Argentina, o milagre da globalização

Por Alípio de Freitas*

A Argentina era, até há bem pouco tempo, apresentada como o modelo perfeito do processo de globalização. O ministro Cavallo, da Economia, que transitava de um governo para outro, era o grande taumaturgo. As multinacionais entravam na Argentina pela porta grande. As privatizações eram feitas segundo o figurino do FMI. O peso e o dólar norte-americano corriam lado a lado, como iguais.

Em menos de nada, a Argentina viu-se espoliada do seu petróleo, do seu gás natural, dos seus barcos, do porto de Buenos Aires, das Aerolineas Argentinas, das empresas de comunicações e telecomunicações, a sua indústria desmantelada, invadida por manufacturados de todo o tipo vindos de todos os cantos do mundo. Ficou com o seu comércio exterior reduzido à expressão mais simples. O desemprego crescia imparável, as pensões ficaram reduzidas a esmolas, a saúde pública e a educação privatizadas tornaram-se um luxo. A fome, o desespero e a memória dos tempos fartos instalou-se na maioria dos lares argentinos. Aquela que fora a oitava economia do mundo era agora, pelo milagre da globalização, uma economia terceiro-mundista inqualificável.

Os sinais de mal-estar chegavam de todo o lado. Sinais e avisos. Mas ninguém parecia grandemente preocupado. Pois se tudo estava a ser feito segundo as regras estabelecidas pelo FMI, porquê preocupar-se?! Eram os incómodos naturais de um processo de adequação à nova economia, à globalização. Assim pensavam e agiam aqueles que tinham influência directa no processo. Banqueiros, governantes, investidores estrangeiros, o FMI e o imperturbável ministro Cavallo. Desconhecedores ainda ou relativizadores da história do povo argentino, da sua capacidade de reacção à adversidade, fizeram ouvidos moucos ao seu clamor, ficaram indiferentes aos seus movimentos, esqueceram que este povo já derrubara governos, ditadores militares e civis, impondo a sua vontade, por mais de uma vez.

Por isso, quando acordaram foi tarde. Já o povo estava na rua, em fúria, assaltando, quebrando, queimando, jogando no caixote do lixo da história o projecto de vida e desenvolvimento que os gurus da globalização lhe queriam impor. O poder caiu na rua e, em poucos dias, sucederam-se seis presidentes. O Congresso e a Casa Rosada, símbolos de poder, foram vandalizados numa demonstração clara de que nem as suas palavras nem os seus representantes interessavam ao país. Hoje, na Argentina, ninguém, nenhum homem público tem mais crédito do que o suficiente para gerir o dia a dia da crise. Todos estão sob suspeita, pois todos se calaram ou colaboraram com o processo que conduziu a Argentina à revolta popular.

A situação é tão grave que os Presidentes dos Estados Unidos, do México e do Brasil já reuniram de emergência para analisar a situação. Bush, Fox e Fernando Henrique sabem que a crise argentina pode fazer explodir outras crises da mesma natureza em toda a América Latina. Reuniram-se não porque se sintam responsáveis, mas porque a sua má consciência os pôs de sobreaviso. Também o chefe do governo espanhol, Aznar, está preocupado, preocupadíssimo, não com o povo argentino mas com o que pode acontecer na Espanha se a crise se prolongar e os investimentos (?) espanhóis, que são de biliões, entrarem em queda livre.

Significa tudo isto que a Argentina deixou de ser um país onde se pode investir em segurança? Não. A Argentina é um país de imensas capacidades quer materiais quer laborais e culturais. A Argentina não é um qualquer país do Terceiro Mundo. Quando se resolverem os problemas internos provocados pelas ditaduras militares, e a corrupção e a impunidade forem banidas do seu seio, então é tempo de aí voltar a investir. Investimentos produtivos não predatórios, investimentos que signifiquem ajuda ao desenvolvimento e não à espoliação, investimentos alongo e médio prazo sem o objectivo do lucro fácil e imediato tão próximo do roubo. Por agora, quem "investiu" na base das "maracutaias" de politica de corrupção e impunidade tem de assumir as consequências da pilhagem e esperar que as boas notícias cheguem.

* Jornalista, ex-preso político condecorado com a Ordem da Liberdade.

(Artigo reproduzido do jornal "Bandeira Vermelha", n.º 0, Março de 2002)