Egipto: O teste de força continua

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 19 de Dezembro de 2011, aworldtowinns.co.uk

Por Samuel Albert

A 15 de Dezembro, um ataque do exército egípcio a uma ocupação frente ao edifício do governo perto da Praça Tahrir desencadeou mais uma explosão de revolta.

Como os manifestantes eram apenas algumas centenas e por vezes mesmo menos, os militares que governam o Egipto e a sua comunicação social chamaram-lhes uma minoria isolada. Eles provavelmente pensaram que poderiam esmagar facilmente esse pequeno mas persistente sinal de desafio. Contudo, quanto mais violentamente os militares tentavam partir a espinha aos rebeldes, mais aumentava o apoio aos rebeldes. Os militares viram-se, se não isolados, pelo menos a perder terreno.

Os manifestantes ocupam a Praça Tahrir ou as zonas vizinhas há já um mês, com um custo até agora de cerca de 55 mortos, muitas centenas de feridos graves e prisões de que resultam a tortura e a prisão. O número de manifestantes tem tido altos e baixos, desde algumas dezenas nalguns momentos, a centenas, muitas vezes milhares e num dado momento dezenas de milhares. Está convocada uma grande manifestação para 23 de Dezembro.

O movimento parecia estar num ponto baixo a 19 de Novembro, quando a polícia se precipitou sobre a Tahrir ao amanhecer para expulsar um pequeno grupo de pessoas que tinha aí montado tendas. Durante os dias seguintes, o controlo da praça passou de um lado para o outro entre a polícia e os manifestantes, à medida que jovens reforços e activistas mais velhos para aí afluíam, culminando numa gigantesca e triunfante concentração. Então começaram dias de árdua luta quando os jovens atacaram o vizinho edifício do Ministério do Interior.

Juntamente com bastões, gás lacrimogéneo e tiros, os militares também utilizaram manobras políticas para acabarem com os protestos. Afastaram o seu primeiro-ministro desconhecido e puseram um político mais experiente, Kamal Gonzouri, antigo primeiro-ministro no tempo do Presidente Hosni Mubarak, antes de se ter distanciado do regime que a Tahrir derrubou em Fevereiro passado. Também fizeram eleições parlamentares e prometeram que no próximo ano [2012] haveria um presidente civil.

O menor número de manifestantes que persistiu durante e depois das eleições mudou-se da Tahrir para o vizinho edifício do governo, onde bloquearam simbolicamente a nomeação de um novo governo. Exigiram a demissão de Gonzouri e o fim imediato do domínio militar.

A 15 de Dezembro, os soldados espancaram algumas pessoas que saiam do protesto. Um jovem foi sequestrado, levado para o edifício adjacente do parlamento e torturado. Essa brutalidade trouxe mais manifestantes e a batalha começou. Ao amanhecer do dia seguinte, a polícia militar atacou, disparando tiros para o ar. Usando tácticas já vistas repetidamente durante o último ano, homens nos telhados dos edifícios governamentais, algum em uniforme, faziam chover sobre a multidão objectos letais - pedras, telhas, painéis de madeira e mobiliário. As pessoas começaram a atirar pedras de volta às tropas no terreno.

Os soldados prenderam cerca de 20 pessoas e levaram-nas para o edifício do parlamento. Foram espancadas com bastões e barras de ferro e receberam choques eléctricos. Entre elas estava uma jovem líder activista e um repórter da Al-Jazeera. Fizeram o mesmo a um novo membro jovem do Parlamento que tinha apresentado uma queixa contra o chefe da junta militar, o Marechal de Campo Tantawi. Enquanto o torturavam, eles gritavam: “Isto é o que nós pensamos do vosso... parlamento”.

Oito membros do conselho consultivo que os militares tinham acabado de nomear para darem a si próprios uma cobertura civil, demitiram-se em protesto contra o que chamaram de ataques dos militares contra manifestantes não violentos. Os restantes membros votaram para deixarem de se reunir.

Um académico muçulmano sénior que tinha ido mostrar a sua solidariedade com os manifestantes foi atingido no coração, aparentemente pela polícia militar. Também foram atingidas nove outras pessoas, tendo duas delas morrido, segundo o Ministério da Saúde. No dia seguinte, o funeral do popular clérigo reuniu milhares de pessoas, incluindo importantes autoridades religiosas muçulmanas e cristãs coptas e activistas laicos, que depois marcharam para a Praça Tahrir.

A luta continuou frente ao edifício do parlamento e os soldados atacaram repetidamente a praça. Invadiram hospitais de campanha montados em mesquitas e igrejas vizinhas e queimaram equipamento médico, prenderam médicos e levaram os doentes.

Também invadiram apartamentos e quartos de hotéis com vista para a praça para destruir e roubar as máquinas fotográficas e outro equipamento dos jornalistas. No terreno, todas as pessoas com uma máquina fotográfica tornaram-se em alvos.

Apesar disso, houve imagens insuportavelmente chocantes colocadas na internet em pouco tempo. Várias gravações mostram grupos de soldados a cercar, espancar e espezinhar um manifestante caído e depois a arrastar para fora dali o corpo inconsciente ou morto. Uma gravação mostra um soldado a atacar, a puxar de uma pistola e a disparar sobre um grupo de pessoas que se retirava. Fotos de corpos mutilados testemunham a selvajaria dos soldados.

Embora a batalha frente aos edifícios do parlamento tenha envolvido sobretudo homens e jovens rapazes, havia mulheres na praça e elas pareciam ter sido visadas com uma fúria especial. O vídeo provavelmente mais conhecido dos ataques de 17 de Dezembro mostra os soldados a agarrar uma jovem pelo lenço da cabeça e a despi-la até ficar meio nua. Pode ver-se um soldado a levantar um pé com uma bota para a pontapear no estômago quando ela é arrastada para fora dali. Num outro, vê-se uma conhecida activista mais velha que está em pé, sozinha, a observar. Os soldados cercam-na e começam a espancá-la, bem como a arrastá-la.

A certa altura, uma bomba de petróleo atinge os arquivos nacionais egípcios, vizinhos ao edifício do parlamento, onde os dois lados os estavam a atacar. Os soldados atacaram os manifestantes que tentavam apagar o fogo e a colocar em segurança alguns dos documentos. Os conteúdos dos arquivos recuam aos registos da invasão do Egipto por Napoleão em 1798.

Forçado a emitir uma autodefesa política, um porta-voz do conselho militar negou que os soldados tenham espancado ou atingido alguém, e proclamou que os manifestantes não eram “os jovens da revolução”. Isso foi interpretado como uma referência ao grande número de jovens aparentemente de estratos sociais mais baixos no centro da luta, tal como tinha acontecido durante a primeira revolta da Tahrir que derrubou Mubarak. Também disse que a violência tinha sido causada por “contra-revolucionários” e por uma “mão estrangeira”, uma referência a Israel e/ou às sobras do regime de Mubarak que supostamente estariam a pagar aos jovens pobres e às crianças de rua para se revoltarem. Isto pode parecer ir longe demais vindo de umas forças armadas que foram construídas pelos EUA com a finalidade de, entre outras coisas, protegerem Israel do povo egípcio, mas há muito tempo que projectarem-se como protectoras da nação (e agora da “revolução”) é uma parte central da estratégia política das forças armadas egípcias.

Embora a 19 de Dezembro o exército tenha trazido as Forças Centrais de Segurança - a supostamente “civil” polícia antimotins de Mubarak -, estes confrontos foram incomuns no facto de que durante a maior parte do tempo o exército liderou as batalhas sozinho. A primeira vez em que isso aconteceu em tão grande escala foi em Outubro, quando os soldados atacaram os manifestantes que protestavam contra os ataques aos cristãos coptas e mataram 27 pessoas. Estes confrontos tão abertos povo/exército representam um problema político para os militares que têm tentado distanciar-se da quase universalmente odiada polícia e que alegam que os seus soldados estão presentes nas manifestações para protegerem os manifestantes.

Estes acontecimentos também têm sido problemáticos para os governantes egípcios porque uma vez mais a turbulenta configuração política do país ficou centrada na Praça Tahrir. As batalhas nas ruas têm sido o principal acontecimento, enquanto as eleições parlamentares que estão a decorrer ao mesmo tempo são uma exibição secundária. Isto não é um revés menor, uma vez que era suposto que o processo eleitoral produzisse um regime com alguma legitimidade num país onde durante o último ano as autoridades a todos os níveis começaram a ser não só desprezadas mas mesmo desafiadas e muitas vezes expulsas, a começar no topo e indo dali abaixo. O exército certamente que detém o poder, mas a clara injustiça da sua violência manchou gravemente a legitimidade sem a qual nada pode fazer.

Foi provavelmente por isso que a Secretária de Estado norte-americana Hillary Clinton disse que estava “profundamente preocupada” com a violência, embora ela tenha atribuído isso a ambos os lados, como se não fosse só o regime egípcio e só ele que está a atacar e a matar civis. Para uma responsável entusiasta de pedir sanções e bombardear outros governos do Médio Oriente não do agrado de Washington, é notável que ela não tenha ameaçado cortar o sistema de apoio vital dos EUA aos mortos-vivos generais egípcios.

Os reaccionários egípcios têm tentado usar um slogan do movimento norte-americano Ocupar e dar-lhe a volta, troçando dos ocupantes da Tahrir ao proclamarem “Nós somos os 97 por cento, vocês são os 3 por cento”, uma referência ao facto de os partidos políticos de esquerda terem obtido cerca de 3,5 por cento dos lugares na primeira volta das eleições parlamentares. Isto não dá uma imagem precisa de uma situação complexa e contraditória.

Uma sondagem Gallup realizada na primeira parte deste ano proclamava que a maioria das pessoas tinha confiança no exército (mas não necessariamente nos generais que governam), mas também concluiu que praticamente toda a gente considerava que a violência contra civis nunca é justificada, um número que não tem paralelo nas sondagens da Gallup realizadas por exemplo em Israel e nos EUA.

Além disso, parece haver um enorme fosso entre as aspirações mais profundas de muita gente e as escolhas políticas que elas sentem que o realismo impõe. Quando o regime tem atacado os rebeldes da Tahrir, a polarização a favor-ou-contra a Tahrir que daí resulta, e sobretudo a favor-ou-contra a violenta repressão da Tahrir, não tem sido favorável aos militares.

Até agora, os militares têm procurado lidar com isso tentando esmagar os rebeldes. E ainda não esgotaram o seu potencial de morte.

Algumas das pessoas presas, torturadas ou atingidas eram conhecidos activistas e inimigos do regime. O clérigo assassinado, Xeque Emad Effat, por exemplo, era popular por se ter oposto a Mubarak, à junta e às autoridades que dominam o sistema religioso. A preocupação de que os generais possam estar a visar indivíduos icónicos específicos aumentou quando um membro do Conselho Supremo das Forças Armadas (SCAF) que falava na televisão denunciou Mohamed Hashem, dono da Merit Publishing, como membro de um punhado de pessoas por trás da violência. Hashem é muito considerado no Egipto e no mundo árabe pelo seu laicismo iconoclasta e coragem pessoal, bem como pela sua perspicácia literária. A posição dele entre os intelectuais é correspondida pelo afecto dos jovens da Tahrir que ele abrigou nos seus escritórios próximos da praça. Acusado de distribuir capacetes e máscaras de gás aos jovens que lutam com os soldados, ele simplesmente respondeu que nunca deixaria de ajudar revolucionários. Vários artistas e outras pessoas proeminentes assinaram de emergência uma “declaração de apreciação” que o apoia contra os militares.

Mas a força política do exército não está esgotada, não só entre os que temem a mudança social como também entre muitos dos que anseiam por ela. Mesmo entre as pessoas que se consideram profundamente comprometidas com aquilo que pensam que a Tahrir representa, muitas sentem que os militares são a sua única esperança de impedir os islamitas de imporem um estado inteiramente religioso.

Nesta situação altamente complexa, é verdade que as várias forças reaccionárias - incluindo os militares, os islamitas e os orgulhosamente pró-ocidentais representantes dos grandes capitalistas do sector privado do Egipto - não estão unidas. De facto, o movimento da Tahrir tornou ainda mais difícil aos inimigos do povo unirem-se. Por exemplo, nesta altura nem os políticos islamitas nem os laicos querem ser associados ao SCAF, embora tenham mostrado o seu apetite em partilharem o poder dele. Uma razão por que os militares usam membros mais velhos do regime de Mubarak como suas figuras civis de proa é que ninguém mais quer esse trabalho. O reavivar da revolta de certa forma estragou a festa à Irmandade Muçulmana, a grande vencedora das eleições para um parlamento que está em risco de ficar desacreditado mesmo antes de tomar posse. Mas a Irmandade continua a apresentar-se como o único partido que pode restabelecer a ordem.

Estas divisões entre os reaccionários foram uma fonte de perigosas ilusões entre o povo quando os militares deixaram cair Mubarak. Ainda o são, embora as pessoas tenham deixado de gritar “O povo e o exército são uma só mão” como na altura da queda de Mubarak em Fevereiro passado, para agora gritarem “O povo quer o derrube do exército” e mesmo “O povo quer a execução de Tantawi”.

Mas estas divisões - e a persistente crise de legitimidade que existe numa relação dinâmica que lhe está associada - também ainda representam um conjunto de circunstâncias favoráveis ao surgimento de um pólo político completamente diferente: um movimento que não procure reconfigurar mas sim destruir a actual estrutura de poder e estabelecer um estado revolucionário, um estado que possa construir uma forma completamente diferente de sociedade, capaz de satisfazer os interesses e as aspirações mais profundas do povo. O surgimento desse tipo de movimento revolucionário claramente definido e cientificamente guiado pode transformar completamente a actual paisagem política.