Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 1 de Novembro de 2004, aworldtowinns.co.uk

Colaboracionista iraquiano expulso do FSE de Londres

O seguinte texto foi escrito por um apoiante da secção de Londres do Movimento de Resistência Popular Mundial.

A 15 de Outubro, o Fórum Social Europeu (FSE) de Londres transformou-se num campo de batalha entre duas forças opostas. Os apoiantes da ocupação do Iraque teimavam em impor um conhecido colaboracionista com ligações ao fantoche governo interino iraquiano, Subni Al-Mashadani, Secretário-Geral da Federação Iraquiana de Sindicatos (IFTU), como um dos principais oradores num plenário intitulado “Fim à Ocupação do Iraque”. Ao mesmo tempo, uma multidão de manifestantes indignados que se opunham à ocupação imperialista do Iraque concentrava-se para expor esse escândalo e tomar uma posição de princípio contra Mashadani e os seus parceiros.

Os manifestantes de várias tendências políticas, entre eles um número significativo de iraquianos, ocuparam a ala central da reunião de cerca de 1000 pessoas e exigiram que não fosse dado a Mashadani um lugar na mesa. Os activistas do Movimento de Resistência Popular Mundial (secção de Londres) tiveram um papel fundamental na mobilização das pessoas, ao unirem-se a várias organizações e individualidades iraquianas, curdas, turcas, britânicas e de outras nacionalidades europeias.

Tendo sido levado ao FSE pelos burocratas dos principais sindicatos, entre os quais o Congresso dos Sindicatos (TUC) e o sindicato dos funcionários públicos, UNISON – ambos importantes patrocinadores deste FSE – bem como pelos blairistas dentro dos chamados Trabalhistas Amigos do Iraque, Mashadani foi apresentado como sendo uma voz legítima dos trabalhadores iraquianos cuja “visão deve ser ouvida se queremos ajudar o povo iraquiano a reconstruir o seu país” (declaração do TUC de 16 de Outubro). George Galloway, da Coligação Respeito, criticou a IFTU de Mashadani por colaborar com a ocupação norte-americana e britânica e caracterizou-a como uma “organização no papel”. Em resposta, a IFTU argumentou que está empenhada nas “eleições livres e democráticas” em que o povo do Iraque determinará o seu próprio futuro. Não surpreendentemente, a IFTU evitou responder à questão de quão democráticas poderão ser essas pretensas eleições, quando estão a ser impostas pelas baionetas norte-americanas e britânicas e os ocupantes proíbem abertamente jornais, publicações e organizações e estão a levar a cabo uma campanha de aniquilação total contra os filhos e as filhas do povo do Iraque para imporem o seu próprio domínio.

A principal força dentro da IFTU e o seu mais forte defensor no FSE é o falso Partido “Comunista” do Iraque (PCI). O PCI faz parte do fantoche governo interino iraquiano e serve a ocupação tentando dar-lhe uma face mais aceitável. O PC iraquiano, que já foi pró-soviético, diz que apoia a ocupação dos EUA/GB porque os ocupantes pelo menos estão a favor do secularismo, constituindo um “mal menor” quando comparado com a resistência, a qual calunia como sendo igual ao fundamentalista islâmico al-Zarqawi. Por outras palavras, defende que o secularismo é a linha divisória e não o facto de se ser a favor ou contra a ocupação. Isso não só é errado, como não passa de um pretexto, uma vez que os EUA defendem o uso de fantoches islâmicos sempre que necessário.

As declarações do TUC e da IFTU não mencionam o facto de que a IFTU é oficialmente o único sindicato no Iraque reconhecido pelo governo interino. Na realidade, vários outros sindicatos iraquianos, incluindo a Federação dos Conselhos de Trabalhadores e Sindicatos do Iraque, a União de Trabalhadores Desempregados do Iraque, bem como várias outras organizações de trabalhadores de todo o mundo entregaram a 11 de Junho em Genebra um protesto oficial ao Comité de Liberdade de Associação da Organização Internacional do Trabalho (OIT), afirmando que as Convenções 87 e 98 da OIT estavam a ser violadas no Iraque, sobretudo através da publicação do decreto n.º 16 que reconhece apenas um sindicato, a IFTU.

Uma revolta contra a guerra estalou entre membros do Partido Trabalhista na recente conferência de Brighton do partido. O representante da IFTU apelou aos delegados para que não adoptassem uma resolução a exigir a retirada das tropas britânicas do Iraque. Isso seria “mau para o meu país, mau para a emergência de forças progressistas, um golpe terrível para os sindicatos livres e um favor aos extremistas e terroristas”, disse. O representante da União Patriótica do Curdistão iraquiano (PUK) fez uma comovida declaração do mesmo teor. Além disso, durante essa conferência anual, os membros da IFTU tentaram influenciar abertamente os membros dos sindicatos do Partido Trabalhista para se oporem à moção contra a guerra, que representava as aspirações de dezenas de milhares de trabalhadores de toda a Grã-Bretanha, coincidentes com os desejos da esmagadora maioria das pessoas deste país.

Essa moção foi derrotada e o governo de Blair recebeu efectivamente um cheque em branco para continuar as suas criminosas ambições no Iraque no quadro da ofensiva dirigida pelos EUA contra os povos do mundo. Nestas circunstâncias, como pôde o dirigente da IFTU ousar mostrar a sua cara e tentar falar às pessoas reunidas no plenário “Fim à Ocupação do Iraque”?

O papel desempenhado pelos principais burocratas de alguns dos maiores sindicatos britânicos, incluindo o TUC e o UNISON, também foi decisivo no minar da moção “Tragam as tropas para casa” na Conferência do Partido Trabalhista. Durante uma reunião prévia sobre o “Iraque: linha divisória da política britânica”, uma oradora iraquiana expôs a direcção do TUC mostrando que tinha entrado num processo de negociações sem princípios com a direcção do Partido Trabalhista e concordado em facilitar o retirar de uma moção, em violação das resoluções aprovadas pelos seus membros em anteriores reuniões, em troca de o governo prometer proteger certos direitos como cuidados infantis decentes para os trabalhadores. Tratou-se de um claro suborno. E em troca desse prato de lentilhas eles concordaram descaradamente em permitir a subjugação do povo de um país inteiro.

A controvérsia em torno da decisão de convidar Mashadani para o FSE decorreu durante várias semanas antes do início do fórum. Mashadani já tinha sido exposto como colaboracionista por muitas pessoas do movimento contra a guerra. As suas credenciais eram bem conhecidas dos que se autonomearam decisores e determinaram quem deveria ter direito a um lugar no Fórum – incluindo membros da ala esquerda do Partido Trabalhista e os seus defensores no trotskista Partido Socialista dos Trabalhadores. Eles enfrentaram a crescente oposição de um grande número de progressistas envolvidos na organização do Fórum, entre os quais iraquianos que manifestaram bem alto a sua oposição à ocupação do seu país e foram agendados para partilhar a mesa com Mashadani.

Porém, o grupo de trabalho do FSE disse que apenas algumas pessoas tinham levantado objecções e que essas objecções tinham chegado muito tarde. A organização Tribunal Mundial descreveu isso como uma mentira – “o mundo virado de pernas para o ar” – e afirmou que havia um programa de trabalhos escondido. O convite a Mashadani como orador-chave também representou uma violação clara da própria Declaração de Princípios do FSM, segundo a qual “o Fórum Social Mundial é um lugar aberto ao pensamento reflectivo, ao debate democrático de ideias (...) por grupos e movimentos da sociedade civil que se opõem ao neoliberalismo e ao domínio do mundo pelo capital e por qualquer forma de imperialismo”. Então, por que é que os dirigentes do TUC e os seus membros desafiaram abertamente a sua própria Declaração ao convidar esse apoiante da guerra para uma reunião contra a guerra? Não basta dizer que enfrentaram “pressões pré-eleitorais”. A verdade parece mais ir mais longe. Eles estavam claramente envolvidos numa tentativa de salvar o danificado prestígio do governo britânico por causa da guerra no Iraque, ajudando a dar legitimidade ao ilegítimo governo de Allawi. Se essa entidade encharcada em sangue e que depende dos ocupantes norte-americanos e britânicos para existir fosse vista como a plataforma de uma vasta gama de forças políticas iraquianas, incluindo o Partido Comunista Iraquiano, poder-se-ia dizer que os ocupantes tinham alcançado pelo menos algo merecedor de respeito. Afinal, a guerra pode não ter sido assim tão má! Esqueçamos a questão de saber por que é que “a autoridade de ocupação dos EUA” iria “dar um lugar a um comunista se pensasse que ele tinha sequer um pingo cor-de-rosa”, dizia o comunicado da Acção Anti-Imperialista, um outro grupo que se juntou ao MRPM durante o protesto no FSE.

Deste modo, o programa de trabalhos escondido por trás desse vergonhoso convite não era assim tão escondido, afinal de contas. Enfrentado logo pela manhã a fúria de um grande número de pessoas, antes do plenário agendado, Mashadani e os seus assessores recusaram-se a reconhecer a sua posição a favor da ocupação e negaram veementemente a sua ligação ao governo interino iraquiano, acusando os manifestantes de serem baathistas. Como os manifestantes continuaram a sua denúncia, Mashadani respondeu a uma pergunta feita por um activista do MRPM e declarou que havia pessoas boas no governo interino e que a melhor maneira de terminar a ocupação seria trabalhar com o governo interino. Mashadani acabou por ser expulso do Alexandra Palace entre coros de “Fora com o colaboracionista!” e outros. Mas reapareceria mais tarde, nessa noite, com os seus guarda-costas e sentar-se-ia na mesa dessa reunião. Os manifestantes começaram a encher o corredor central da sala, exigindo que Mashadani saísse da mesa e gritando “Fora Mashadani!”, “Mashadani, tens sangue nas tuas mãos!”, etc. Entretanto, a presidente da mesa, Lindsey German, da Coligação Parem a Guerra, decidiu usar a vantagem de ter um microfone e acusou os manifestantes de negarem a liberdade de expressão a Mashadani e alegou que os manifestantes não tinham nenhum respeito pela democracia. Por seu lado, os manifestantes tentaram deixar claro que queriam que outros oradores fossem ouvidos mas que o apoiante da guerra tinha de sair da mesa. Ainda foram ameaçados de espancamento pelo pessoal do FSE e German pediu-lhes que abandonassem a reunião.

Numa demonstração de democracia aparente, foi pedido aos participantes na reunião – a maioria dos quais ainda desconhecia a verdadeira natureza de Mashadani e as circunstâncias que rodearam o seu convite – que votassem para decidir se deveria ou não ser dado o direito à palavra a Mashadani, sem qualquer explicação sobre o ponto de vista dos manifestantes relativamente às razões para a sua oposição. “Quem é a favor, quem é contra? Mãos no ar” – Acabou. Tendo ganho o voto maioritário em favor de Mashadani, a presidente continuou com a sua lógica simplista segundo a qual todos os que não queriam ouvir Mashadani teriam de deixar a reunião. Mas os manifestantes ficaram e continuaram a gritar e a apelar aos participantes a tomarem uma posição e a não cederem perante os que estavam a exercer uma ditadura em nome da democracia. Por fim, a reunião foi dada como terminada e Mashadani deixou a sala uma vez mais.

Durante as calorosas discussões que continuaram num espírito de debate espontâneo, os activistas do MRPM conseguiram conquistar muitos dos que originalmente desaprovaram o seu protesto. Um cartaz com caracteres gigantes foi preparado colectivamente com a ajuda de alguns activistas ambientalistas, a condenar a presença de colaboradores imperialistas no FSE. Foi colocado numa parede num dos cantos mais movimentados e mais populares do Alexandra Palace.