criada pelos Tories”!? A partir do que diz esta “esquerda”, uma pessoa recém-chegada à Grã-Bretanha não faria a menor ideia que o Partido Trabalhista, liderado por Tony Blair e Gordon Brown, foi o partido parlamentar que liderou o governo britânico entre 1997 e 2010, durante 13 anos – de facto, o único partido que a maioria dos jovens nas ruas alguma vez terá realmente conhecido no governo até há apenas um ano. Foi um período em que uma intensificada desigualdade atravessou toda a sociedade britânica – tal como o fez ao tecido social de quase todos os países, como parte da vaga de globalização capitalista mundial. Foi o reflexo não tanto das políticas deste ou daquele partido mas dos mecanismos fundamentais do próprio sistema capitalista, e é isto que os jovens precisam de compreender.

Esta perspectiva do SWP e de outros reformistas similares de “esquerda” não se limita a pura e simplesmente não perceber o potencial revolucionário destes jovens para o futuro, embora na realidade o faça. Neste preciso momento, esta perspectiva reformista está a deixar os jovens abandonados à vingança do estado imperialista. Com um ponto de vista que calcula o valor potencial de uma campanha de defesa dos jovens não com base no seu potencial para a revolução, mas no seu potencial para uma reforma gradual, para essa suposta “esquerda” defender milhares de jovens acusados de pequenos roubos e coisas semelhantes não é uma grande prioridade – ou é mesmo um fardo sobre os protestos mais “legítimos”.

Mas as coisas não tinham que desembocar nesta situação exasperante. É certamente possível fazer mais, incluindo mobilizar o sentimento em sectores da classe média de defesa dos jovens. A revolta das “entranhas mais profundas” causou muita indagação mental em toda a sociedade britânica. E muitos não gostaram do que viram. Uma carta dirigida ao jornal local de um dos bairros mais elegantes de Londres defendia um olhar mais profundo para a natureza da sociedade britânica: “E quanto ao interminável saque pela nossa avara irmandade bancária, ao saque pelas agencias imobiliárias sedentas de comissões, pelos gerentes dos supermercados cujos preços sobem tão regularmente quanto nós nos levantamos da cama todas as manhãs?” Quando o Presidente da Câmara de Londres Boris Johnson, do Partido Conservador, saiu à rua para se juntar a um par de centenas de jovens que estavam a limpar as suas ruas no rescaldo dos combates de rua, um grupo que ele assumiu que seria receptivo à sua mensagem de linha dura, começou a desfilar a ritual denúncia dos “ladrões e saqueadores gratuitos”, foi recebido para sua surpresa, por apupos e escárnio, e fugiu sem cerimónias.

A revolta dos jovens expôs as mentiras de progresso perante o racismo que tem sido um dos alicerces do colonialismo britânico e das galopantes desigualdades que caracterizam a sociedade britânica contemporânea. Trouxe à luz do dia a horrenda opressão que aflige milhões de pessoas cujas vidas estão normalmente escondidas da vista pública. Tudo isto abre possibilidades para se começar a forjar algum tipo de aliança mais vasta para defender e estar ao lado dos jovens.

Numa sociedade que está tão marcada pelo consumismo e por níveis cada vez mais elevados de desigualdade, muitas pessoas, mesmo nos estratos médios, estão a assumir uma perspectiva surpreendentemente tolerante do que percebem ser uma compreensível redistribuição de bens. Por outro lado, os políticos estão a justificar a sua impiedosa repressão em nome de ficarem do lado da classe média, sobretudo dos pequenos comerciantes. A “tolerância zero” deles em relação a qualquer infracção à santidade da propriedade privada, no mundo real reflecte sobretudo não os interesses dos pequenos proprietários mas do minúsculo punhado de capitalistas monopolistas e dos seus representantes – a verdadeira classe criminosa.

E as medidas que eles estão a tomar agora podem muito bem voltar para os assombrar. Pauline Pearce é uma mulher negra de 45 anos de Hackney, o local de duras lutas, que ficou famosa no YouTube por ter argumentado com os jovens no meio da revolta, opondo-se ao incêndio de uma loja local, e para que “Desçam à realidade, negros, desçam à realidade. Façam-no por uma causa. Se estamos a lutar pela porra de uma causa, lutemos pela porra de uma causa”. Em reacção à subsequente investida do governo contra os jovens, Pearce declarou: “Neste momento, sinto que há uma calma tensa. Consegue ouvi-la? É um silêncio. É uma bonança antes da tempestade. Vamos acabar daqui a dois anos com muita gente a sair da prisão sem qualificações, sem emprego – e o que é que isso vai conseguir? O governo precisa de ter cuidado. Caso contrário, vão terminar por ter outra pequena insurreição civil.”

Ver também: Londres em chamas – A revolta dos jovens.

 

Carl Dix, porta-voz do Partido Comunista Revolucionário, EUA,
fala sobre a justa fúria da revolta dos jovens na Grã-Bretanha.