“Argo”: Um “bom” exemplo de um filme realmente mau

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 14 de Janeiro de 2013, aworldtowinns.co.uk

O filme Argo tem tido um enorme êxito de bilheteira e sido um sucesso da crítica, sobretudo nos EUA e na Grã-Bretanha. Numa altura em que se inicia a época dos prémios cinematográficos, os jornalistas de cinema de Hollywood atribuíram-lhe dois Globos de Ouro, um para melhor filme de 2012 e outro para o realizador Ben Affleck. Está nomeado para os prémios britânicos Bafta que serão atribuídos em breve e para os Óscares em Fevereiro.

Deveria ser altamente controverso, porque toca um tema ainda sensível, o cerco à embaixada norte-americana em Teerão em 1979 por estudantes que apoiavam o Aiatola Khomeini após a revolução iraniana. Esse cerco foi um ponto de viragem nas relações entre o novo regime islâmico e os EUA e desde então tem sido o ponto central de muitos argumentos. O facto de Argo não ter desencadeado um debate mais generalizado mostra o quanto a maioria dos críticos cinematográficos têm estado cegos – ou concordam – em relação à sua mensagem implícita.

A história tem a ver com seis membros da embaixada norte-americana em Teerão que conseguem escapar pela porta das traseiras da embaixada quando os estudantes a invadem. Acabam por encontrar abrigo na residência do embaixador do Canadá. O resto do filme é sobre o plano para os fazer sair do país em segurança, elaborado e levado a cabo pelo agente da CIA Tony Mendez (desempenhado por Ben Affleck), perito no que ele chama “exfiltração”.

Depois de rejeitar a ideia convencional e fatalmente imperfeita dos seus superiores de os contrabandear clandestinamente, e ao assistir com o seu filho ao filme A Batalha pelo Planeta dos Macacos, Mendez acaba por propor um estratagema. Os seis irão receber passaportes canadianos falsos e deixar o Irão pelo aeroporto de Teerão a coberto de uma história que apenas consegue resultar porque é demasiado insensata para parecer inventada. Eles vão fingir que são realizadores de cinema de saída depois de terem chegado ao Irão apenas alguns dias antes à procura de locais para filmarem um (falso) filme de ficção científica chamado Argo. O Departamento de Estado dos EUA autoriza o plano.

Então, ele e os seus superiores contactam John Chambers (John Goodman), um artista de maquilhagem de Hollywood que já tinha feito disfarces para a CIA, e através ele, Lester Siegel (Alan Arkin), um produtor de cinema. Ambos envolvem-se entusiasticamente. Chambers e Siegel montam um falso estúdio cinematográfico e tudo o que é necessário para apoiar a história de cobertura. Mendez voa para a Turquia e daí para Teerão para fornecer as falsas identidades para os membros da Embaixada e para montar o esquema.

O centro do drama do filme provém das inesperadas dificuldades de concretizar este esquema aparentemente simples – quando Mendez vai tentar obter autorização para o filme junto das autoridades iranianas; quando os norte-americanos tentam construir a sua história de cobertura visitando a cidade, colidem com manifestantes furiosos que cercam a sua carrinha; quando caminham pelo bazar tradicional e são atacados por pessoas hostis (retratadas como sendo uma turba); e quando vão levantar os seus bilhetes de avião meia hora antes do voo previsto e descobrem que os bilhetes não foram comprados porque os responsáveis norte-americanos mudaram de ideias quanto à autorização do plano.

O drama começa a aumentar quando eles tentam passar pelo controlo de passaportes no aeroporto. Depois de terem atravessado dois postos de controlo, encontram-se finalmente com um Pasdaran (Guarda Revolucionário) que duvida da história deles e chega mesmo a telefonar para o falso estúdio na Califórnia para a verificar. Nessa altura, as coisas ficam realmente feias.

Argo alega ser “baseado numa história verídica desclassificada”. Porém, tal como tem sido salientado por muitos comentadores, referindo-se ao livro sobre a vida real de Mendez quanto ao que aconteceu, algumas cenas chave, sobretudo as que acrescentam emoção, na realidade nunca aconteceram. Pode ser justificável alterar algumas características secundárias de um relato histórico para o tornar mais emocionante, atraente ou fácil de ver. Mas, mesmo assim, um filme que se diz baseado numa história verídica deveria reflectir a realidade num sentido global e não alterar radicalmente essa realidade.

Em vez disto, o filme parece usar deliberadamente os detalhes acrescentados para reescrever toda a história do acontecimento. Ponhamos as coisas desta forma: este filme tenta reescrever a história segundo a forma como a CIA gostaria que toda a gente a visse.

O filme começa com uma breve narração de fundo sobre a forma como a CIA e os britânicos ajudaram a derrubar o governo do primeiro-ministro nacionalista Mohammad Mossadegh em 1953 e reinstalaram o regime do Xá, que tinha sido forçado a deixar o país por uma insurreição de massas.

Mas depois o filme esquece-se completamente dessa narração introdutória e a textura do resto do filme é-lhe completamente alheia.

O filme não dá um verdadeiro enquadramento dos sentimentos e do estado de espírito das massas populares iranianas durante o período que se seguiu à revolução de 1979, quando o Xá em fuga recebeu refúgio nos EUA.

O golpe de estado que tornou o Xá num cliente do imperialismo norte-americano causou uma tremenda miséria e sofrimento ao povo iraniano. Os EUA puseram de volta ao poder um regime brutal que se manteve no poder durante mais 25 anos.

O cerco à embaixada em Novembro de 1979 é um assunto complicado. As pessoas estavam furiosas com o que os EUA tinham feito ao Irão. No tempo do Xá e dos seus torturadores, a economia e a sociedade foram cada vez mais reorganizadas ao serviço dos interesses do capital norte-americano e de outros imperialistas. Elas tinham razões para estarem furiosas com os EUA e o seu ninho de espiões e operacionais na embaixada que desempenhavam um papel chave no controlo do país pelos EUA.

Houve razões complexas por trás da ocupação da embaixada e do apoio de Khomeini a ela, entre as quais uma luta pelo poder no interior do regime e a disputa entre os imperialistas à escala mundial. A República Islâmica tinha os seus próprios motivos para apoiar a ocupação e assegurar-se de que ela se manteria até os objectivos do regime serem atingidos.

O regime islâmico que tirou o controlo da revolução ao povo iraniano nunca foi o símbolo da revolução iraniana mas antes pelo contrário o símbolo da traição à revolução. Eles fizeram tudo para abortar e acabar com a revolução. A crescente tensão e contradição entre o povo iraniano e o regime islâmico que começou com a opressão das mulheres e das minorias nacionais resultou na execução de dezenas de milhares de comunistas e revolucionários. Nas décadas seguintes, houve repetidas erupções de luta contra o regime. Argo trata o regime e o povo como se fossem indistintos. A ira do povo contra os EUA é retratada como fanatismo religioso ou como apenas andar atrás do regime.

Em relação aos três minutos iniciais de narração do filme sobre o papel dos EUA e da Grã-Bretanha, isso não é tanto uma admissão de culpa mas antes uma aceitação do óbvio, necessária para tratar essa culpa como um caso isolado de um passado distante.

Argo deixa as audiências com a impressão de que os EUA talvez tenham cometido erros, mas que o povo iraniano se tornou irrazoável em relação a isso. Todos os iranianos no filme são loucos e estúpidos, à excepção da empregada do embaixador canadiano, Sahar. Não deveria isto ser suficiente para indicar às pessoas que há algo de profundamente errado neste filme?

O mínimo que se pode dizer é que há uma enorme contradição entre o que o filme diz no início e a forma como as massas populares são descritas.

As emoções que muitos críticos consideram ser o ponto forte do filme são clichés, conseguidos à custa da distorção da realidade. A emoção aumenta quando os norte-americanos se empilham todos numa carrinha para chegarem rapidamente ao aeroporto antes de chegarem as forças do regime iraniano, e o motor não pega. Quantas vezes vimos isto antes? Mais tarde, há o perigo ao passarem o último controlo de passaportes e outros clichês ainda piores no final que na realidade nunca aconteceram. Na vida real, o plano correu com suavidade.

De facto, o filme foi enchido com cenas artificiais e irreais, não só nas situações dramáticas, mas é ainda pior quando lida com iranianos. Isto não é apenas o resultado de pouca familiaridade com os iranianos, embora seja de salientar que só conseguiram encontrar um actor iraniano para representar um papel falado, apesar do enorme elenco. O problema deriva do que o filme diz implicitamente sobre o povo iraniano. O seu fanatismo cego é o principal artifício do enredo e, de certo modo, a mensagem do filme.

É certo que os produtores não pretendiam fazer apenas um filme emocionante. Nem pretendiam apresentar um relato histórico preciso. Na realidade, o filme visa transmitir uma mensagem política muito forte, e uma ligeira distorção da história e uma enorme dose de emoção foram os meios para o conseguirem. Talvez Argo não seja um Rambo, mas contém alguns elementos importantes de Rambo – ou talvez tenha sido a forma de George Clooney e Ben Affleck fazerem um filme do Rambo.

Um agente da CIA agradável e honesto salva heroicamente os seus compatriotas que foram apanhados no meio de uma população ignorante, estúpida e fanática. Os funcionários da embaixada são às vezes irritantes, mas são basicamente decentes porque são, no fim de contas, norte-americanos. Tudo o que falta é uma simpática jovem iraniana que se apaixone pelo herói. A exaltação dos sempre vitoriosos agentes da CIA e das operações num país do terceiro mundo e uma visão extremamente desumanizadora das massas populares desses países é uma das características principais deste tipo de filmes.

Para sermos justos, há uma outra diferença importante – a diferença entre um Rambo republicano e um Rambo democrata. A certa altura no filme, quando dizem a Mendez que toda a operação tinha sido cancelada para não interferir com uma operação militar para salvar os reféns, ele força os seus superiores a voltarem a obter a autorização para a missão. Algumas pessoas referem-se a esse momento para mostrarem que a posição global do filme é de oposição a soluções militares. E algumas alegam que foi por isso que Affleck e Clooney, que se opuseram à invasão do Iraque, fizeram este filme: para defenderem uma solução de “poder suave”, não violenta, para o conflito entre a República Islâmica e os EUA. O filme pode ser entendido como estando a dizer que a CIA jogou forte quando derrubou Mossadegh, com resultados a longo prazo maus para os EUA, e de forma inteligente com resultados bons ao fazer sair os seis funcionários da embaixada.

Mas isto não faz muita diferença quanto à natureza do filme. Quaisquer que tenham sido os desejos dos produtores, no final o filme fortalece o sentimento de que os EUA têm de usar a força contra o Irão, seja através do assedio internacional e da violência económica contra as massas populares que resultam de sanções mais duras (supostamente esta é a solução “inteligente”), seja através de uma acção militar que essas sanções podem preparar.

Acima de tudo, o filme inverte o que é correcto e o que é errado. A República Islâmica é um regime reaccionário que precisa de ser derrubado pelo povo iraniano, mas a oposição dos EUA a esse regime baseia-se nos mesmos interesses económicos e políticos por trás do derrube de Mossadegh e do seu apoio ao Xá durante décadas, para não falar nas invasões do Iraque e do Afeganistão e outras inúmeras afrontas anteriores e posteriores. Esta violência não é um erro – estes meios são determinados pelos fins que servem. Estes crimes são motivados pela necessidade do capital imperialista de espremer a vida dos povos do mundo através da exploração, e pela disputa entre os EUA e outras potências imperialistas por essas riquezas e pelo domínio global.

É para isso que a CIA existe. Claro que o Mendez de Argo é uma pessoa profundamente prestável (sabemos que sofre de conflitos internos porque bebe muito), e é algo excêntrico (não tanto quanto Rambo), mas ele personifica a que é indisputavelmente a mais odiada organização do mundo. As personagens representadas por John Goodman e Alan Arkin são terrivelmente “frontais” no seu desafio a convenções e boas maneiras hipócritas, mas isso também o era o Terminador de Arnold Schwartznegger no seu tempo, e novamente, também o Rambo de Sylvester Stallone. Esta é uma das razões por que conseguem enganar as pessoas que deveriam fazer melhor do que simpatizar com pessoas cuja verdadeira missão é o domínio global norte-americano. Goodman e Arkin desempenham o tipo de “activos” que permitem à CIA fazer o seu trabalho sujo. Uma boa representação não torna o resultado melhor – apenas piora o venenoso impacto deste filme.

Mesmo a inegável capacidade do filme de reter a atenção das audiências está ao serviço de uma má causa – as audiências envolvem-se tanto na emoção que se esquecem de pensar e engolem clichês políticos reaccionários juntamente com artifícios de enredo tranquilizadoramente familiares.

Alguns críticos britânicos e continentais que acharam que Argo era aceitável, contrastaram-no com 00:30 Hora Negra, o qual os deixa desconfortáveis devido à sua desavergonhada apologia da tortura. Mas isto é uma distinção hipócrita. Os dois filmes podem ter sido feitos para apelar a sensibilidades diferentes, mas ambos são hinos patrióticos à CIA cantados em tons diferentes.

É um sinal do estado de espírito entre muitos apoiantes de Obama o facto de pessoas que se consideram liberais, e que têm tomado posições correctas e que no passado fizeram alguns filmes progressistas, poderem apresentar a CIA como uma força para o bem, ou pelo menos como não mais profundamente nefasta que o Serviço Postal norte-americano.

Será realmente verdade, como este filme quer que as audiências acreditem, que o povo iraniano e todas as outras pessoas têm de escolher entre ajudar o regime islâmico ou ajudar a CIA? Isto apenas dá aos EUA uma desculpa para intervirem ainda mais no Irão e ajuda a preparar a opinião pública norte-americana para mais e maiores crimes. E também fortalece a mão das forças islamitas que tentam legitimar-se e fortalecer-se exactamente com a mesma lógica.