Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 21 de Janeiro de 2008, aworldtowinns.co.uk

O texto que se segue é um artigo assinado por Tugge da edição de Dezembro de 2007 da revista indiana People’s March (peoplesmarch.googlepages.com).

Dandakaranya – Duas vias para o desenvolvimento

Por Tugge

A região que os maoistas designam como Zona Especial do Dandakaranya é uma vasta zona florestal situada dentro das fronteiras de quatro estados indianos – Andhra Pradesh, Chhattisgarh, Maharastra e Orissa. Os maoistas criaram cinco divisões organizativas – as divisões Bastar sul, oeste e norte e as divisões Maad e Gadchiroli – que cobrem toda a zona.

Uma economia extremamente primitiva

A economia dos adivasis (povos tribais) local consistia sobretudo de duas componentes, a agricultura e a recolha de pequenos produtos da floresta. As formas da agricultura adivasi em todas essas divisões eram primitivas, com pequenas variações aqui e ali. Não é preciso dizer que eram completamente dependentes das monções (até hoje não houve nenhuma obra de irrigação, a não ser os pequenos projectos construídos pelos maoistas). O Dandakaranya é uma vasta região com uma densa cobertura florestal e pontilhada de colinas íngremes. Embora a precipitação anual não seja uniforme em todas as zonas, é normalmente acima da média. Esta região tem abundantes recursos hídricos permanentes tais como rios e riachos, com água a fluir quase todo o ano. Como nunca nenhum governo, fossem os dos colonialistas britânicos ou os dos seus sucessores compradores, construiu qualquer projecto de retenção de água, maior ou menor, a maior parte da água das chuvas é desperdiçada. Irrigar os campos a partir de poços ou pequenas lagoas, mesmo entre os camponeses mais abastados, é raro. De facto, a esmagadora maioria dos camponeses nem sequer sabe o que são poços de irrigação. Ainda estão a séculos dos homens que aprenderam a retirar água dos poços usando instrumentos como a roda de água e que, há milhares de anos, construíram represas e canais para irrigarem os campos. Numa palavra, aos camponeses adivasis da zona falta a experiência dos homens que enfrentaram dificuldades na obtenção de rendimentos estáveis e uma mudança fundamental na sua vida, passando da fase da recolha à de produção de alimentos, introduzindo muitas mudanças inovadoras nos métodos agrícolas.

Porém, construir pequenas lagoas e tanques parece ser uma prática antiga nesta região. Mas a forma como aqui os camponeses usam a água nesses tanques ou lagoas é completamente diferente da dos seus congéneres noutros lugares. Aqui, os camponeses seleccionam zonas baixas onde a água fica retida naturalmente durante as monções e constroem diques à sua volta. Depois semeiam as suas culturas nas margens da água acumulada. Irrigam manualmente as culturas com a água armazenada. Não sabem que a água acumulada pode irrigar mais campos se construírem comportas e se a água for encaminhada através de canais. A água armazenada desta forma dura até Janeiro nalguns lugares e um pouco mais noutras zonas, garantindo assim pelo menos uma colheita. Assim, este continua a ser o seu método mais seguro de irrigação e eles resistem a construir canais para alargarem as zonas de cultivo porque sentem que se a água for retirada para irrigar mais campos, pode não ser suficiente e podem nem sequer obter as colheitas que têm tido até agora. Aqui, as suas crenças supersticiosas em que se houver uma segunda colheita os deuses ficarão zangados e far-lhes-ão mal, compõem a situação. Porém, uma mudança gradual na sua atitude está a ocorrer devido ao impacto dos programas de desenvolvimento que foram iniciados sob a liderança dos maoistas durante as duas últimas décadas. A construção de tanques com sistemas de canais e a abertura de poços de irrigação têm tido lugar, embora em pequena escala.

Embora esta seja a situação nas zonas que não a das colinas de Maad, os adivasis que vivem nessas colinas fazem-nos lembrar em grande medida povos ainda mais primitivos. Quase todos eles ainda dependem sobretudo do método de cultivo corta-e-queima (jhum), fazendo crescer uma variedade rústica de um grão alimentar, a kola. Embora cultivem produtos como o arroz, a mostarda, o milho, etc., em pequenos lotes de terra ou ao lado das suas aldeias ou ainda em zonas planas entre as colinas, não sabem usar o arado. Limitam-se a cavar a terra com uma barra de ferro afiada e a introduzir as sementes. Embora tenham gado, não o sabem aparelhar para o trabalho agrícola. Embora tenham começado a usar o arado nalguns lugares onde aprenderam a fazê-lo por interacção com os migrantes mais desenvolvidos das planícies, isso ainda está no início, limitado a alguns lugares isolados.

O bom senso diz que qualquer esforço que vise o desenvolvimento da economia adivasi e, através deste, das suas vidas e do seu sustento deve basear-se na sua economia tradicional como ponto de partida. Isso significa transmitir o conhecimento dos métodos agrícolas modernos entre as massas camponesas adivasis e levar a cabo projectos infra-estruturais que ajudem directamente à modernização da agricultura. Para isso, o início da reforma agrária deve ser o primeiro passo essencial. Em segundo lugar, significa tomar medidas para assegurar que as massas adivasis recebem preços compensadores tanto pelos seus produtos agrícolas como pelos produtos secundários da floresta que eles recolhem.

A via dos actuais governantes para o desenvolvimento

Embora esta seja a única forma através da qual será possível melhorar a economia adivasi, as classes dominantes compradoras que calçaram as botas dos seus amos coloniais britânicos nunca mostraram nenhum verdadeiro interesse na modernização da agricultura adivasi, apesar das suas repetidas e presunçosas alegações sobre o sucesso dos seus programas sociais de melhoria dos adivasis. Os velhos métodos agrícolas dos adivasis continuam a ser usados da mesma forma, sem qualquer alteração fundamental. Como foi dito acima, o Dandakaranya tem muitos rios permanentes. Há outros recursos hídricos que têm água todo o ano. Apesar disso, nenhum governo levou a cabo a construção de projectos de irrigação, principais ou secundários. Os governantes, que nunca implementaram nenhum programa que garantisse o sustento dos adivasis e provocasse uma mudança fundamental nas suas vidas e que contribuísse para o desenvolvimento das forças de produção, iniciaram agora um programa que destruirá completamente a economia adivasi. Eles tiveram a audácia de implementar esse programa de devastação em nome do “desenvolvimento”. Como resultado, está a surgir aqui uma economia distorcida. O nível da agricultura adivasi, já abaixo da subsistência, foi ainda mais devastado com o tipo de projectos infra-estruturais que os governantes levaram a cabo como parte da sua política de globalização.

Os governos do Chhattisgarh e do Maharastra têm insistido em que levarão a cabo obras de desenvolvimento nos cinco distritos de Bastar e no distrito de Gadchiroli e afirmam que a industrialização é o melhor caminho para o desenvolvimento dos povos locais. Vejamos agora o que são exactamente esses esquemas de desenvolvimento e quem são os “povos” que vão ser beneficiados.

Quase todas as zonas habitadas pelos adivasis no país têm vastos recursos naturais. Embora os rios (e outros recursos hídricos), as florestas e as terras sejam os recursos mais visíveis, também não há falta de recursos minerais. A zona de Bastar em particular tem abundantes depósitos de vários minérios. Há 610 milhões de toneladas de depósitos de dolomite e 2340 milhões de toneladas de depósitos de minério de ferro na zona de Bastar. Calcula-se que haja 3580 milhões de toneladas de depósitos de calcário nas zonas de Devarapal, Larogi, Raikot e Mangi Dogri. A zona de Keskal tem 100 milhões de toneladas de depósitos de bauxite. A Empresa Mineira Estatal do Madhya Pradesh tem extraído estanho e corindo em Bastar. O minério de ferro das minas de Bailadilla é da melhor qualidade.

Alem disso, a floresta local alberga teca, maddi e outras árvores fornecedoras de madeiras caras da melhor qualidade. Toda a zona do Dandakaranya tem extensas zonas de bambu. As forças imperialistas e os seus lacaios indianos, as grandes empresas compradoras, juntaram as mãos no seu anseio de pilhagem desses vastos recursos naturais.

Todas as pretensas obras de desenvolvimento que aqui foram levadas a cabo e que agora prosseguem a toda a velocidade resumem-se à construção de super-auto-estradas, vias-férreas e outros projectos infra-estruturais semelhantes que facilitarão a pilhagem dessas imensas riquezas. As íngremes colinas das minas de ferro de Bailadilla, que têm sido esvaziadas dia após dia durante os últimos trinta anos, estão a fornecer enormes lucros aos imperialistas japoneses, uma vez que todo o minério é vendido aos japoneses a preços muito baixos. Em conjunto com isto, as obras de construção da Fábrica de Aço Nagarnar prosseguem a todo o vapor. Os governos central e estadual têm requerido activamente um FDI para uma central hidroeléctrica em Bodhghat, no rio Indravathi. Este projecto destruirá mais de 13 750 hectares de floresta e cerca de 10 000 acres de terras agrícolas dos adivasis. Os adivasis de cerca de 60 aldeias serão deslocados. Como as minas de Dalli que forneciam minério de ferro à Fábrica de Aço Bhilai estão à beira da exaustão, a Empresa Mineira Bharath assentou agora as suas instalações nas minas Raoghat, no Bastar Norte. Foram preparados esquemas para abrir as minas de ferro de Chargaon e Raoghat, no distrito de Kanker. Se a mineração começar nas colinas de Chargaon, um riacho que nasce nessas colinas ficará poluído. Esse riacho corre colina abaixo e junta-se aos rios Paralkot e Mendkhi, pelo que também estes ficarão poluídos e afectarão milhares de adivasis que continuam a viver nas margens desses rios e que ficarão mesmo privados de água potável. As pessoas afectadas formaram uma “Chargaon Khadan Virodhi Jana Sangharsh Manch” para lutar contra esse projecto. As obras de construção da via-férrea Dalli-Jagadalpur-Raoghat, que durante muito tempo estiveram em lume brando devido à oposição popular, estão a ponto de começar a qualquer momento. A grande empresa industrial Nicco iniciou e tem mantido operações mineiras nas zonas de Lohar e Chahar, perto de Raoghat, sob protecção policial. A grande empresa Godavari Isphat and Raipur Allied está a levar a cabo operações mineiras em Pallemadi, perto de Manpur. Uma delegação de responsáveis do Banco Asiático para o Desenvolvimento visitou em 2004 a zona de Pakhanjur e o líder dessa delegação anunciou que estavam prestes a gastar milhões de rupias na utilização dos vastos recursos minerais dessa zona. De uma forma semelhante, continuam a passo rápido os esforços para a extracção de milhões de toneladas de vários minérios nas zonas de Chamurshi, Ahiri e Soorjagarh, no distrito de Gadchiroil. Os trabalhos de construção de infra-estruturas para a extracção mineira de vários minérios valiosos continuam em toda a zona do Dandakaranya. O ritmo desses trabalhos aumentou durante a última década, como pano de fundo das políticas de globalização.

Estes são alguns dos chamados projectos de desenvolvimento que os governantes alegam que irão beneficiar a população adivasi local. Porém, a verdade é completamente diferente. Como todas essas obras são de capital intensivo e com tecnologia moderna, não geram nem podem gerar nenhum emprego para os adivasis locais, os quais nem sequer sabem usar o arado. Mesmo o relatório de uma agência da ONU sobre os projectos de desenvolvimento teve que admitir que esses projectos não beneficiaram de nenhuma maneira a população adivasi local. É interessante salientar que esse relatório apelava a que o governo iniciasse medidas de desenvolvimento da agricultura adivasi levando a cabo a construção de projectos de irrigação. O “desenvolvimento” que as classes dominantes implementaram trouxe a devastação generalizada aos adivasis, já que milhares de pessoas foram violentamente deslocadas das suas aldeias para abrir caminho a essas obras. Mais à frente daremos mais detalhes sobre essa devastação.

As classes dominantes exploradoras têm desenvolvido projectos turísticos em simultâneo com este tipo de industrialização, como parte do actual processo de globalização. Como uma vasta área do Dandakaranya tem uma densa cobertura florestal, ainda aí prospera uma larga variedade de pássaros e animais. Como continua a haver caça comercial com a conivência activa das autoridades, muitas espécies de pássaros e animais estão à beira da extinção. Contudo, muitos lugares ainda continuam a ser centros turísticos populares. Muitas zonas densamente povoadas foram declaradas Parques Nacionais, Zonas de Protecção de Tigres, Parques de Bisontes, etc., e milhares de camponeses adivasis foram expulsos dessas zonas.

A industrialização e o turismo estão a ser promovidos em conjunto, no âmbito da actual globalização imperialista. Ambos requerem boas estradas e vias-férreas, as quais são de facto a sua tábua de salvação. As grandes empresas compradoras e as multinacionais requerem boas estradas e vias-férreas para transportarem as matérias-primas da floresta e para fornecerem bens manufacturados aos habitantes da floresta. O sector do turismo também é um requisito seu, para desfrutarem de uma vida de luxo com os grandes lucros que extraem. Por isso, torna-se necessário construir boas estradas para que esses exploradores possam visitar facilmente os vários centros turísticos dentro da floresta. A Estrada Nacional n.º 16, que virtualmente divide a zona do Dandakaranya e que está a ser construída sob a protecção de forças de segurança, a um custo de crores [dezenas de milhões] de rupias, e as estradas de circunvalação que estão a ser construídas em todas as zonas do interior, todas elas visam apenas e justamente servir esses sectores. As estradas também são necessárias para uma rápida deslocação das forças policiais e paramilitares contra os revolucionários.

Quanto às vias-férreas, a linha Kirundul-Kothavalasa foi construída apenas com a finalidade de transportar o minério de ferro de Bailadilla para o porto de Visakhapatnam, rumo ao Japão. Os caminhos-de-ferro operam diariamente 32 comboios de mercadorias nessa rota, enquanto há apenas um comboio diário de passageiros, embora essa linha já exista há décadas. Foram gastos milhares de crores do dinheiro do povo e foram violentamente retiradas milhares de terras aos camponeses adivasis pobres, sem qualquer compensação, para a construção dessa linha. É este o “desenvolvimento” de que as autoridades se vangloriam. Enquanto isto é assim, uma grande empresa compradora, a ESSAR, completou a instalação de um oleoduto subterrâneo que liga Bailadilla ao porto de Visakhapatnam, para o transporte do minério de ferro. Embora tenha havido uma forte oposição das massas adivasis, uma vez que esse oleoduto não só afectará milhares de acres dos seus campos, como também destruirá uma enorme área da floresta, as classes dominantes terminaram essa obra sob a protecção de forças de segurança para que os seus amos imperialistas japoneses possam obter o minério a custos de transporte ainda mais baixos.

O impacto dessa via para o “desenvolvimento”

Vejamos agora que “benefícios” trouxe às massas adivasis este tipo de industrialização e turismo. A industrialização destruiu as suas casas e campos, atingindo assim duramente o seu modo de vida e pondo em perigo a sua própria existência. A sua cultura e tradições foram esmagadas. Pela primeira vez na história dessas massas adivasis, a prostituição tornou-se num grande negócio, com inocentes jovens tribais empurradas para o comércio da carne, aliciadas ou à força. Os adivasis, que nunca tinham ouvido falar sequer em doenças sexualmente transmissíveis, estão agora a tornar-se em suas vítimas. A mais temida das doenças, a SIDA, também fez a sua aparição. Como consequência natural, a lumpenização da juventude está surgir em grande escala.

Bailadilla é um exemplo de todos os males que esta industrialização trouxe às vidas das massas adivasis. O antigo Cobrador distrital de Bastar, Brahmadev Sharma, um apoiante das massas adivasis, ao ver essas consequências nefastas ficou tão comovido que extravasou a sua tristeza pelas “pequenas irmãs enganadas de Bastar” através da poesia. Os trabalhos de exploração mineira que decorrem em Bailadilla poluíram tanto os rios Shankini e Dhakini que a água ficou vermelha. Centenas de cabras e vacas criadas pelos adivasis que vivem nas margens desses rios adoeceram e morreram depois de beberem dessa água. O peixe quase desapareceu desses rios.

Além disso, a agricultura adivasi está a ser duramente atingida pelas medidas governamentais apresentadas como projectos de desenvolvimento. As zonas de Kakonar e Kadime, no Bastar Norte, são bons exemplos disso. A situação lastimável dos camponeses de mais de 100 aldeias dessas zonas espelha esse facto. Um estudo socioeconómico feito em 2004 pelo autor deste artigo confirma isso. Fizemos um estudo detalhado das condições socioeconómicas de mais de 300 famílias de 10 aldeias. Todas essas pessoas cultivavam as suas terras e também recolhiam produtos secundários da floresta. Mas o estudo revelou que as pessoas estão a ficar gradualmente afastadas dessas duas actividades económicas. À medida que aumentam a industrialização e a comercialização governamental da floresta, as vidas das pessoas e os seus sustentos foram devastados até esse ponto. Até aqui, tanto a agricultura como a recolha de produtos secundários da floresta garantiam o sustento das pessoas.

Alguns factos chocantes vieram à luz do dia quando analisámos mais profundamente as condições das acima referidas famílias. Nos últimos anos, as suas vidas ficaram completamente à mercê do governo e dos capitalistas. A parte dos seus rendimentos proveniente da recolha de produtos secundários da floresta e da produção agrícola tornou-se insignificante, enquanto a do trabalho físico aumentou. É verdade que, devido a isso, há mais dinheiro nas mãos das pessoas, mas a verdade é que os camponeses se tornaram agora assalariados. Isto é comparável às distorções que ocorrem noutras partes da economia do nosso país. A percentagem da agricultura no PIB do país tem diminuído ano após ano e em 2005-6 a percentagem desse sector de que depende 60% da população reduziu-se a apenas 22%.

Para a maioria das famílias, das 300 que analisámos, os seus rendimentos tradicionais (rendimentos agrícolas e rendimentos da venda de produtos florestais) não eram suficientes para as alimentar durante mais de dois meses. Vejamos a informação referente a duas aldeias, Rampur e Warkad, para uma análise mais precisa. Nem uma única das 40 famílias dessas duas aldeias podia comprar mais de 15 kandies (1 kandi = 15 quilos) de cereais com a sua agricultura. Também observámos uma alteração fundamental no que diz respeito à recolha de produtos secundários da floresta. No passado, as pessoas aqui costumavam recolher vários produtos secundários da floresta que podiam ser consumidos por toda a família, incluindo as crianças. Observámos, porém, que nas actuais circunstâncias, a recolha continua a dar prioridade a produtos que possam ser vendidos no mercado. Mas, uma vez que os comerciantes as têm comprado a preços muito baixos, nem uma única família consegue ganhar mais de 300 rupias [40 rupias = 1 dólar]. Não há aqui oportunidades de emprego, a não ser os empregos oriundos dos “esquemas reformadores” do governo. A informação por eles fornecida revela que o seu principal rendimento vem do trabalho nas cooperativas florestais. Embora os rendimentos da família que ganha os valores mais elevados com a recolha de folhas tendu tivessem sido de 1500 rupias, ela ganhava mais 3000 rupias com o trabalho nas cooperativas de bambu. Em geral, esses dois trabalhos duravam entre 15 a 35-40 dias por ano. A construção de estradas e outros trabalhos semelhantes têm aqui uma importância secundária.

Isto significa que as pessoas aqui têm rendimentos de 4500 rupias por ano (as famílias com salários mais elevados). Isto quer dizer que elas terão que viver todo o ano com os rendimentos que ganharam durante esses dois meses. Mas a disponibilidade de empregos está a diminuir à medida que o número de desempregados vai aumentando, dilatado pelos camponeses empobrecidos que foram expulsos das suas terras em resultado dos “projectos de desenvolvimento”.

Como dissemos antes, toda a zona do Dandakaranya é abundante numa grande variedade de valiosos depósitos minerais. Está a ter lugar uma grande concorrência no mercado entre as várias gigantes multinacionais e os seus agentes compradores indianos para se apoderarem dessas vastas riquezas. Os governos servis, tanto o Central como os dos estados envolvidos, decidiram leiloar esses recursos. Esses governos fazem grandes esforços para agradarem aos seus amos imperialistas, enganando as pessoas com falsas promessas e usando uma força brutal para ficarem com as terras das massas. Por exemplo, para contornarem as provisões da 73ª Emenda da Constituição, realizaram falsas Gram Sabhas (assembleias de aldeia), em que os únicos participantes foram polícias, responsáveis governamentais e esbirros da classe dominante, e anunciaram que tinham obtido o consentimento dos habitantes para ficarem com as suas terras. E, nos locais onde as pessoas resistiram corajosamente à sua expulsão, o estado usou uma força policial brutal, espancando e prendendo um grande número de pessoas, incluindo mulheres, como aconteceu na aldeia de Nagarnar. Onde quer que se tenham iniciado operações de exploração mineira, as pessoas perderam as terras que cultivavam há gerações e mesmo as suas casas. O estado limitou-se a lavar as suas mãos pagando uma compensação insignificante, a maior parte da qual foi engolida por funcionários corruptos e por esbirros dos partidos dominantes. Muitas pessoas nem sequer obtiveram esse escasso dinheiro, dado que não tinham nenhum título de terra em seu nome, embora tenham vivido nessas terras há gerações.

Embora este seja o estado das coisas nas zonas com recursos minerais, o mesmo problema está a manifestar-se de uma forma diferente nas zonas com extensas plantações de bambu. Aí, as pessoas tiveram que ir trabalhar para as cooperativas de bambu, abandonando a sua agricultura. Sem garantia de colheitas devido aos caprichos das monções, nunca nenhum governo tentou ensinar-lhes a agricultura moderna em substituição do seu método tradicional de cultivo de corta-e-queima – por isso, os camponeses adivasis das aldeias de Beenagonda, Kuvvakodi, Godepari, Podevada e Permilibatti, nas colinas de Maad, tiveram que reduzir gradualmente a sua dependência da agricultura e procurar outros trabalhos, vendendo a sua força de trabalho. Se as pessoas tivessem podido adoptar melhores métodos agrícolas e tido acesso a outros trabalhos assalariados durante as estações não-agrícolas, usando os seus salários para melhorarem a sua agricultura, isso até certo ponto teria contribuído para melhorar o seu padrão de vida. Mas, nos lugares onde não houve nenhum desenvolvimento da agricultura, os salários obtidos não são sequer suficientes para encherem as suas barrigas. O que acontecerá se, por qualquer razão, os trabalhos pararem nesses locais? As plantações de bambu nas vastas zonas florestais de Kamalapur, Talvada, Koruparsi, etc., no distrito de Gadchiroli, que forneciam matéria-prima às Fábricas de Papel Ballarsha da empresa Thapars, estão agora à beira da exaustão e as pessoas que aí trabalhavam estão agora a enfrentar muitas privações.

As florestas estão a ser esvaziadas. Depois de fornecerem matérias-primas às grandes indústrias burguesas indianas e às indústrias imperialistas durante mais de um século, estão agora a ser ainda mais devastadas devido às cada vez mais intensas operações de exploração mineira, à construção de fábricas, instalações infra-estruturais, gigantescas barragens, etc., como parte da implementação das políticas de globalização imperialista. Devido a isso, milhões de pessoas estão a ser deslocadas e as suas vidas a ser devastadas. Não só as pessoas, mas muitas variedades de pássaros e animais estão a ser extintas devido à destruição indiscriminada das florestas em nome do desenvolvimento. O ambiente está a ser destruído.

A resistência popular e um novo poder no Dandakaranya

Mas as massas não estão a enfrentar tudo isto sem resistência. As massas, que chegaram à firme conclusão de que esta sociedade exploradora é a principal causa da sua economia distorcida, avançaram com a firme determinação de fazerem desaparecer o passado e prepararem um futuro mais luminoso. Durante as três últimas décadas, elas têm lutado pelo estabelecimento de um sistema alternativo que assegure um verdadeiro desenvolvimento e o bem-estar do povo. A questão é saber se se deve chegar a um compromisso com este sistema explorador, perdendo todas as suas riquezas e direitos de propriedade e mantendo-se à mercê dos exploradores, ou intensificar e consolidar ainda mais o recém-emergido sistema alternativo de poder popular e a sua luta? O povo escolheu a segunda alternativa e manteve-se firme na via da luta armada. Isso tem afectado duramente todos os esquemas dos exploradores. Por isso, de forma a removerem esse obstáculo e a implementarem os seus esquemas de pilhagem, as classes dominantes declararam guerra ao povo do Dandakaranya.

O povo, que não conseguia obter melhorias consideráveis nas suas vidas com os antigos métodos agrícolas, tem, com uma curiosidade revolucionária, levado a cabo reformas agrárias. Esta mudança não foi súbita mas progrediu de uma forma gradual devido aos diligentes esforços dos maoistas. De facto, os maoistas entraram no Dandakaranya unindo as pessoas com as palavras de ordem “A terra a quem a trabalha”. A revolução agrária foi e é o seu programa imediato. Para isso, mobilizaram e organizaram as massas para a ocupação das terras da floresta e das terras dos grandes agrários. Mais tarde, à medida que os camponeses se consolidavam em organizações de massas, os maoistas encorajaram e educaram as massas para avançarem para os modernos métodos agrícolas. Os maoistas mobilizaram alguns quadros bem versados nos modernos métodos agrícolas para educarem os camponeses. Os maoistas recolheram sementes de camponeses de outras zonas de luta e distribuíram-nas entre os camponeses do Dandakaranya. Mobilizaram as massas para a construção de instalações de irrigação, embora em muito pequena escala. Alocaram a isso uma parte especial do seu escasso orçamento. Encorajaram as massas a formar cooperativas revolucionárias. Têm educado os camponeses adivasis, em particular os das colinas de Maad, sobre os benefícios da agricultura moderna em vez do método de cultivo do corta-e-queima, o qual destrói vastas áreas das florestas. Também implementaram algumas medidas para solucionar os problemas relativos à saúde pública e à educação, os quais assumiram a mesma importância que a agricultura tem. Da mesma forma, estabeleceram conversações com os comerciantes sobre a remuneração dos produtos recolhidos na floresta e pediram-lhes que reduzissem a sua exploração. Com estas e outras medidas, surgiram mudanças progressistas sem precedentes nas vidas das massas.

Todos estes programas revolucionários de desenvolvimento ganharam muita celeridade depois de as massas terem começado a criar os seus próprios órgãos de poder político, os Janatana Sarkars. Mas nada disto teria sido possível sem terem dado um duro golpe na hegemonia do sistema de exploração ao nível das aldeias. A guerra desencadeada pelas classes dominantes em nome da Salwa Judum [os bandos paramilitares contra-revolucionários dos grandes agrários organizados pelo estado] está a dificultar o avanço de tudo isto. Como resultado, as massas adivasis estão completamente empenhadas em se oporem à guerra desencadeada pela classe dominante.

A guerra desencadeada pelas classes dominantes prossegue em todas as frentes. Embora dependendo sobretudo da força brutal de milhares de elementos das forças de segurança, eles também estão a levar a cabo programas de reforma em nome do desenvolvimento. Mas quase todos eles não passam de esquemas de construção de instalações infra-estruturais que contribuirão para uma maior pilhagem dos recursos naturais e para a livre movimentação da polícia e dos paramilitares. As classes dominantes criaram a Salwa Judum para darem legitimidade a tudo isso. As massas podem estabelecer uma verdadeira economia democrática através da intensificação da resistência multifacetada e de pôr fim ao “desenvolvimento” distorcido que tem vindo a ocorrer há décadas.

Deve ser claramente percebido que a muito propagada Salwa Judum e a “ameaça naxalita” [os revolucionários maoistas], etc., no Chhattisgarh nada têm a ver com “terrorismo”, como eles pretendem, mas sim com as duas vias para o desenvolvimento. A primeira representa os enormes projectos mineiros e outros grandes negócios (indianos e estrangeiros) e uma massiva deslocação e destruição do sustento e do habitat dos adivasis. A segunda tem a ver com o desenvolvimento científico da agricultura baseada nos recursos indígenas, na preservação das florestas e dos seus ricos recursos naturais, em conjunto com o fim dos vários tipos de saque dos adivasis por ávidos políticos, burocratas, comerciantes e pela elite tribal.

A actual guerra no Chhattisgarh deve ser claramente vista por essas duas vias de desenvolvimento. Toda a gente tem que decidir de que lado está. Fingir ser neutral, dizer que os “inocentes adivasis” ficaram apanhados entre a violência de duas forças malévolas (equiparando a violência naxalita à do estado), é declaradamente falso e hipócrita, e funciona, quanto ao essencial, para justificar o terror estatal na região. Chegou o momento de todos os genuínos democratas assumirem uma posição clara sobre de que lado estão – se do dos barões ladrões, ou do dos adivasis; se do da pilhagem do país ou do da justiça para o povo!