Egipto: “A grandiosa – e mortal – ilusão”

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 7 de Fevereiro de 2011, aworldtowinns.co.uk

Publicamos de seguida excertos de um artigo da edição datada de 6 de Fevereiro de 2011 do jornal Revolution/Revolución, órgão do Partido Comunista Revolucionário, EUA. Para ler o texto integral e outros materiais em inglês, consulte www.revcom.us.

“O exército está connosco!”

Quando uma luta chega ao ponto em que o próprio poder de estado está em jogo, quase sempre aparece este grito entre as pessoas. Normalmente isso acontece quando as coisas estão num precipício, quando as coisas parecem estar demasiado num limbo: quando o velho poder já não tem legitimidade suficiente para governar, mas às forças que querem uma mudança verdadeiramente fundamental falta-lhes a compreensão, a organização, e/ou o apoio para elas próprias tomarem o poder. Entretanto, o exército sente, ou é-lhe dito, que a velha força governamental passou o seu prazo de utilidade para as verdadeiras potências. Nessa altura, alguns “heróis” do exército emergem a alegar estar a ouvir o povo. E o povo vai então em rebanho para baixo das asas deles.

Não é difícil ver porque é que este sentimento emerge espontaneamente. É muito difícil para as pessoas, mesmo para os revolucionários, levarem a melhor sobre a violenta força repressiva de um exército – mesmo de um mal organizado, já para não falar num moderno e inteiramente equipado. Seria mais fácil se o exército, ou um sector do exército, mudasse para o lado do povo. Ainda mais importante, as pessoas não compreendem espontaneamente a verdadeira natureza das coisas, não penetram espontaneamente por baixo da aparência das coisas para chegarem à essência delas. Por isso, se o exército não foi usado anteriormente contra o povo, ou se alguém emergir do exército a prometer fazer reformas e as pessoas não tiverem um entendimento científico, irão cair nessa armadilha.

Mas o que _é_ a realidade? O que _é_ a essência da questão? Os exércitos não são instrumentos neutros. Os exércitos não são máquinas que podem ser esgrimidas de uma forma igualmente boa por toda a gente. Os exércitos surgiram quando a sociedade foi dividida em exploradores e explorados para impor essa divisão e para impor a vontade dos exploradores. Os exércitos são criados por certas classes e impõem os interesses dessas classes. De facto, em todo e qualquer sistema, o exército é a principal instituição através da qual a classe dominante impõe a sua vontade. Na sociedade moderna, os exércitos não representam nem podem representar a nação no seu todo - eles representam as classes que controlam o país. No Médio Oriente, essas classes são as potências imperialistas ocidentais, juntamente com as classes reaccionárias (os capitalistas burocratas, os que se baseiam na exploração feudal ou semi-feudal dos camponeses, etc.).

Então, como é que um exército aparentemente se volta contra o poder dominante?

Em 1978, no Irão, milhões de pessoas saíram às ruas contra o governante do Irão, conhecida como Xá. Durante anos, o Xá tinha construído o exército e, nas primeiras fases da insurreição, o exército defendeu-o, ceifando os manifestantes na rua. Mas a certo ponto, quando se tornou claro para essas forças da classe dominante que tinham estado atrás do Xá que o exército já não podia continuar a afogar as pessoas em sangue... e quando se tornou claro que a continuação nesse caminho se arriscava a “radicalizar” ainda mais as pessoas e a colocar o próprio exército em perigo... nesse momento, disseram ao exército para se afastar. Disseram ao Xá para partir. Nesse caso, foi a classe capitalista-imperialista dos EUA a dar as ordens - reflectindo o facto de que, em nações oprimidas como o Irão (bem como a Tunísia e o Egipto), são as potências imperialistas que dominam e determinam as condições da vida política e económica.

Quanto à actual crise no Egipto, é importante notar que alguns oficiais de alta patente do exército egípcio estavam nos EUA numa conferência no Pentágono quando esta insurreição rebentou. Após um dia de “consultas”, eles cancelaram o resto da conferência para se apressarem a regressar. Podem imaginar facilmente o conteúdo dessas “consultas”.

Por vezes, os oficiais dos exércitos das nações oprimidas organizam golpes de estado que desagradam, ou parecem desagradar, aos governantes dos EUA Mas, mesmo nesses casos, o exército não age “acima das classes” ou “para o povo” ou “para a nação” – não, apesar de toda a retórica populista e mesmo, por vezes, das queixas contra o imperialismo, no fundo, nesses casos o exército representa os interesses de classe de forças burguesas que se sentem limitadas pelo acordo existente com os imperialistas no seu país, e que anseiam por um maior quinhão da exploração do povo. Aqueles que, entre o povo, vacilam atrás do exército na esperança de que ele venha a representar as massas irão descobrir rapidamente que, em vez disso, representa um ou outro sector dos que têm como objectivo explorar e oprimir as massas. E, mais cedo ou mais tarde, os “heróis do exército” de ontem chegarão a um acordo com os mesmos amos imperialistas cuja opressão levou as pessoas à revolta. Conclusão? Não pode haver nenhuma verdadeira libertação sem a derrota decisiva, e o desmantelamento, dos pontos centrais do poder político e, em última análise, do poder militar que é exercido pela classe dominante e sem a sua substituição por um novo poder de estado revolucionário.