EUA: Veteranos das guerras do Iraque e do Afeganistão juntam-se a milhares de pessoas no protesto anti-NATO em Chicago

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 4 de Junho de 2012, aworldtowinns.co.uk

O texto que se segue é de um artigo do n.º 271 do Revolution/Revolución, voz do Partido Comunista Revolucionário, EUA (revcom.us).

Eu vou atirar esta medalha hoje pelos 33 000 civis que morreram no Afeganistão e para os quais não será construído nenhum monumento.
(Brock McIntosh, Guarda Nacional do Exército, mobilizado para o Afeganistão)

Eu estou a devolver as minhas medalhas pelas crianças do Iraque e do Afeganistão. Que elas possam perdoar-nos pelo que lhes fizemos.
(Steve Acheson, veterano do Exército norte-americano na guerra do Iraque)

A 20 de Maio, mais de 40 veteranos – homens e mulheres, de diferentes ramos das forças armadas norte-americanas – fizeram uma dramática declaração ao mundo.

Os veteranos norte-americanos da chamada “guerra ao terrorismo” arrancaram corajosamente as suas medalhas e denunciaram o que elas representam: “Medalhas de Serviço da Guerra Global ao Terrorismo”, “Medalhas da Operação Liberdade para o Iraque”, “Medalhas de Defesa Nacional”, “Medalhas de Boa Conduta”, “Medalhas Expedicionárias”. Eles falaram do coração sobre porque é que estavam a rejeitar essas “insígnias baratas” que lhes foram dadas, como disse um veterano, “numa tentativa de encherem o vazio em que estava a nossa consciência”, e repudiando o que tinham feito aos povos do Iraque e do Afeganistão. Falaram sobre as crianças. Sobre as mulheres. Os inocentes. A destruição. A dor. O sofrimento. Os feridos. As mentiras. Numa mensagem que agora deve ser espalhada, estes veteranos atiraram as suas medalhas para o local onde estavam reunidos os líderes da NATO, a aliança militar liderada pelos EUA, que traçavam os seus próximos actos sangrentos.

Esta acção, organizado pela associação Veteranos do Iraque Contra a Guerra (IVAW na sigla em inglês), foi o culminar de uma animada manifestação de mais de 5000 pessoas – Occupiers, activistas contra a guerra, estudantes e muitas outras – vindos de todo o país para Chicago para protestarem contra a cimeira da NATO de 20-21 de Maio, contra a sua actual guerra no Afeganistão e a sua investida militar no globo. Juntamente com os veteranos que lideravam a manifestação, sob o lema “Honrar os Mortos, Curar os Feridos, Parar as Guerras”, estavam as mulheres da organização Afegãos pela Paz – em representação do povo afegão, vítima da invasão e ocupação dos EUA-NATO.

Foi uma acção poderosa e significativa. Estes veteranos das guerras do Afeganistão e do Iraque viveram directamente – e participaram – nos horrores e crimes que estão a ser cometidos pelos EUA em todo o mundo. Foi preciso uma reflexão de dar a volta ao estômago e uma enorme coragem para eles enfrentarem, e depois juntarem-se para relatarem as dolorosas verdades do que tinham visto, feito e participado – em oposição directa ao império de carnificina que antes serviram.

O que estes homens e mulheres fizeram nesse dia foi um apelo não apenas a outros veteranos e pessoal militar, mas a toda a gente nos EUA e a milhões de pessoas em todo o globo: Acordem. Ganhem coragem para enfrentar a verdade – os vossos governantes estão a cometer horrendas atrocidades e gigantescos crimes em todo o mundo. Eles estão a encobrir isso com mentiras descaradas. E estão a fazê-lo em nosso nome, recrutando-nos para o fazermos. Pensem nas pessoas do mundo! Não alinhem! Ergam-se! Falem!

A acrescentar ao significado desta acção esteve a unidade expressa entre os veteranos e aqueles que eles foram ensinados a tratar como “o inimigo”. Suraia Sahar da Afegãos pela Paz disse à Democracy Now!: “É a primeira vez que um movimento pela paz liderado por afegãos está agora a trabalhar lado a lado com um movimento pela paz liderado por veteranos. E por isso, é assim – isto é o início de algo novo, algo melhor.”

E como é que a comunicação social nesta autoproclamada terra da democracia e da liberdade de expressão cobriu isto? Em grande parte com o silêncio. Esses chefes de claque das forças armadas norte-americanas encharcadas em sangue e das guerras predatórias não iam deixar que os veteranos – que eles alegam honrar e estimar – esvaziassem a narrativa deles pós-11 de Setembro dos EUA de “vítimas”, “bons rapazes”, a combater o “terror”, com a verdade crua das linhas da frente – sobretudo não quando o império deles tem pela frente problemas assustadores e águas perigosas.

Rejeitar os tributos de uma guerra injusta

A acção dos veteranos em Chicago foi conscientemente concebida segundo o modelo dos protestos “Dewey Canyon III” de 1971 contra a guerra do Vietname organizados pela associação Veteranos do Vietname Contra a Guerra que levou centenas de veteranos a Washington DC para atirarem as suas medalhas de volta ao Congresso.

Em Chicago, Alejandro Villatoro, um veterano do Exército, disse à multidão: “Em nenhum outro lugar irão ouvir tanta gente que combateu nestas guerras falar sobre a sua jornada de combate numa guerra para pedir a paz”. E continuou: “Alguns de nós mataram inocentes. Alguns de nós ajudaram a manter estas guerras a partir do país. Alguns de nós vimos amigos nossos a morrerem. Alguns de nós não estão aqui porque perdemos as nossas próprias vidas. Nós não recebemos os cuidados prometidos pelo nosso governo. Todos nós assistimos a políticas falidas que se transformarem em carnificinas. Escutem-nos, ouçam-nos e pensem: Será que isto valeu a pena? (...) Estamos a arrancar essa máscara. Ouçam-nos.”

Depois, veterano após veterano, subiram ao palco para relatarem as suas histórias, comovedores testemunhos pessoais pelos quais eles se vieram manifestar e pelos quais estavam a devolver as suas medalhas. Havia um sentimento de que estes veteranos estavam a recuperar a humanidade deles e a moldar uma nova moralidade ao enfrentarem verdades agonizantes, erguendo-se, falando e recusando-se a estarem calados. Um veterano disse: “Eu roubei a humanidade a iraquianos e perdi a minha.” Outro falou sobre como agora podia “viver segundo a minha consciência e não prisioneiro dela.” Houve comentários sobre a importância da integridade e sobre aprender-se com os próprios erros e de se manterem unidos. Sete meses após ter ficado gravemente ferido num ataque da polícia contra o movimento Ocupar Oakland, o veterano do Iraque Scott Olsen atirou as medalhas dele, sendo a presença dele um exemplo de coragem e firmeza moral.

Uma pedra angular dos testemunhos foi o enfrentarem o impacto que as guerras dos EUA têm nos povos do Iraque, Afeganistão e outros países da região. O veterano da guerra do Iraque Scott Kimball disse: “Estou a devolver estas medalhas hoje pelos povos do Paquistão, Iraque e Palestina e por todas as vítimas da ocupação em todo o mundo.” Steven Lunn, um veterano de combate no Iraque, declarou: “Esta medalha, estou a dedicá-la às crianças do Iraque que já não tem pais e mães.” Greg Broseus disse: “Estou aqui para devolver as minhas medalhas porque enquanto as usar não posso estar solidário e em paz com os meus irmãos e irmãs no Iraque e no Afeganistão.” Um veterano que participou nas invasões do Iraque e do Afeganistão nos Marines norte-americanos disse simplesmente: “Peço desculpa aos iraquianos e afegãos por ter destruído os vossos países.”

Membros da Afegãos pela Paz acrescentaram as suas próprias acusações ardentes. Samira Sayed-Rahman disse: “Os afegãos já não aguentam mais. Estão mais que fartos de serem seres sem nome, sem rosto, mais que fartos de serem tratados como danos colaterais, mais que fartos dos 11 longos anos desta guerra sem fim à vista. Não queremos mais nenhum Abdullah, cujos dedos foram cortados e usados como troféus de guerra, não queremos mais nenhuma Fatima, cujo rosto foi queimado com ácido por ter tentado ter uma educação, não queremos mais nenhum Najeeb e toda a família dele a serem mortos num ataque com um avião não tripulado, não queremos mais nenhuma pequena Zainab, de 5 anos de idade, deixada a defender-se a si própria enquanto via a mãe dela a ser violada à força e o pai dela com o cano de uma arma enfiado na boca, não queremos que o nosso país seja queimado até às cinzas e vezes sem conta pelas bombas da NATO.”

“Esta guerra precisa de ser parada”

O jornal Revolution/Revoluciónfalou recentemente com dois dos veteranos que devolveram as medalhas nesse dia sobre como esse momento tinha tido origem, o que ele significava para eles e outros veteranos e o seu impacto global.

O veterano do exército Raymond Knaeble disse-nos: “Foi um momento especial. Trouxe esperança a todos os veteranos e [soldados norte-americanos] no activo para criarem a consciência de que a guerra é uma ocupação ilegal – não tem a ver com paz mas com violência contra a paz, com guerra de agressão e tortura. Foi muito pessoal, eu estava orgulhoso por ter ganho as medalhas mas tudo se baseava em mentiras, não na verdade. Não tinha a ver com levar a liberdade às pessoas mas sim com matar pessoas inocentes. Eu não estive no Afeganistão mas estou solidário com todas as pessoas no Iraque, Afeganistão e Paquistão.”

“Muitos de nós ficámos em lágrimas, foi um desses momentos”, continuou ele. “Nós não podemos mudar o passado mas queremos que outras pessoas saibam que esta guerra precisa de ser parada. Nós temos uma guerra aqui mesmo para levar estes políticos à justiça. Eles são criminosos de guerra. Muitos dos veteranos estiveram no Iraque e no Afeganistão, pelo que viram isto em primeira mão. As forças armadas mentem aos soldados e dão-lhes medicamentos que podem ser piores que as drogas de rua, e dizem-lhes que matem quem virem. Muitos soldados têm cometido suicídio porque nós temos uma consciência. Os soldados querem regressar a casa. Eles perguntam, porque é que estamos aqui?”

John Anderson, do corpo de Marines [fuzileiros navais], que foi mobilizado duas vezes para o Iraque em 2007-2009 e que devolveu as suas medalhas de “Guerra Global ao Terrorismo” e “Campanha do Iraque”, disse: “Uma pessoa perde-se nas forças armadas. Isto foi um recuperar da minha própria pessoa. Foi uma poderosa libertação emocional quando vi as minhas medalhas a voarem para a NATO. E obtive um maior sentimento de paz comigo próprio. Teve um profundo efeito. Quando saímos do palco, todos nós caminhamos até um parque. Cada um de nós ficou durante 10-15 minutos consigo próprio, apenas a processar.”

“Muitos veteranos que não são tão politicamente conscientes têm uma sensação de..., como é o caso do meu amigo no Tennessee, uma atitude de... – não quero pensar nas ramificações do que fizemos. Eles percebem que não estava certo, mas é difícil enfrentar isso. Os meus amigos vêem-me e sentem uma sensação de validação e possibilidade.” Anderson disse ter tido sobretudo, esmagadoramente, respostas positivas [de outros veteranos].