Como os EUA criaram os jihadistas no Afeganistão

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 4 de Janeiro de 2010, aworldtowinns.co.uk

Seguem-se excertos do artigo “O Discurso de Guerra de Obama: As Questões que Levanta... E a Resposta Que Deve Ser Dada” de Larry Everest na edição de 13 de Dezembro de 2009 do Revolution/Revolución, jornal do Partido Comunista Revolucionário, EUA (revcom.us).

Por Larry Everest

Na realidade, os EUA ajudaram a instigar a invasão soviética do Afeganistão. Em Julho de 1979, cerca de cinco meses antes da invasão soviética, os EUA iniciaram uma campanha encoberta para destabilizar o governo pró-soviético do Afeganistão, armando e financiando a oposição islâmica. O objectivo, segundo Zbigniew Brzezinski, Conselheiro Nacional de Segurança do Presidente Jimmy Carter, era “induzir uma intervenção militar soviética”. Quando os soviéticos intervieram, em Dezembro, Brzezinski escreveu a Carter: “Temos agora a oportunidade de dar à URSS a sua Guerra do Vietname”.

A administração Carter levou a cabo essa operação porque, na altura, os EUA estavam empenhados numa amarga luta pela supremacia global com o que era então a União Soviética. Depois de terem ajudado a desencadear a invasão do Afeganistão, ao longo dos anos 80 os EUA trabalharam nos bastidores com o Paquistão e a Arábia Saudita para tornarem a guerra mais longa, mais violenta e mais destrutiva. Essas forças organizaram, financiaram e armaram os mujahideen (“guerreiros do Islão”). Embora muitos outros afegãos se tenham erguido em armas contra os invasores soviéticos, os EUA e os seus parceiros trabalharam para reforçarem os combatentes fundamentalistas islâmicos reaccionários. Durante a década seguinte, o governo dos EUA canalizou mais de 3 mil milhões de dólares em armas e ajuda a essas forças fundamentalistas e, ao fazê-lo, ajudaram a alimentar um movimento islamita global. Foi aí que começou Osama bin Laden. Foi aí que foram semeadas inicialmente as sementes da Al-Qaeda e dos talibãs.

Durante os anos 80 houve alguns afegãos que lutaram contra a ocupação soviética, que se opunham ao fundamentalismo religioso e tanto ao imperialismo norte-americano como ao soviético. Eles defendiam um futuro completamente diferente – um futuro livre do domínio imperialista, livre da exploração capitalista e livre das relações sociais feudais retrógradas e tradicionais e da ideologia que mantêm a maioria do povo afegão acorrentado – sobretudo as mulheres. Essas forças eram lideradas pelos revolucionários maoistas do Afeganistão. E essas forças foram visadas – de uma forma cruel e assassina – por todas as forças reaccionárias envolvidas no conflito afegão – os imperialistas norte-americanos, os imperialistas soviéticos, os mujahideen islâmicos e os senhores da guerra apoiados pelos EUA.

Quando os soviéticos finalmente saíram do Afeganistão em 1989, mais de um milhão de afegãos (juntamente com 15 mil soldados soviéticos) tinham sido mortos e um terço da população – ou seja, mais de 7 milhões de pessoas – fora empurrada para campos de refugiados. Apenas dois anos depois, a União Soviética desmoronou-se. A sua derrota no Afeganistão tinha representado um importante papel.

Entretanto, o Afeganistão foi deixado num estado de guerra civil entre o existente regime pró-soviético e diferentes grupos de fanáticos religiosos islâmicos e senhores da guerra reaccionários que se combatiam uns aos outros, ao mesmo tempo que reprimiam o povo. Apesar disso, os governantes norte-americanos consideraram o seu gambito afegão como um tremendo sucesso. Quando questionado pelo jornal francês Le Nouvel Observateur em 1998 (15 de Janeiro) se estava arrependido de ter induzido a invasão soviética do Afeganistão e de “ter apoiado os [combatentes] islâmicos e ter dado armas e treino a futuros terroristas”, Brzezinski respondeu: “Arrependido de quê? (...) O que é mais importante para a história do mundo? Os talibãs ou o colapso do império soviético? Alguns muçulmanos excitados ou a libertação da Europa Central e o fim da guerra fria?”

O regime Bush tinha vários objectivos ao invadir o Afeganistão em Outubro de 2001. Em primeiro lugar, atacar e conquistar rápida e maciçamente o Afeganistão para mostrar ao mundo que os Estados Unidos não tinham sido abalados pelos ataques de 11 de Setembro e que ainda estavam dispostos e capazes de esmagar com uma força esmagadora qualquer força que os ousasse desafiar. Não se trata apenas de uma postura machista, mas de uma acção essencial para manter a “credibilidade” – i.e., o medo – e o domínio global.

Em segundo lugar, os EUA queriam derrubar rapidamente o regime talibã e instalar no Afeganistão um estado cliente leal como parte de um esforço mais vasto para aprofundar o seu controlo militar sobre a Ásia Central (o Afeganistão faz fronteira com dois dos principais potenciais rivais dos EUA – a Rússia e a China) e obter um maior acesso e controlo dos recursos energéticos da região. (Durante os anos 90, os EUA tentaram construir um oleoduto através do Afeganistão que evitasse passar pela Rússia ou pelo Irão. A gigante petrolífera norte-americana UNOCAL foi a principal empresa envolvida – um dos seus consultores era Hamid Karzai, mais tarde instalado pelos EUA como Presidente do Afeganistão.) Fazê-lo também fazia parte de um esforço para derrotar as forças islâmicas anti-EUA em toda a região.

Simplesmente capturar ou matar Osama bin Laden nunca foi um objectivo central...

O regime de Karzai é um regime de lacaios norte-americanos, senhores da guerra, traficantes de droga e criminosos de guerra – muitos tão odiados quanto os talibãs que vieram substituir. O senhor da guerra General Abdul Dostom, que serviu como Chefe de Pessoal do Comandante-Chefe do Exército Nacional afegão com Karzai, é responsável pelo massacre de Dasht-e-Leili em 2001, em que cerca de 2000 prisioneiros de guerra foram forçados a entrar em vagões, sufocados até a morte e despejados no deserto. E, entre outras cruéis políticas e leis contra as mulheres, o governo afegão instalado pelos EUA aprovou em Fevereiro de 2009 uma lei que se aplica à população xiita do Afeganistão (10 a 15% da população afegã) que legaliza explicitamente a violação no matrimónio ao proibir as mulheres de se recusarem a ter sexo com os maridos. Essa lei também impede as mulheres de trabalharem, de irem à escola, de terem acesso a cuidados de saúde e a outros serviços, ou mesmo de saírem de casa sem a autorização do marido. Esta substituição de um grupo de opressores por outro – de uma forma não surpreendente – nada fez para acabar com a opressão. Pelo contrário, reforçou as fontes de opressão no Afeganistão – o domínio estrangeiro, o capitalismo e o feudalismo, o fundamentalismo religioso e o sistema patriarcal...

Não foi senão em 2005 que os talibãs começaram a montar uma ofensiva mais séria contra a ocupação; as forças de ocupação dos EUA e os seus lacaios escolhidos a dedo tinham tido vários anos para mostrarem que podiam melhorar a vida do povo afegão. Mas não o fizeram. Por quê? Porque os imperialistas norte-americanos não estão no Afeganistão para libertarem o povo nem desenvolverem o país; estão no Afeganistão para atingirem os seus objectivos globais: derrotar a Al-Qaeda e criar um regime favorável aos EUA que não destabilizasse os países vizinhos e que seja dócil aos objectivos regionais dos EUA.

E há uma razão mais profunda. Não se pode “melhorar a vida” do povo afegão sem se extirpar as relações sociais tradicionais e as forças de classe que beneficiam dessas relações que há séculos mantêm as massas na subjugação e na escuridão. O imperialismo introduz uma grande instabilidade nas nações oprimidas, expulsando os camponeses da terra para as cidades e muitas vezes levando a educação a um sector mais vasto das massas (de forma a modernizar alguns sectores da sociedade). Trata-se de um subproduto e de uma necessidade da introdução de relações capitalistas em sociedades predominantemente feudais. Ao fazê-lo, o imperialismo baseia-se nas antigas forças dominantes e nas novas elites para manter uma tampa sobre a insurreição (“gerir a transição”, segundo as suas palavras) – ou seja, impedir as massas de ergueram as suas cabeças e de se revoltarem contra a exploração, a desapropriação e as relações e ideias retrógradas que mantém a sociedade e o seu povo sob o seu controlo. O imperialismo baseia-se, e tem que se basear, nas mesmas forças que, por outras palavras, beneficiam quer das antigas formas tradicionais de opressão quer das novas “de mercado” – e por vezes de ambas.

O tipo de revolução que conseguirá extirpar decisivamente essas relações – o tipo de revolução que se baseará e libertará as massas para tomarem o seu destino nas suas próprias mãos – irá necessariamente opor-se directamente às estruturas de domínio estrangeiro (incluindo dos EUA). É por isso que os EUA têm que se basear e, além disso, que fortalecer e reforçar as forças mais opressivas que de facto estão no caminho de uma vida melhor para o povo, enquanto baluarte contra qualquer revolução desse tipo. Uma força como os talibãs – que nem sequer colocam de facto a possibilidade de uma verdadeira ruptura com essas relações de domínio e dependência e que representam, muitas vezes muito directamente, algumas das forças feudais mais retrógradas do país – pode “ganhar ímpeto” nessa situação; pelo menos a ponto de ganharem apoiantes entre um sector do povo, e intimidar o resto das pessoas a consentirem.