Do jornal PÚBLICO de 5 de Dezembro de 2004:

Governo chinês tenta responder a “instabilidade social generalizada”

São cada vez mais frequentes os distúrbios sociais no país mais populoso do mundo. A origem é sobretudo económica, mas não só. As tensões étnicas começam a chegar aos noticiários.

Por Francisca Gorjão Henriques

A imprensa chinesa admitiu, na quinta-feira, que o fosso entre ricos e pobres está a aumentar. Numa tentativa de apaziguar as recentes manifestações de descontentamento étnico, rural ou económico, o regime lançou uma campanha de “sociedade harmoniosa”. Anunciou uma guerra à pobreza e prometeu tentar diminuir a diferença entre os que colhem os frutos do acelerado desenvolvimento económico da China e os que mal conseguem sobreviver. Mas os sinais de descontentamento têm sido cada vez mais visíveis.

“A instabilidade social generalizada está a tornar-se um assunto mais sério na China”, comenta ao PÚBLICO Colin Mackerras, do Centro de Estudos Asiáticos da Griffith University, na Austrália. “E há muitos aspectos sociais onde isto está a revelar-se: insatisfação no trabalho, mais greves, acções industriais, descontentamento rural e dissidência juvenil”.

A campanha “construção de uma sociedade harmoniosa” lançada por Pequim revela que o regime admite finalmente a existência de um fosso entre ricos e pobres, e sugere que o pais está numa encruzilhada, escrevia a 22 de Novembro a “Christian Science Monitor”. Só o facto de a campanha ter sido criada “indica um reconhecimento novo ao nível oficial de que não existe uma harmonia social, num país onde a ‘estabilidade’ é um valor preponderante”. A “construção de uma sociedade harmoniosa” inclui visitas de responsáveis do Governo aos focos de tensão, com pressões para que os trabalhadores recebam os salários em atraso e editoriais a classificar a situação de “desagradável”.

A mesma publicação adianta que a agência Xinhua, há três semanas, numa posição seguramente aprovada pelo regime, descreve a China como estando num ponto fulcral que levará ou a “uma era dourada de desenvolvimento”, ou a “uma era atacada por contradições”.

Em 2003, os rendimentos per capita das famílias que vivem confortavelmente subiram 13 por cento, para 17,472 yuans (1587 euros), enquanto os rendimentos das famílias com menos rendimentos aumentaram apenas 8,7 por cento, ou seja, para 329,5 yuans (6,54 euros) – segundo os números do Instituto Nacional de Estatística. Não foi, no entanto, especificado quantas famílias estão num ou noutro lado da barreira.

Esta é uma das razões apontadas para um crescente descontentamento social que se tem revelado em várias partes do país. Alguns analistas consideram que os chineses estão a tomar consciência dos seus direitos, ou a ter coragem para os reivindicar. Nas últimas semanas, ocorreram pelo menos oito grandes incidentes violentos ligados a distúrbios sociais.

As 50 mil pessoas que saíram à rua a 18 de Outubro passado em Chongqing, uma pequena cidade da província de Sichuan, no Oeste do país, para protestar contra o abuso de poder de um líder local são também um sintoma do mau estar. O regime cortou as comunicações telefónicas com a região e a manifestação só foi noticiada quase um mês depois.

Tensão étnica ou crise económica?

As discrepâncias económicas estão também a ser responsáveis por um aumento da tensão étnica. “Os conflitos étnicos têm sido mínimos na China quando comparados com outros países ex-comunistas”, disse ao PÚBLICO Ben Hillman, do Centro da China Contemporânea da Australian National University. “Mas os confrontos têm aumentado de frequência na última década, a maior parte como resultado de conflitos sobre os recursos nas áreas pobres”.

Hillman regressou recentemente das regiões de Yi e Naxi, no Sudoeste chinês, onde vive uma minoria tibetana. O analista adianta que os confrontos, até agora, “não constituem uma ameaça para o Governo central porque, à parte de raras excepções no Tibete e em Xinjiang [onde se concentra a minoria islâmica], não são movimentos anti-estado, mas a expressão das dificuldades do dia-a-dia”.

“A reacção do Governo [aos conflitos étnicos] é tentar melhorar a situação económica das minorias e de todos os outros”, diz por seu lado Mackerras. “Isto provavelmente reduz o problema em alguns casos, mas noutros poderá até agravar as disparidades e dar azo a maior ressentimento. Em algumas partes de Xinjiang, muitos uigurs sentem que não estão nem por sombras a usufruir do desenvolvimento económico como os chineses han.”

A situação económica explica as razões de alguma tensão, e também a visibilidade que esta está a tomar. “Com a introdução da economia de mercado e da liberalização política, as pessoas encontraram novas formas de se organizar e proteger os seus interesses”, afirma Ben Hillman.

Regime defende a sua “política boa e saudável”

As relações entre a maioria han, que forma 93 por cento da população, com as 55 minorias oficialmente registadas têm sido delicadas. O episódio que recentemente mais chamou a atenção dos media ocorreu no princípio de Novembro, quando um acidente de viação na província de Henan (no Centro) desencadeou confrontos que resultaram na morte de sete pessoas, segundo os números do Estado, 148 de acordo com o diário “New York Times”.

O jornal americano revelava que um taxista da etnia hui (muçulmana, e a terceira maior minoria da China, com 8,5 milhões de pessoas) atropelou uma criança de seis anos de origem han. Foram quatro dias de violência entre ambos os lados, com casas incendiadas e uma fábrica destruída. Os combates, com armas feitas a partir de ferramentas agrícolas, só pararam quando as forças de segurança impuseram a lei marcial.

Este foi considerado o pior incidente entre as duas etnias em vários anos. Mas a agência Xinhua preferiu omitir que se tratou de um episódio de violência sectária; o Partido Comunista também não se referiu ao assunto, com medo de desencadear maior instabilidade social. “A China é um país com muitas minorias, mas temos um política boa e saudável de lidar com elas”, comentou na altura uma porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, citada pela BBC.

“As estratégias de desenvolvimento económico centram-se nas vantagens competitivas locais, por isso é agora politicamente aceitável promover as diferenças locais, o que era impossível na era altamente centralizadora de Mao [Zedong]”, adianta Hillman. “Sob Mao, o foco da identidade estava num novo sistema de classes e as comunidades locais eram reunidas em comunas, o que mudou drasticamente as identidades tradicionais”. Mas Hillman também atribui esta notoriedade ao facto de “o Estado não interferir tanto na vida das pessoas”.

O mesmo investigador acrescenta que o aumento do turismo “suscitou interesse e a celebração da diversidade étnica chinesa. É agora possível para as minorias étnicas orgulharem-se da sua identidade e recuperar as marcas culturais que as distinguem dos outros povos”. “Mas é preciso recordar que os conflitos são largamente económicos, e que as elites locais tendem a promover a identidade étnica para mobilizar a população a defender os seus interesses contra a concorrência”.