“Ferguson, Gaza e o estado norte-americano”

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 25 de Agosto de 2014, aworldtowinns.co.uk

O seguinte artigo de Megan French Marcelin, que lecciona na Universidade de Colombia, em Nova Iorque, foi publicado a 18 de Agosto de 2014 no Jadaliyya.com. É um exemplo de como as pessoas estão a tentar “ligar os pontos” entre o ataque a Gaza e outros exemplos de opressão impostos por um único sistema imperialista mundial, actualmente encabeçado pelos EUA.

Por Megan French Marcelin

Na sequência do assassinato policial de Michael Brown, de dezoito anos, a 9 de Agosto de 2014, as imagens de Ferguson, Missouri, evocam as atrocidades sofridas pelos que vivem sob ocupação militar nas zonas de guerra de todo o mundo. Elas mostram as Brigadas de Armas e Tácticas Especiais (SWAT) a usar capacetes de batalha com armas apontadas contra as cabeças e os tórax de mulheres e homens negros; os tanques militares a cercar os residentes que exigem saber porque é que a polícia matou mais um jovem negro; e manifestantes inundados com gás lacrimogéneo a chorar com a dor de uma substância há muito banida como arma química pela Convenção de Genebra.

Globalmente, as pessoas têm respondido com indignação e repulsa ao uso de força do tipo militar contra cidadãos, fazendo ligações entre o tratamento dado aos residentes norte-americanos de cor e o actual cerco a Gaza. Quando o Chefe da Polícia do Departamento de St. Louis, Jon Belmar, alegou que a polícia tinha feito tudo o que era possível para mostrar “moderação”, ele parecia estar a ecoar as palavras dos responsáveis israelitas para justificarem, uma vez mais, as mortes de civis em Gaza. De facto, os palestinianos têm reagido à brutalidade policial em Ferguson fornecendo conselhos sobre como evitar os efeitos colaterais do gás lacrimogéneo e exprimindo apoio aos manifestantes de Ferguson. Os habitantes de Ferguson, por sua vez, ergueram cartazes onde se lia “Gaza Livre” ao lado de cartazes que afirmavam “EU SOU UM SER HUMANO”, evocando a Greve dos Trabalhadores do Serviço de Saúde Pública de Memphis em 1968. Este intercâmbio entre pessoas de lados opostos do mundo e as esperançosas redes de solidariedade que estão a emergir disso, iluminam os aspectos perturbadores do estado norte-americano e criam potenciais enquadramentos para o activismo global.

Estes dois espaços estão ligados pela militarização financiada pelo governo norte-americano que tem apoiado cercos a comunidades com desigual acesso ao poder em todo o mundo. No Médio Oriente, segundo um colectivo de professores norte-americanos que escreveu um relatório em 2011, o governo norte-americano oferece cerca de 8,6 milhões de dólares por dia às forças israelitas para a ocupação da Cisjordânia. Ao mesmo tempo que fala na ideia de conversações de paz, o governo norte-americano tem partilhado sem hesitação informações prejudiciais e fornecido armas e munições ao estado israelita. Há menos de duas semanas, os legisladores norte-americanos demonstraram o seu infatigável apoio a Israel ao aprovarem 225 milhões de dólares para a manutenção do sistema Cúpula de Ferro, apesar do perverso número de mortes entre os habitantes palestinianos que são o resultado das operações militares ofensivas israelitas em Gaza.

A longa história do apoio militar do governo norte-americano à repressão dos palestinianos tem tido um paralelo no aumento da militarização das forças policiais estaduais e locais dentro dos Estados Unidos. A seguir à Rebelião de Watts de 1965, em que os habitantes negros e castanhos de Los Angeles saíram às ruas frustrados com as limitações socioeconómicas da legislação de direitos civis, bem como com a brutalidade policial, o armamento das forças policiais locais com capacidades paramilitares tem tido um efeito desproporcionado nas comunidades de cor de baixos rendimentos, segundo um recente estudo da União Norte-Americana de Liberdades Civis. O fim da Guerra Fria exacerbou inicialmente esta tendência, quando Ronald Reagan lançou uma “guerra às drogas” que concebia as comunidades de baixos rendimentos como uma ameaça à segurança interna. Desde o seu início em 1997, o programa 1033 do Departamento de Defesa também tem transferido armamento militar excedentário – incluindo tanques, helicópteros e M-16s – para as forças policiais locais e estaduais. Ao longo do programa, as forças policiais a nível nacional já receberam cerca de 4,3 mil milhões de dólares em equipamento de nível militar.

Porém, esta prática aumentou exponencialmente após o 11 de Setembro de 2001. Com a premissa de proteger os cidadãos de actos de terrorismo, o Departamento de Segurança Nacional forneceu mais de trinta e quatro mil milhões de dólares de subsídios às forças policiais locais e estaduais. Ironicamente, o ano passado, o chefe da polícia da vizinha cidade de St. Louis pediu um drone indetectável para policiar a cidade caso ocorresse um ataque terrorista. O pretexto de combater a “guerra global contra o terrorismo” tem tido o resultado de tornar as comunidades de cor, há muito tratadas como inimigas do estado, em potenciais zonas de guerra.

A perturbadora tendência para a crescente militarização é ainda mais reforçada pela forma como a liderança política tem alterado a responsabilidade por essa violência. Em Ferguson, tal como em Gaza, os apelos à paz dos responsáveis norte-americanos ignoram o facto de o fornecimento de armamento militar negar esse apelo à acção. Esta ironia não foi desperdiçada pelos habitantes do Missouri e no estrangeiro. Um tweeter palestiniano, mostrando uma lata de gás lacrimogéneo vazia onde se lia “Fabricado nos EUA”, dava uma garantia satírica aos cidadãos de Ferguson, dizendo que eles não deveriam ter nenhuma preocupação porque o gás lacrimogéneo que enfrentavam já tinha sido testado em civis palestinianos. Se, tal como o Represente do Missouri no Congresso, Emanuel Cleaver, correctamente afirmava ao jornal The Guardian, seria “pouco escrupuloso nós irmos converter uma cidade no meio da América numa zona de guerra”, é igualmente pouco escrupuloso nós proporcionarmos a Israel os meios para fazer o mesmo em Gaza.

Estes esboços de ligação entre Ferguson e Gaza também fornecem uma importante crítica do poder, do espaço e da política de ocupação. Em Ferguson, uma cidade onde setenta por cento dos habitantes são negros e, apesar disso, a estrutura de poder é predominantemente branca, os manifestantes evocaram imediatamente a linguagem de um “território ocupado”, recordando a quem estava a ver que a cidadania deles sempre tinha sido de segunda classe. A linguagem da ocupação resulta de uma avaliação feita há muito tempo por Marcus Garvey, pelos Panteras Negras e pelo Comité Coordenador Estudantil Não-Violento, entre outras organizações de direitos civis que têm usado este conceito para criticar a relação do poder norte-americano com as comunidades de cor a nível nacional. Quando os habitantes de Ferguson gritam “Faixa de Gaza” às forças da polícia local, eles também se estão a ligar às actuais lutas de libertação a nível mundial; eles não querem apenas justiça, mas também a autodeterminação.

Representar a actividade policial em Ferguson como uma ocupação colonial salienta as ligações entre espaços ocupados como Gaza e as comunidades não brancas de baixos rendimentos nos Estados Unidos, onde os habitantes têm sido fisicamente barricados para longe dos recursos, sendo-lhes negado o acesso à educação, dificultadas as oportunidades de habitação, despojados de cidadania e segregados em condições tipo apartheid. O tipo de indignação que cresce em Ferguson, na Palestina e noutros espaços colonizados responde não só aos acontecimentos imediatos que levaram à acção, mas a décadas atrás de décadas de ocupação repressiva e de negação de reconhecimento social e político.

Embora o assassinato de Michael Brown tenha feito focar o olhar da comunicação social sobre as questões da militarização e da brutalidade policial, os habitantes de Ferguson, Missouri, têm sido sujeitos diariamente a desigualdades institucionais e estruturalmente mantidas, bem como às violência(s) mais escondidas que elas produzem. A persistente hostilização policial, frequentemente acompanhada de brutalidade, é bem conhecida em Ferguson. Contudo, a brutalidade e a marginalização dos residentes de Ferguson vão bem para além das suas interacções com a polícia. O desemprego em Ferguson está em treze por cento, segundo os recentes dados do Brookings Institute, e quase um em cada quatro residentes vive abaixo da linha federal de pobreza. O acesso à educação é indicativo desta incidência da violência socioeconómica. Quando a zona escolar que Michael Brown frequentava recebeu a designação de “fracassada”, em vez de transferir os estudantes para escolas mais bem-sucedidos, o comité estadual de educação votou pela redesignação das escolas como colaborativas, permitindo aos responsáveis esquivarem-se à responsabilidade pelas desigualdades interzonais.

Em Gaza, onde o bombardeamento de escolas da ONU e a morte de crianças gerou novas críticas à ocupação israelita, esta avaliação frequentemente ficou longe de abordar a violência quotidiana que os palestinianos sofrem. Em Gaza, a restrição de movimentos dos palestinianos e de entrada e saída de bens na faixa de Gaza devastou o sustento de quem reside nesse território ocupado. Mais de vinte por cento dos habitantes vive na pobreza e o desemprego é devastadoramente elevado. Os responsáveis israelitas têm usado cálculos calóricos para limitarem o fornecimento de alimentos e têm destruído sistematicamente as explorações agrícolas, as empresas e as casas dos palestinianos. Sujeitos a abusivos postos de controlo militares, à revogação indiscriminada dos direitos civis e humanos, à iminente probabilidade de detenção fortuita, ao encarceramento e à morte, os palestinianos vivem como perpétuos súbditos coloniais.

Ligar estes espaços não é sobrestimar as semelhanças entre eles, mas sim compreender o estado norte-americano como central na perpetuação da desigualdade global e do terror racializado. A opressão histórica que tem sido contestada em Ferguson continua a expor as limitações da democracia norte-americana. É a busca da liberdade e da autodeterminação que fundamentalmente une os residentes de Gaza e as comunidades de cor dos Estados Unidos. Com esse objectivo, projectos como o Enfrentar o Gás Lacrimogéneo têm tentado oferecer novos enquadramentos globais no combate à repressão e ao fortalecimento dos movimentos de resistência. Temos de continuar a ter conversas sobre as perturbadoras utilizações do poder militar e do poder norte-americano, ligando as experiências, tal como as pessoas de Gaza e Ferguson estão a fazer, às tendências mais gerais do racismo, imperialismo e capitalismo que têm definido e circunscrito as vozes das comunidades marginalizadas a nível global.