Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 21 de Novembro de 2005, aworldtowinns.co.uk

Aquecimento global, Parte 1:
Furacões, alterações climáticas e aquecimento global

Embora o governo norte-americano continue a insistir em que não há aquecimento global, a maioria dos cientistas está convencida do contrário. Alguns investigadores dizem que o aquecimento global foi um importante factor na mortífera série de furacões (nome dado às violentas tempestades tropicais ou ciclones que atingem a América) que recentemente devastou as Caraíbas, a América Central e os EUA. Qual a ligação entre aquecimento global e tempestades tropicais? Quais as causas do aquecimento global? Até que ponto é o aquecimento global causado pela actividade humana e o que é que se pode fazer em relação a isso? O seguinte artigo em duas partes analisa estas questões.

A revista científica internacional Nature noticiou que os possíveis vínculos entre a formação de furacões e o aquecimento global são um tema controverso na política climática. A profundidade da divisão entre apoiantes e cépticos já era visível em Janeiro, quando o meteorologista norte-americano Chris Landsea se demitiu do Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC na sigla em inglês) – uma organização que trabalha com o Programa Ambiental das Nações Unidas. Landsea estava a protestar contra as declarações do seu colega de painel Kevin Trenberth que, numa conferência de imprensa, tinha argumentado que havia um vínculo entre o aquecimento global e os temporais.

A Nature escreveu: “O ponto de vista de Trenberth é apoiado pela mais recente e sólida análise da destruição provocada pelos furacões dos últimos 30 anos, feita pelo principal investigador norte-americano de furacões, Kerry Emanuel, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), de Cambridge, Massachusetts.” Emanuel tinha concluído que “um futuro aquecimento pode conduzir a uma maior tendência do potencial destrutivo dos ciclones tropicais e... a um aumento significativo dos prejuízos relacionados com furacões no Século XXI.”

Muito antes do Furacão Katrina, o IPCC tinha declarado no seu relatório de avaliação de 2001: “Há alguns indícios de que a frequência regional dos ciclones tropicais pode mudar... Também há indícios de que a intensidade máxima pode aumentar entre 5% a 10% e a taxa de precipitação [chuva] pode aumentar entre 20% a 30%. É necessário muito mais trabalho nesta área para se obter resultados mais robustos.” Em Agosto de 2005, o Golfo do México estava uns surpreendentes 2 a 3°C mais quente do que era normal nessa altura do ano. Os furacões são alimentados pela energia que retiram da água aquecida. O Katrina extraiu tanto calor do Golfo que as temperaturas da água caíram dramaticamente após a tempestade, nalgumas regiões entre 26 a 30°C.

Julian Heming, perito em furacões no Gabinete Met de Exeter, Grã-Bretanha, disse que era necessário um registo de longo prazo para se estabelecer um vínculo firme entre o aquecimento global e os furacões mais poderosos. Ele disse: “Eu diria que este artigo confirma a visão amplamente assumida na comunidade científica de que embora o aquecimento global possa não estar a ter nenhum impacto na frequência dos ciclones tropicais ou mesmo na percentagem dos que atingem a dimensão de furacões, pode ter um impacto na pequena percentagem de ciclones tropicais que atingem a dimensão mais elevada (categorias 4 e 5).” Era esta a dimensão do Katrina.

Embora o vínculo entre o aquecimento global e os furacões esteja a emergir como um novo tema controverso entre os cientistas e seja necessária muito mais investigação nessa área, a maioria dos cientistas, de uma forma ou de outra, concorda com certos factos sobre as alterações climáticas e o aquecimento global que surgiram até agora.

Alterações climáticas naturais

A atmosfera da Terra mudou dramaticamente desde que o planeta se formou há 4,5 mil milhões de anos. À medida que os cientistas aprendem mais sobre a atmosfera, eles apercebem-se que as alterações climáticas não são um fenómeno com uma só dimensão, de uma só vez. Os principais acontecimentos geológicos moldaram a atmosfera àquela em que hoje vivemos. A crosta terrestre começou a solidificar-se há cerca de 4 mil milhões de anos. Há cerca de 3,5 mil milhões de anos, a Terra começou a ser habitada por diversos organismos, primeiro sob a forma de seres unicelulares primitivos, tendo alguns deles depois evoluído para organismos multicelulares. Estas e outras formas de vida representaram um papel dinâmico na alteração da atmosfera e da Terra como um todo.

Uma revolução de oxigénio começou há cerca de 2,5 mil milhões de anos. Os primitivos organismos unicelulares usavam a energia do Sol para separarem as moléculas da água (fotossíntese), produzindo os nutrientes de que necessitavam e libertando oxigénio como derivado. Essa libertação de oxigénio alterou profundamente a atmosfera da Terra. Tornou possível a evolução de organismos aeróbios [que respiram ar] para outras formas de microrganismos, plantas e mais tarde animais – que usam o oxigénio para extrair energia dos alimentos. Não foi de todo uma adaptação fácil ou rápida. O processo decorreu durante os quase 2 mil milhões de anos em que os organismos unicelulares primitivos tiveram a Terra toda para si. Depois disso, a interacção entre as plantas que consomem dióxido de carbono e os animais que consomem oxigénio e emitem dióxido de carbono passou a fazer parte do que manteve esses dois gases em equilíbrio durante milhões de anos.

Outro acontecimento que alterou dramaticamente o clima foi a movimentação de massas terrestres conhecidas como Pangeia. Há cerca de 250 milhões de anos, o solo da Terra, que antes constituía uma massa única, começou a dividir-se nas massas de terra setentrional (Laurasia) e meridional (Gondwana). Posteriormente, a deriva continental viria a separar as massas de terra nos actuais continentes. A Índia colidiu com a Eurásia há cerca de 10 milhões de anos, formando os Himalaias, a cordilheira de montanhas da Terra mais elevada e mais recente. Essas montanhas alteraram drasticamente a atmosfera da Terra, capturando a humidade e agindo como barreira contra os ventos que sopram de um continente para outro.

Além disso, forças externas influenciaram enormemente a atmosfera e o planeta. Há cerca de 65 milhões de anos, um asteróide ou um cometa atingiu o que é hoje o Mar das Caraíbas, perto da Península do Iucatão, no México, criando uma enorme cratera em forma de ferradura. O impacto e os seus efeitos imediatos mataram a maioria das plantas e animais da América do Norte em poucos minutos. Uma nuvem de vapor quente e detritos bloqueou os raios do Sol e alterou radicalmente a atmosfera da Terra. Isso causou a extinção de animais e plantas em todo o globo. O seu impacto pode ter sido parte de uma série de eventos que, nessa altura, contribuíram para uma tendência de arrefecimento global.

A história da Terra tem sido marcada por períodos alternados de frio relativo, em que a maior parte dos hemisférios norte e sul ficava coberto por glaciares, e períodos relativamente mais quentes em que esses glaciares recuavam para os pólos. O actual período interglacial, chamado Holocénico, começou há cerca de 10 mil anos e é um exemplo das raras condições de aquecimento que ocorrem entre cada idade do gelo. Em menos de 4000 anos, a temperatura global aumentou 6 ºC, o nível do mar subiu 120 metros, a quantidade de carbono na atmosfera aumentou em um terço e o metano atmosférico duplicou. À medida que a Terra aquecia, em resposta a essa alteração das condições climáticas, os seres humanos começaram a domesticar animais e a praticar a agricultura. Também surgiram as primeiras propriedades privadas e a exploração do homem pelo homem e a sociedade foi dividida em classes com interesses opostos. A humanidade viria a tornar-se num agente das alterações climáticas, de uma forma que a Terra nunca tinha visto em 4,5 mil milhões de anos. Posteriormente, com a ascensão do capitalismo e a expansão explosiva da indústria que ele provocou por volta do início do século XIX, os seres humanos começaram a alterar o seu ambiente ainda mais rápida e dramaticamente.

Alterações climáticas criadas pelo homem

Os “gases de efeito de estufa” são gases que aprisionam o calor do Sol de uma forma semelhante ao efeito dos vidros de uma estufa. Esses gases deixam a radiação solar entrar na atmosfera terrestre e depois absorvem o calor reflectido pela Terra. Alguns desses gases existem na natureza, como o vapor de água, o metano (produzido na decomposição de plantas e animais e na flatulência animal) e o dióxido de carbono. O dióxido de carbono é um derivado da combustão de substâncias com carbono – árvores e combustíveis fósseis como o carvão, o petróleo e o gás. O metano, 20 vezes mais eficiente que o dióxido de carbono a aprisionar o calor do Sol, também é produzido na agricultura, nas minas e na indústria. A proporção desses gases na atmosfera aumentou em cerca de 25% durante os últimos 150 anos. Além disso, houve uma crescente presença de outro tipo de gases de estufa na atmosfera, gases exclusivamente artificiais como os usados nos sprays com aerossóis. Ao mesmo tempo, o abate de florestas e outras alterações da utilização dos solos estrangularam os processos naturais com que as árvores e outras plantas removem o dióxido de carbono da atmosfera.

Além dos estudos sobre a atmosfera terrestre, outros factos da astrofísica também sugerem que a temperatura atmosférica está directamente relacionada com a concentração de dióxido de carbono. Por exemplo, o planeta Marte é muito pequeno, pelo que a sua gravidade é demasiado pequena para reter uma atmosfera densa. A atmosfera marciana é cerca de cem vezes menos densa que a da Terra. Porque o pouco dióxido de carbono que há em Marte está congelado no solo, a temperatura média à superfície de Marte é cerca de -50 ºC. Em contraste, Vénus tem quase a mesma massa que a Terra mas uma atmosfera muito mais densa composta por 96% de dióxido de carbono. Esta elevada percentagem de dióxido de carbono produz um intenso aquecimento global e por isso Vénus tem uma temperatura à superfície superior a +460 ºC.

A seguinte tabela, extraída dos relatórios do IPCC, lista quatro dos sete gases de estufa que ainda estão em uso e que mais contribuem para as alterações climáticas. A concentração destas substâncias químicas associadas à moderna actividade humana aumentou consideravelmente na atmosfera desde os tempos pré-industriais e muito mais nitidamente durante as últimas décadas.

  Fórmula Química Concentração Pré-Industrial Concentração em 1994 Aumento em Percentagem Fonte Humana
Dióxido de Carbono CO2 278 partes por milhão (ppm) 358 ppm 30% Queima de combustíveis fósseis.
Alterações do uso dos solos.
Produção de cimento.
Metano CH4 700 partes por bilhão (ppb) (*) 1721 ppb 240% Queima de combustíveis fósseis.
Arrozais.
Aterros sanitários.
Óxido de Azoto N2O 275 ppb 811 ppb 15% Fertilizantes.
Processos industriais.
Queima de combustíveis fósseis.
Hexafluoreto de Enxofre SF6 0
Não existe na natureza e é produzido artificialmente
0,032 ppb   Fluidos dieléctricos

(*) Na tabela, um bilhão refere-se a mil milhões.

O seguinte diagrama também mostra o aumento da concentração desses gases desde a revolução industrial:

Os gases de estufa não são o único factor do aquecimento global. Como se disse antes, a Terra passou por períodos de aquecimento e arrefecimento muito tempo antes de a humanidade produzir gases de estufa suficientes para terem um grande impacto e mesmo nos últimos 150 anos houve ciclos de temperaturas mais quentes e mais frias. A relação entre os gases de estufa e outros factores ainda é objecto de estudo. Mas a investigação feita até agora levou a maioria dos cientistas a concluir que a energia solar aprisionada pelos gases de estufa está a representar o principal papel no rápido aumento da temperatura da Terra que hoje se observa.

(Continua na Parte 2: Quão perigoso é? O que podemos fazer em relação a isso?)