Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 28 de Novembro de 2005, aworldtowinns.co.uk

Aquecimento global, Parte 2:
Quão perigoso é? Que podemos fazer em relação a isso?

Na cimeira internacional de Montreal sobre as alterações climáticas desta semana, a primeira dessas reuniões desde a cimeira de Quioto em 1997, os EUA continuaram a recusar-se a reconhecer os perigos ou sequer a existência do aquecimento global, sobre o qual um cientista britânico participante declarou ser tão perigoso para o futuro da humanidade como as armas de destruição em massa. Os observadores presentes na abertura da reunião de 190 países em Montreal tinham poucas esperanças de que viesse a haver um verdadeiro progresso na obtenção de acordos internacionais de limitação das emissões de gases de estufa, o principal factor da rápida subida das temperaturas mundiais. Embora as metas de redução de emissões de gases de estufa acordadas em Quito sejam criminosamente inadequadas (o objectivo era reduzir as emissões em 2012 para 5% abaixo do nível de 1990), até agora os verdadeiros valores das emissões têm aumentado e não diminuído – mesmo a União Europeia, que apoiou Quioto, não tem conseguido cumprir as suas metas. Quão perigoso é o aquecimento global? Porque é que os governantes dos EUA e das outras principais potências se recusam a agir com seriedade, mesmo sabendo que o desastre tem os olhos fixos no género humano? Analisaremos estas questões neste segundo artigo de uma série com duas partes.

Quão perigoso é o aquecimento global?

Os dados fornecidos pelo Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) sugerem que o nível médio do mar está a subir à medida que o aquecimento global aquece as águas dos oceanos, fazendo com que se expandam e derretam os glaciares e as gigantescas placas de gelo que cobrem a Gronelândia e a Antárctica. Mostram que durante os últimos 100 anos, em geral, o nível global do mar subiu cerca de 4 a 14 cm. O seguinte diagrama mostra a alteração do nível do mar, medida nos litorais holandês, alemão e polaco.

A maioria dos cientistas acredita que a subida da temperatura, a subida do nível do mar, as chuvas intensas, as cheias nalgumas regiões e a seca e os incêndios noutras regiões são o prelúdio de alterações abruptas do clima da Terra. Com base nos modelos do IPCC, prevê-se um aumento entre 20 e 88 cm do nível do mar no final do século XXI. Prevê-se que o aumento da temperatura tenha um efeito relativamente pequeno na subida do nível do mar durante a primeira metade do século XXI, porque é preciso muita energia inicial para que se torne efectiva qualquer alteração visível no sistema climático oceanos-gelos-atmosfera. Porém, se as placas de gelo vierem a derreter completamente, a sua contribuição para a subida do nível do mar seria a seguinte: glaciares das montanhas = 0,3 metros, Gronelândia = 7 metros, Placa de Gelo da Antárctica Ocidental = 8,5 metros, Placa de Gelo da Antárctica Oriental = 65 metros. A subida total do nível do mar seria de 80,8 metros – uma situação para a qual a sociedade humana no seu todo, e nenhuma nação por mais rica que seja, não está preparada para enfrentar efectivamente.

O permafrost da Terra (os solos permanentemente gelados das regiões árcticas) é outro gigante adormecido cujo despertar causaria abruptas alterações climáticas. Os mais de dois mil milhões de hectares da superfície da Terra que estão sob o permafrost são mais sensíveis à subida da temperatura que qualquer outra região. Por exemplo, em Fairbanks, no Alasca, onde as estradas, as construções e os relvados perturbaram o permafrost, muito dele já está a descongelar. O solo por baixo está a ceder. As casas estão a partir-se e enormes fendas nas estradas tornam necessárias constantes obras de conservação. Os efeitos no Árctico russo são ainda mais dramáticos. Se o permafrost continuar a descongelar, a matéria orgânica que esteve congelada durante milhares de anos decompor-se-á e emitirá metano e/ou dióxido de carbono, o qual é um gás de estufa ainda mais nocivo. O carbono armazenado no permafrost de todo o mundo, estimado em quase 450 mil milhões de toneladas, se e quando for libertado, poderia facilmente desencadear uma reacção em cadeia sem precedentes com um efeito de dominó sobre o aquecimento global.

O perigo igualmente importante e iminente de uma alteração climática abrupta tem a ver com as correntes do fundo do oceano (também chamadas circulações termo-halinas). A Corrente do Golfo leva a água quente e salgada da superfície do Golfo do México através de todo o Atlântico até aos mares nórdicos. Calcula-se que, por exemplo, a Corrente do Golfo no Atlântico transporte uma energia equivalente a 27 mil vezes a de todas as centrais de energia da Grã-Bretanha juntas. Se a camada de gelo e a fusão dos glaciares introduzirem suficiente água fresca nas águas do Árctico, a Corrente do Golfo desaparecerá devido ao equilíbrio resultante no conteúdo salino e na temperatura da água do Golfo e do Atlântico Norte. A eliminação ou redução da circulação do fundo do oceano causaria uma brusca alteração climática na Grã-Bretanha e na Europa Ocidental, com verões mais curtos e invernos muito frios, um clima semelhante ao de Moscovo, que não é muito mais a norte que Manchester, embora a tendência global mundial seja para um clima mais quente. Alterações semelhantes também causariam destruição na agricultura, para não falar na vida quotidiana das pessoas, noutras partes do globo.

Os tsunamis de hidratos gasosos são um fenómeno ainda mais perigoso – talvez aquele que mais preocupa os cientistas. Os hidratos gasosos são gases (dióxido de carbono e sobretudo metano, mais comum) aprisionados sob a forma de gelo no fundo de mares e lagos. Há 10 bilhões (milhões de milhões) de toneladas de hidratos gasosos armazenadas por baixo da Terra, em comparação com os apenas 180 mil milhões de toneladas de dióxido de carbono na atmosfera. Há indícios claros de que, no passado, violentas libertações de hidratos gasosos causaram enormes baixas das placas continentais, desencadeando assim tsunamis. Há cerca de 8000 anos, um tsunami de 15 metros destruiu muitas aldeias no litoral escocês.

Que fazer?

Como tem sido revelado pela investigação científica, sobretudo durante os últimos 30 a 40 anos, o futuro da Terra está em perigo se os seres humanos mantiverem o actual estado das coisas. Porém, apesar dos possíveis resultados graves da actividade humana dos últimos 150 anos, como disse Mark Maslan, do Centro de Investigação das Alterações Ambientais do Departamento de Geografia da University College de Londres, o aquecimento global não é necessariamente o “fim do mundo”.

Embora o aquecimento global seja um problema multidimensional que desafia a própria existência da civilização humana, há ao mesmo tempo soluções multifacetadas que poderiam ser efectivas se tivessem por trás de si a vontade, a criatividade e a força organizada de milhares de milhões de pessoas. É verdade que alguns elementos que contribuem para o aquecimento global, como os gases de estufa que permanecem muito tempo na atmosfera, continuariam a ter efeitos adversos no ambiente durante décadas, mesmo que de imediato sejam dados passos para eliminar novas emissões. Alguns causaram mesmo danos irreversíveis – por exemplo, os glaciares do Antárctico e partes das placas de gelo da Gronelândia já derretidos estão perdidos, se não para sempre, pelo menos até a próxima idade do gelo. A biodiversidade está muito ameaçada. Mas assumir uma atitude fatalista seria tão nocivo como ignorar o problema e esperar que o desastre aconteça.

Soluções técnicas e o desenvolvimento de políticas amigas do ambiente estão ao alcance da humanidade – como diminuir a quantidade de gases de estufa produzidos e sobretudo reduzir e finalmente eliminar completamente as emissões de dióxido de carbono, tal como se eliminaram os gases fluoretos usados na indústria e nos produtos domésticos. Porque é que não estão a ser aplicados grandes recursos na investigação e no desenvolvimento de fontes limpas de energias renováveis como a solar, a eólica e a hídrica? Mesmo uma adaptação relativamente simples das actuais centrais de energia a carvão, a pior fonte de gases de estufa, poderia cortar imediatamente para quase metade as suas emissões de dióxido de carbono.

Um problema é que o que se pode e o que não se pode fazer hoje dependem de como qualquer solução encaixe num sistema imperialista global baseado no lucro. Por causa da competição entre os vários capitalistas, a lei básica é expandir ou morrer. Fazer lucros instantâneos independentemente das suas consequências – independentemente do custo para os seres humanos e o ambiente – é a forma fundamental de o capitalismo operar. O custo envolvido na resolução dos problemas e a necessidade imediata de lucro colocam gigantescos obstáculos à forma de implementação de soluções de longo prazo.

Nenhuma empresa, nem em última análise nenhum país capitalista, quer dedicar vastos recursos a algo cujo custo reduziria a rentabilidade global, para lidar com um problema que acaba de assomar no horizonte. É verdade que os países, e sobretudo os países imperialistas controlados por um punhado de capitalistas monopolistas, gastam uma enorme quantidade de dinheiro em actividades improdutivas como o armamento e a guerra, mas isso é-lhe imposto pela competição entre si e pela esperança de conquistarem (ou perderem) vantagem competitiva em relação a outros grupos de capitalistas. A forma como países como os EUA vêem isto é a de que um enorme investimento para lidar com o aquecimento global apenas atrasaria as suas economias em relação à competição – os outros países imperialistas. Isto, por sua vez, é uma razão para que os outros países imperialistas não queiram agir a menos que os EUA o façam e por que eles estão dispostos a aceitar a inacção dos EUA como desculpa para a sua própria passividade.

Os seguintes diagramas do IPCC descrevem a correlação entre as emissões de dióxido de carbono e a produção económica (PIB, Produto Interno Bruto) dos EUA, da ex-União Soviética (um país imperialista de facto desde os anos 50, muito antes de se desmoronar) e do Japão.

É por isso que mesmo um acordo imperfeito como o Protocolo de Quioto, o qual define apenas uma redução em 8% das emissões de gases de estufa, para os fazer regressar ao seu nível de 1990 em 2012, e que até agora não foi implementado, tenha sido rejeitado e sabotado pelos EUA e tido uma fraca adesão, para dizer o mínimo, da União Europeia.

Isto revela uma segunda razão para não ter sido feito mais em relação ao aquecimento global e para alguns governos – como o governo Bush – terem tentado negar a existência do problema. Em primeiro lugar, o capital está baseado em estados-nação e, em segundo lugar, o mundo está dividido em países imperialistas e nos países do chamado terceiro mundo que eles pilham. Se esta situação for aceite como necessariamente eterna, isto é um obstáculo fundamental a sequer se conseguir pensar em resolver correctamente um problema global.

Por exemplo, os EUA dizem que não se comprometerão a reduzir as emissões de gases a menos que os países do terceiro mundo também o façam. Outros países imperialistas seguiram-nos, usando a falta de vontade de países como a China, a Índia e o Brasil em chegarem a um acordo como outra desculpa para a sua própria recusa em tomarem medidas mais sérias. Isto é hipócrita por duas razões. A primeira, obviamente, é que os EUA têm sido sem dúvida os maiores poluidores do mundo, seguidos pelos outros países imperialistas, sobretudo tendo em conta o seu papel na forma como o mundo chegou a esta confusão durante o último século e meio. Mas a segunda e talvez mais importante razão é a esta: a enorme deslocação das indústrias mundiais para os países do terceiro mundo, com a China à frente deles, não foi devida a um desenvolvimento das economias desses países que tenha beneficiado os seus povos. Em nenhum outro lugar isto é mais óbvio que na China onde, desde que restaurou o capitalismo após o golpe de estado reaccionário que se seguiu à morte de Mao Tsétung, o “desenvolvimento” do país o transformou na maior fonte de mão-de-obra barata do mundo. Dezenas de milhões de proletários chineses trabalham 12 e mesmo 16 horas por dia, sete dias por semana, com salários de miséria, a fabricar produtos para os mercados japonês, norte-americano e europeu e gerando enormes lucros para os capitalistas baseados nesses países. É o capital financeiro imperialista que impõe o vertiginoso desenvolvimento industrial da China, sem respeito pelo bem-estar dos habitantes do país e do mundo. Isto tem contribuído enormemente para deslocar a poluição do Ocidente para o Oriente e do Norte para Sul. O problema da poluição industrial no terceiro mundo não está só nesses países mas está mesmo mais em toda a actual rede mundial de relações capitalistas que precisam de ser eliminadas e exterminadas para se salvar o planeta.

Isto leva-nos ao terceiro aspecto desta situação: enfrentar este tipo de catástrofe potencial requererá a experiência, as ideias, a criatividade, o esforço e por vezes o sacrifício de todos os milhares de milhões de seres humanos em todo o mundo. Ninguém consegue defender que isso seja sequer concebível com o actual sistema económico, social e político global.

O desenvolvimento e os gases de estufa não têm que ser sinónimos. Muitos cientistas e activistas ambientais têm explorado o conceito de desenvolvimento sustentável – uma economia que consegue satisfazer as crescentes necessidades humanas sem destruir o planeta em que vivemos. Se a sociedade – eventualmente toda a sociedade humana em todo o planeta – não for gerida segundo os princípios do capitalismo mas sim os do socialismo, porque é que uma economia planeada, em o que os objectivos mais elevados sejam a emancipação e o bem-estar da humanidade e o seu ambiente, não pode criar uma economia que sirva esses fins? Porque é que a humanidade tem que continuar a aguentar o desperdício e a destruição impostos pelo capitalismo? E o que é que impede essa sociedade de dedicar os recursos necessários a evitar ou pelo menos a minorar o impacto das catástrofes naturais?

Na época em que o capitalismo começou a colocar a humanidade no caminho do risco do aquecimento global que hoje enfrentamos, Karl Marx e Friedrich Engels escreveram no Manifesto Comunista: “As relações burguesas de propriedade, toda esta sociedade burguesa moderna que fez surgir tão poderosos meios de produção e de troca, assemelha-se ao mago que já não é capaz de dominar os poderes infernais que convocou com os seus feitiços.”

A Natureza pode criar catástrofes previsíveis e imprevisíveis de todas as magnitudes e a todos os níveis no decurso da interacção humana com a Natureza. Os desastres afectam as sociedades socialistas tanto como o fazem com as sociedades capitalistas. Alguns podem ser devidos às forças destrutivas da natureza; outros podem ser causados pela actividade humana. Porém, a sociedade socialista pode restringir ou lidar melhor que o capitalismo com o impacto dos desastres. É certo que as futuras sociedades socialistas enfrentarão desafios ambientais muito sérios. Mas as decisões conscientes tomadas colectivamente ao nível da sociedade, e tão cedo quanto possível a nível global, em vez de decisões tomadas atrás das portas fechadas das salas de reuniões das multinacionais por um punhado de burocratas capitalistas, serão muito mais efectivas na minimização e no combate às calamidades naturais. Os recentes acontecimentos, como o Furacão Katrina e o Furacão Rita que atingiram o coração dos estados norte-americanos no Golfo, são um caso a salientar. O sistema capitalista norte-americano encabeçado pela burocracia capitalista estatal e a máquina de guerra mais poderosa do mundo não conseguiram tomar as mais elementares precauções que poderiam ter reduzido enormemente o sofrimento humano. Pior, quando as massas de pobres de Nova Orleães e de outros lugares tentaram enfrentar colectivamente a situação, o estado, em vez de ajudar, enviou a polícia e a Guarda Nacional para lhes apontarem as armas e transformarem uma catástrofe natural num crime de enormes proporções. Como pode alguém negar que um sistema social baseado nas necessidades dos povos do mundo possa fazer muito melhor que isso logo desde o início?

Há cento e cinquenta anos, Karl Marx escreveu em O Capital: “Do ponto de vista das mais elevadas formas económicas da sociedade [o socialismo e o comunismo], a propriedade privada do globo por alguns indivíduos surgirá como tão totalmente absurda quanto a propriedade privada de um homem por outro. Mesmo uma sociedade no seu todo, uma nação, ou mesmo todas as sociedades existentes tomadas em conjunto, não são donas do globo. São apenas os seus possuidores... têm que o entregar à geração seguinte em melhores condições.”

Em suma, embora tenhamos que levar a cabo todas as batalhas possíveis para forçarmos as empresas e sobretudo os governos a implementarem medidas que possam fazer a diferença, nada senão fazer a revolução em todos os países quando surgir essa oportunidade, derrubando o sistema imperialista global, pode fazer com que, de uma forma completa, a energia da humanidade enfrente este problema. A magnitude do aquecimento global atravessa todos os limites geográficos, nacionais, culturais e sociais e a sua solução está numa radical ruptura política e social com o mundo tal como ele está organizado agora.

O desafio é grande, mas também o é a força potencial dos 6 mil milhões de pessoas cujo futuro está em jogo. Nós, as massas populares da Terra, temos que avançar na eliminação desta loucura imperialista e da sua desnecessária destruição do ambiente e na criação de um novo mundo livre da exploração e opressão e da irreflectida destruição do ambiente que é o seu resultado.

(Parte 1: Furacões, alterações climáticas e aquecimento global)