Do “Atash”, Irão: O terramoto no Iraque e as suas consequências regionais

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 30 de Junho de 2014, aworldtowinns.co.uk

Do Atash (Luz), um jornal comunista iraniano mensal impresso e blogue na internet, com uma introdução de um correspondente do Atash para o SNUMAG.

Um olhar para os acontecimentos das últimas semanas no Iraque e no Médio Oriente mostra a complexidade das contradições centradas na região e a fluidez dos movimentos e das políticas que estão a ser levadas a cabo pelos principais estados e forças envolvidas na resposta à ofensiva do Estado Islâmico do Iraque e Levante (ISIL ou ISIS nas siglas em inglês, chamado Da'ash em árabe e Daesh em farsi).

Nas novas condições de hoje, a Casa Branca está a considerar seriamente uma reorganização do estado iraquiano. O conjunto de possíveis cenários em análise inclui a formação de um regime governado por uma coligação de forças de ambos os lados do actual conflito militar e estados autónomos estabelecidos através da divisão do país entre sunitas, xiitas e curdos.

O regime teocrático do Irão, apesar das suas contradições internas, está aparentemente unido em torno da manutenção de Nouri al-Maliki no poder. Alguns responsáveis da República Islâmica chamam ao regime dele “a forma mais adequada de governo” para o Iraque, porque inclui os aliados mais próximos do Irão e outros elementos a ele associados. Ao mesmo tempo, os governantes do Irão, tal como os da Turquia e da Síria, estão preocupados com a desintegração do governo central iraquiano. Devido a potenciais problemas dentro das suas próprias fronteiras, eles não estão dispostos a aceitar no Iraque um estado curdo mais plenamente desenvolvido e oficialmente independente. Nos últimos dias, responsáveis iranianos têm intensificado as suas ameaças contra o estabelecimento de um estado desse tipo e feito avisos ao Partido Democrático Curdo (KDP) liderado por Massoud Barzani, o presidente do Governo Regional Curdo.

Actualmente, uma combinação de contradições e limitações obrigam a República Islâmica do Irão (RII) a restringir a sua intervenção no Iraque a fornecer informações e experiência em assuntos estratégicos através da presença de peritos e comandantes militares iranianos. A Síria lançou ataques aéreos contra o ISIL no Iraque ocidental e, neste sentido, tomou a liderança, a nível internacional, ao atacá-lo. Estas medidas podem constituir tácticas combinadas da RII e do governo de Bashar al-Assad para mudarem o alinhamento político da região, forçando o Ocidente a alterar a sua ênfase na pressão à Síria e, em vez disso, focar-se na oposição ao ISIL.

O carácter das guerras por procuração que estão a tomar forma nesta região, e no Iraque em particular, reflecte a complexidade das contradições e riscos que todas as forças envolvidas enfrentam, incluindo rivais imperialistas. As alianças militares existentes dividiram-se e as novas alianças formadas até agora estão a ser improvisadas apressadamente e são sobretudo ao nível político e não militar. Quando precisam de decidir quem são os amigos e os inimigos, todos os imperialistas e reaccionários locais estão perante uma situação de caos e confusão. De facto, nesta situação é difícil para eles sequer levarem a cabo a simples política reaccionária padrão de que “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”.

O seguinte texto é da edição de Junho (n.º 32) do Atash (Luz):

A fruta madura e mesmo a podre não cai por si própria. Precisa de uma brisa ou de um vento forte para terminar o trabalho. Os maiores desenvolvimentos políticos, a formação de novos alinhamentos e alianças e as mudanças nas estruturas e hierarquias de poder, seja a nível regional ou mundial, também precisam de uma faísca ou um catalisador. O que hoje vemos no cenário negro e poeirento do Iraque poderá vir a tornar-se nessa faísca. Um catalisador para algumas das mudanças que a “história” ainda não concretizou.

Uma força armada relativamente grande surgiu nas zonas ocidentais e centrais do Iraque. A sua coluna vertebral é o ISIL, uma organização reaccionária, fanaticamente religiosa e misógina que estabelece leis medievais nas zonas sob seu controlo. As provas apontam para a Arábia Saudita como principal apoiante do ISIL, militar e financeiramente. Entretanto, o ano passado, um grupo de analistas árabes mencionou contactos entre a República Islâmica do Irão e o ISIL. Eles disseram que o Sepah-e Qods (o ramo internacional dos Pasdaran, os Guardas Revolucionários do Irão), por um lado, tem encorajado a presença do ISIL ao longo das fronteiras noroeste do Iraque e a sua luta contra as ascendentes forças curdas anti-sírias e, por outro lado, tenta usar a horrenda violência do ISIL como prova da legitimidade do regime de Bashar al-Assad.

Recentemente, o ISIL aliou-se a líderes tribais sunitas iraquianos, a restos do regime Ba'ath e a uma parte da população das províncias de al-Anbar e Salahuddin que está farta da repressão e da corrupção do governo central, dominado por xiitas. Lançou uma grande operação militar e está agora a tentar avançar e fortalecer as suas posições. A rápida ocupação de várias cidades por parte desta aliança realça, mais que nunca, a natureza frágil e instável da estrutura governamental iraquiana. A polarização dentro da classe dominante e a desintegração das estruturas políticas em torno de linhas religiosas e nacionais (xiitas, sunitas e curdos) estão a acelerar, quaisquer que possam ser os objectivos militares reais e a composição integral dessa aliança, e se a sua ofensiva leva ou não a uma vitória definitiva. O que é importante é a formação de uma nova situação e a criação de um novo contexto para o conluio e a rivalidade entre as potências imperialistas, os estados reaccionários e outras forças reaccionárias na região. As suas rivalidades tornam novas formas de conspiração e novos alinhamentos cada vez mais necessários.

Veja-se as declarações claras dos vários porta-vozes da RII e dos EUA sobre estes desenvolvimentos. E o quão abertamente eles falam sobre a possibilidade e a oportunidade para a colaboração entre os dois países para restabelecerem a “calma e estabilidade” no Iraque e oporem-se aos “terroristas Takfiri” (muçulmanos sunitas que rotulam de infiéis os outros ramos do Islão).

Hussein Rouhani, o presidente do estado iraniano avassalado por uma crise e dividido, sitiado pela crescente miséria e descontentamento das massas, queixa-se serenamente: “Os EUA ainda não começaram a agir contra o ISIL. Se e quando o fizerem, nós estudaremos a questão da colaboração nesta situação”. Os políticos norte-americanos têm dado a entender desejos semelhantes. Por um lado, responsáveis do Departamento de Defesa dos EUA declaram que a colaboração com o Irão no Iraque não está na agenda e, por outro lado, um responsável norte-americano conhecido pela sua linha dura contra o Irão fala da possibilidade de colaboração militar e de segurança com o Irão contra o ISIL. Indubitavelmente, há barreiras ao caminho para essa colaboração e abordagem, em parte devido às diferenças no interior das cliques governantes de ambos os países. Mas esta não é a questão principal. A questão principal é que ambos os lados estão a ser compelidos a acelerar os seus esforços e a ajustar as suas políticas e planos pela instável situação actual.

Para os imperialistas norte-americanos, uma colaboração militar e de segurança com a RII em relação ao Iraque poderia ser uma oportunidade para colocar a classe dominante iraniana sob a sua égide e usar isso para expandir e fortalecer a influência política, económica e militar norte-americana no Irão e na região no seu todo. Para a República Islâmica, uma colaboração com os EUA poderia ser uma oportunidade para aliviar as suas “preocupações de segurança” há muito existentes em relação aos EUA, fortalecer a posição do Irão na região e vender-se a um preço mais alto no mercado político internacional. Se a RII não conseguir usar esta oportunidade a seu favor, poderá sofrer consequências destabilizadoras e irreversíveis.

Nestas circunstâncias, será que a RII e o seu Sepah-e Qods conseguirão assumir a tarefa de levar a cabo uma guerra por procuração em nome dos EUA? Será que uma intervenção militar directa da RII no Iraque é o início de uma presença mais pronunciada e mais vasta de uma vaga de potências imperialistas e regionais nesse país? E, por fim, será que essas políticas irão provocar uma resposta e mesmo um contra-ataque das facções e cliques político-económico-militares no interior da classe dominante iraniana intimamente ligadas aos rivais imperialistas dos EUA, em particular à Rússia?

Estes actuais desenvolvimentos têm um outro impacto importante, e isto atravessa-se no caminho da forma como eles moldam e canalizam a opinião pública e os pontos de vista das pessoas. A principal comunicação social ocidental retrata o conflito no Iraque como uma luta entre forças que, apesar de imperfeitas, estão basicamente do lado da liberdade, humanidade e civilização, aliadas contra as forças do barbarismo, fanatismo e terror medieval. Os órgãos de comunicação social geridos ou associados a países que combatem os EUA e a Europa (os canais russos por satélite e semelhantes) culpam os EUA e o Ocidente por terem gerado e reforçado as forças do barbarismo e do terror religioso. O objectivo deles é oporem-se à influência dos seus rivais no campo da opinião púbica internacional, e encobrirem o seu próprio papel na formação e manutenção da miserável e mortal ordem que prevalece no mundo. Na ausência de um forte pólo que lute por uma opinião pública global diferente através da criação e propagação das ideias e de uma estratégia para a revolução comunista como única alternativa real ao mundo imperialista e à sua inevitável miséria, as imagens e análises confusas e enganosas promovidas por toda esta comunicação social imperialista podem encontrar um mercado e tornar-se na opinião geral.

A realidade é que as potências imperialistas e os seus parceiros e compinchas na chamada “frente pela democracia e pela civilização”, por um lado, e as forças fundamentalistas religiosas reaccionárias e fanáticas, por outro, têm todas importantes pontos em comum. Primeiro, todas elas, apesar do que possam alegar, visam manter o sistema de classes que actualmente rege o mundo. Todas elas são inimigas de uma revolução profunda na política, na economia e na cultura da sociedade humana. Em segundo lugar, ambas estão a tentar arduamente propagar uma mentira entre os milhares de milhões de pessoas que sofrem a opressão e a exploração dominantes, de que elas não têm outra alternativa a não ser escolher entre esses dois pólos obsoletos e pútridos (o imperialismo e a sua democracia ensopada em sangue, por um lado, e o fundamentalismo religioso com a sua ignorância e fanatismo ensopados em sangue, por outro). A mentira de que as pessoas em todo o mundo têm de se tornar carne para canhão dos interesses imperialistas ou soldados nos exércitos suicidas de reaccionários como o ISIL e a Al-Qaeda. Esta é a mesma mentira com que o regime antipopular da RII tem alimentado as pessoas há mais de 30 anos: “Têm de escolher entre nós e os EUA! Não há outra alternativa!”

Esta situação, com a intensificação da opressão e da exploração, o crescimento da pobreza, da miséria e da ignorância e o apertar das grilhetas da divisão e discriminação de classe e género e nacional e religiosa à volta das gargantas das pessoas, grita por uma mudança radical.

Nestas condições, não há nada mais prejudicial que propagar as sementes do medo e ilusões entre as pessoas. Nenhum acto é mais traiçoeiro que alinhar com um deste dois lados obsoletos nestas disputas reaccionárias. Temos de nos opor à demagogia e aos gritos de vitória deles, e denunciar o facto de que, apesar das suas demonstrações de força, os alicerces do sistema de classes que rege cada país e do sistema capitalista-imperialista que rege o mundo são fracos e estão em desagregação, e as crises são inevitáveis. Devemos declarar isto corajosamente para acabar com a dor, a deslocação e a insegurança que diariamente tragam grandes grupos de pessoas em todo o mundo, que é necessário uma bandeira diferente. Uma bandeira que avance com uma política, uma economia e uma cultura totalmente diferentes dos actuais pólos antipopulares.

Devemos declarar corajosamente e em voz alta aos que sofrem com a actual ordem e cujos interesses fundamentais estão em contradição com o sistema de exploração e opressão de classe que, para resolver os problemas, não podemos basearmo-nos em inexistentes deuses no céu nem em deuses terrestres, desde os imperialistas ocidentais aos seus rivais chineses e russos e às várias facções da RII, nem em grupos religiosos retrógrados e sanguinários como o ISIL. As massas populares precisam de ser alertadas para a importância da unidade internacionalista com aqueles que sofrem o mesmo destino em todos os países. Temos de nos basear na anterior e na actual experiência neste mundo integrado para demonstrar a toda a gente o carácter venenoso e infundado da tacanhez nacionalista e das divisões em torno de linhas religiosas, nacionais e étnicas. Não há nenhuma outra via a não ser empenharmo-nos de olhos abertos na construção de uma alternativa revolucionária, baseando-nos nas nossas próprias forças, agrupadas em torno de uma liderança comunista de vanguarda que defina o caminho para a luta à nossa frente, com base num balanço e numa síntese científica das experiências positivas e negativas e nos avanços das revoluções e movimentos comunistas do século XX.