A Turquia enfrenta as consequências não intencionais da sua intromissão regional

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 24 de Setembro de 2012, aworldtowinns.co.uk

A Turquia está a desempenhar um papel central na campanha liderada pelos EUA para derrubar Bashar al-Assad. Agora, está a confrontar-se com a possibilidade de, em vez de fortalecer a influência da Turquia na região, o enfraquecimento do regime sírio poder estar a criar o mais sério desafio que o governo turco liderado pelo primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan enfrentou até agora.

Até recentemente, os dois regimes eram aliados próximos. Um dos pontos de unidade entre o Partido Baathista de Assad e o Partido Justiça e Desenvolvimento (AKP) de Erdogan era a oposição de ambos ao movimento curdo nos dois países. Não só os curdos de ambos os países têm fortes laços históricas, como um número significativo de curdos na Síria provém de famílias que fugiram à repressão na Turquia e o PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão), embora baseado na Turquia, integra muitos curdos nascidos na Síria. Agora, Assad está a “jogar a carta curda”, tentando usar os curdos para ameaçar a Turquia.

O texto que se segue são excertos de um longo artigo do número 60 da Haghighat, a publicação do Partido Comunista do Irão (Marxista-Leninista-Maoista), intitulado “O desenvolvimento da guerra civil na Síria, a possibilidade da sua expansão aos países vizinhos e a perspectiva da formação de um estado do Curdistão”.

A guerra civil entre os dois lados reaccionários na Síria passou por outro ponto decisivo. O regime de Bashar al-Assad retirou as suas tropas de cinco cidades curdas do norte da Síria e deixou o controlo dessa região largamente às forças curdas, sobretudo ao Partido da União Democrática (PYD), uma organização curda síria ligada ao Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), baseado na Turquia.

A Turquia tem ameaçado atacar militarmente a Síria em resposta aos ataques do PKK lançados a partir das zonas curdas da Síria. Em meados de Agosto, a Secretário de Estado norte-americana Hillary Clinton foi à Turquia para reanalisar os possíveis cenários de mudança de regime na Síria. Os responsáveis norte-americanos reafirmaram a importância da Turquia como “parceiro estratégico na região”. Um dos mais importantes pontos de acordo é deixar intactas as instituições chave e o aparelho militar do estado sírio.

A existência e a configuração da Síria, bem como do Líbano, Israel, Jordânia e Iraque, são o resultado da forma como as potências coloniais França e Inglaterra desenharam as fronteiras quando devoraram o desmoronado império otomano depois da I Guerra Mundial. Hoje em dia, subjacente à guerra civil na Síria também está o confronto e a disputa entre grandes potências como os EUA, a Rússia e os países europeus em relação ao Médio Oriente, que estão a lutar pela redivisão do controlo dessa região entre elas – um acontecimento que poderá levar ao redesenho das fronteiras da Síria. A Rússia tem apoiado obstinadamente o regime de Assad de forma a preservar a sua influência no Médio Oriente e o seu estatuto de país poderoso.

A posição dos EUA como superpotência dominante no Médio Oriente e também a actual estabilidade do regime turco dependem do papel deles neste perigoso campo de batalha. No Médio Oriente, os muros estão a ser sacudidos e não devemos assumir que o resultado destes acontecimentos será escrito pelos actuais senhores do Médio Oriente.

A Turquia está presa entre as suas fissuras internas e o seu papel de gendarme regional

A Turquia vê-se a si mesma como arquitecta de uma nova Síria e, em última instância, de um novo Médio Oriente, um papel que lhe foi atribuído pelos EUA. A partir de um campo base erguido perto de Adana, uma cidade da Turquia meridional perto da fronteira síria, o regime turco está a monitorar de perto os desenvolvimentos na Síria e a treinar, militar e politicamente, as forças que se opõem ao regime de Assad conhecidas sob o nome genérico de “Exército Livre da Síria” (ELS). Esse campo fica em Incirlik, onde está instalada uma base aérea dos EUA/NATO/Turquia. O Qatar e a Arábia Saudita também estão activos nesse projecto. A Turquia controla o campo e é o seu principal coordenador e patrocinador.

Ao mesmo tempo, a preocupação da Turquia de que possa não conseguir controlar a situação na Síria não é infundada, devido ao apoio ao regime de Assad por parte de alguns dos mais poderosos países do mundo como a Rússia e países regionalmente fortes como o Irão. As tentativas destes países para sabotarem os planos da Turquia estão a ganhar impulso. Além disso, os grupos jihadistas salafistas têm crescido rapidamente e içado as suas bandeiras negras nas portas e no centro de muitas cidades e vilas. Segundo os relatos noticiosos, os salafistas, com a sua superioridade em armamento e apoio financeiro, têm conseguido colocar-se à frente de um movimento que inclui outras forças islâmicas e laicas.

Os governos norte-americano e turco reconhecem o ELS como único “representante do povo sírio”, mas não têm conseguido trazer as forças salafistas para debaixo do seu comando (International Herald Tribune, 31 de Julho de 2012). Formalmente, o ELS não é um grupo religioso, mas usa um discurso islâmico no seu apelo aos sírios para derrubarem o regime de Assad.

O crescimento do PKK no Curdistão sírio

Um outro factor seriamente desafiador do papel da Turquia no Médio Oriente é o incremento da actividade do PKK nas regiões curdas da Síria. Em Julho e início de Agosto, na sequência da retirada das forças militares de Assad das cidades curdas do norte da Síria, os combatentes e quadros próximos do PKK (o Partido dos Trabalhadores do Curdistão liderado por Abdullah Öcalan) chegaram e assumiram o controlo dessas cidades, içando a bandeira do Curdistão e colocando imagens de Öcalan nas fachadas dos edifícios governamentais. Isto apanhou de surpresa o governo e o partido governamental da Turquia e deixou-o muito nervoso. Por outro lado, o povo curdo da Turquia saiu às ruas para celebrar isto como uma vitória. Corre o rumor de que possa vir a ser declarada uma república autónoma curda no norte da Síria.

A imprensa turca escreveu que “na ausência das forças de Assad, o PKK aproveitou e tem preenchido o vazio de poder”. Diz-se que Assad retirou as suas forças de segurança e militares com base num acordo entre o governo sírio e o PKK para que o Partido da União Democrática (PYD) fosse autorizado a assumir o controlo dessas cidades. [Ver também o relatório n.º 219 do Grupo Internacional de Crise, www.crisisgroup.org, 11 de Setembro de 2012.]

Ao mesmo tempo, as forças do PYD também conseguiram chegar a acordo com Massoud Barzani (o líder do Governo Regional Curdo do norte do Iraque) e, em unidade com o Conselho Nacional Curdo (CNC), formaram uma organização chamada “Conselho Supremo dos Curdos” que assumiu o controlo das cidades curdas da Síria. O regime turco ficou enfurecido por esta unidade entre o Conselho Nacional Curdo e o PYD, contra a qual tinha avisado antecipadamente.

Um jornal turco escreveu que “os representantes do PYD apressaram-se a reunir em Erbil com o líder do Governo Regional Curdo (GRC) do norte do Iraque, Massoud Barzani, e concordaram em governar a região curda da Síria em associação com o CNC pró-Barzani. O acordo de Erbil assinado a 11 de Junho entre o CNC e o Conselho do Curdistão Ocidental [o Curdistão iraquiano] formou uma liderança conjunta para governar as cidades sírias tomadas pelo PYD.”

“Assim que o acordo foi assinado e antes de o governo de coligação ter sido formado e de forças pró-CNC treinadas por Barzani terem chegado ao norte da Síria, os apoiantes do PYD tomaram a iniciativa e, ao abrigo de um anterior acordo com o regime sírio, assumiram o controlo da zona. Agora, o governo do PYD está completamente estabelecido e as bandeiras do PKK e os retratos de Abdullah Öcalan estão espalhados por todos os edifícios governamentais.” (Today's Zaman, 31 de Julho de 2012)

Em reacção a estes acontecimentos, a Turquia ameaçou enviar o seu exército para o Curdistão sírio. Para criar uma opinião pública favorável, o primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdogan acusou o PKK de cooperar com Bashar al-Assad na invasão do Curdistão sírio. Ao mesmo tempo, o PKK tem incrementado as suas actividades militares na região de Hakari, no sudeste da Turquia. Esta situação tem aumentado a pressão política interna sobre o regime de Tayyip Erdogan. Mesmo os que criticavam Erdogan pelo “reconhecimento” que ele fez dos direitos curdos estão agora a criticá-lo por não estar a seguir com seriedade o plano para um compromisso entre o regime e o PKK.

Numa palavra, a intensificação da guerra civil na Síria ampliou repentina e enormemente o papel das forças curdas no desenvolvimento dos acontecimentos na região.

O grande jogo e a “carta curda”

O que fez do Curdistão um tema chave na guerra civil síria é a perspectiva da formação de um estado curdo na região. Segundo alguns analistas do Médio Oriente, isto poderá representar um papel central no redesenho das actuais fronteiras do Médio Oriente. Independentemente das suas intenções, a Turquia abriu caminho ao surgimento desta situação. De facto, é em relação a estes desenvolvimentos que devemos considerar os seguintes acontecimentos:

O primeiro acontecimento foi a tomada das cidades curdas do norte da Síria pelas forças curdas, tal como acima detalhada. O segundo foi a deslocação de grandes companhias petrolíferas como as norte-americanas Exxon- Mobile e Chevron, a francesa Total e a russa Gazprom dos campos petrolíferos do sul do Iraque para os campos petrolíferos sob controlo do Governo Regional Curdo e a assinatura de novos contratos com este governo, independentemente do governo central iraquiano. O terceiro foi o reinício das grandes operações do PKK na cidade de Shamdinly, na província turca de Hakari que faz fronteira com o Irão e o Iraque, elevando a guerra entre o PKK e o governo turco a um novo nível de intensidade.

Em relação ao primeiro acontecimento: tinha havido anteriormente especulação na imprensa do Médio Oriente de que Bashar al-Assad poderia retirar-se para as montanhas de Nasiriyah e formar um pequeno estado cujo apoio central viria dos alawitas e outras etnias minoritárias, enquanto as forças do ELS apoiadas pela Turquia e pela NATO formariam um estado sunita. Mas não havia nenhuma menção a um “mini-estado curdo” na Síria até o PYD ter tomado o controlo das cidades curdas do norte da Síria. Em reacção a este acontecimento, Erdogan declarou que a Turquia não toleraria a presença de “forças terroristas” nas suas fronteiras e proclamou que isso era uma “linha vermelha”. Depois deste incidente, os EUA anunciaram a sua forte oposição à desintegração da Síria – embora os EUA e a Turquia estejam a intervir na justa luta do povo sírio para a transformarem deliberadamente numa guerra civil religiosa e étnica.

Depois deste acontecimento, a Turquia advertiu o Governo Regional Curdo do Iraque (com o qual se tinha aliado) de que não aceitaria os actos já ocorridos e que não toleraria a formação de um estado curdo junto às suas fronteiras. A Turquia pediu a Barzani que ajudasse a eliminar as forças do PKK do Curdistão iraquiano e sírio. O ministro turco dos negócios estrangeiros Ahmet Davutoglu viajou de imediato a Erbil para falar com Barzani. Durante essa visita, Barzani, que normalmente aparece com um fato ocidental quando se reúne com visitantes estrangeiros, dessa vez apareceu em roupa tradicional curda.

De seguida, Davutoglu foi visitar o governador turcomano de Kirkuk (uma das maiores cidades do Curdistão iraquiano em que um terço da população é turcomana e não curda). A mensagem de Davutoglu foi de que a Turquia usaria a sua influência no Curdistão iraquiano para destabilizar o Governo Regional Curdo.

Em relação ao segundo acontecimento: grandes companhias petrolíferas como a Exxon-Mobil (a maior companhia petrolífera privada do mundo) assinaram seis contratos de exploração de petróleo com o Governo Regional Curdo do Iraque. A seguir a isso, em Julho passado, a segunda maior companhia petrolífera norte-americana, a Chevron, assumiu o controlo de 80 por cento de dois campos petrolíferos. Em Agosto, a companhia petrolífera francesa Total e a russa Neft (cujo proprietário é a Gazprom) também assinaram importantes contratos petrolíferos com o GRC. Um jornal turco escreveu que “quatro companhias petrolíferas que estão entre as dez maiores do mundo instalaram-se em Erbil” (Today's Zaman, 6 de Agosto de 2012).

O GRC tem estado há muito tempo a tentar abrir caminho à independência. A Turquia já tinha começado a comprar-lhe petróleo directamente, ultrapassando o governo central iraquiano. A companhia petrolífera Genel Enerji, baseada na Turquia e propriedade sobretudo de accionistas turcos, começou a trabalhar com o GRC na exploração e bombeamento do petróleo dos campos estabelecidos no Curdistão iraquiano. Segundo alguns observadores e analistas políticos, este foi o primeiro passo de um processo que visava converter a agora região autónoma curda do Iraque num país separado. (Ver “O Apoio Inconsciente do Grande Petróleo ao Estado Curdo”,por Marin Katusa em www.caseyresearch.com.)

Nos últimos anos, o governo da Turquia tem ultrapassado repetidamente o governo central do Iraque e estabelecido relações económicas, políticas, de segurança e militares directas com o GRC, de tal forma que a Turquia se tornou na maior potência económica estrangeira no Curdistão iraquiano. Ao mesmo tempo, a Turquia diminuiu a sua oposição à formação de qualquer estado curdo independente.

Mas, apesar da confiança do AKP na fiabilidade do GRC, os desenvolvimentos na Síria alteraram toda a equação. O controlo da região curda síria por forças curdas significaria uma outra região autónoma curda junto às fronteiras da Turquia. Numa só semana, a extensão das fronteiras da Turquia com zonas controladas pelos curdos passou de 400 para 1200 quilómetros. O potencial para a criação de um grande estado curdo com enormes receitas de petróleo mesma na fronteira da Turquia, juntamente com a possibilidade da formação de um estado do Grande Curdistão, mostra a enorme pressão sobre a estrutura política e económica do estado turco. Desde a fundação da República da Turquia por Kemal Ataturk que a opressão da nação curda tem sido um dos seus pilares.

Nos últimos dez anos, a burguesia turca tem tentado criar uma atmosfera que permita à burguesia curda partilhar parcialmente o poder político e permitiu algumas reformas na esfera da cultura e da língua de forma a atenuar a contradição entre as massas populares curdas e o governo. Mas esta contradição continua em acção e a burguesia curda não está satisfeita com o que lhe foi atribuído.

Em relação ao terceiro acontecimento: as forças do PKK encontraram uma oportunidade para intensificarem a sua luta armada contra o regime turco. Nos últimos anos, a política do PKK tem sido negociar com o governo do AKP. Durante algum tempo, apelou a um cessar-fogo e participou nas eleições municipais e parlamentares através dos seus partidos legais. Durante o mesmo período, a Turquia prendeu cerca de seis mil activistas do PKK que estavam a trabalhar com organizações legais como o Partido Paz e Justiça. Entre esses presos estavam presidentes de câmaras e membros do parlamento. Muitos dos presos são membros da organização municipal do PKK chamada União das Comunidades do Curdistão, a qual tem influência na gestão municipal, incluindo a recolha de imposto e os tribunais.

Embora o PKK tenha uma extensa base de massas e se chame Partido dos Trabalhadores do Curdistão, na realidade representa a burguesia curda porque exprime a perspectiva e o programa dessa classe. O líder deste partido, Öcalan, tem enfatizado repetidamente que o objectivo do PKK não é debilitar a Turquia mas sim restabelecer o poder do império otomano, acrescentando que a Turquia não conseguirá obter isso sem a unidade com os curdos (o que realmente significa a unidade das burguesias turca e curda). A posição do PKK sobre as questões do Médio Oriente é apoiar os projectos dos EUA. Considera-se parte de um eixo de amigos dos EUA. Claro que o regime de Erdogan se vê como a cabeça desse eixo. Depois de Öcalan ter sido encarcerado em 1999, ele exprimiu repetidamente estes pontos de vista nos artigos mensais que costumava escrever da prisão e que eram publicados na imprensa turca. É de salientar que ele deixou de escrever esses artigos nos últimos meses, que corre o rumor de que foi transferido para prisão domiciliária e que o governo está a negociar com ele.

Embora a economia turca tenha tido algum êxito segundo os padrões actuais, com o surgimento de uma classe média abastada, e o regime do AKP seja apresentado como um modelo para os outros países do Médio Oriente, a sua estrutura interna é vulnerável. O seu papel como gendarme regional dos imperialistas está a exercer uma pressão cada vez maior sobre essa estrutura e esse regime dito estável poderá vir a enfrentar crises de legitimidade ou mesmo revolucionárias. As mudanças na estrutura da classe da grande burguesia da Turquia ainda não se reflectiram inteiramente na esfera política. É verdade que a burguesia curda tem beneficiado economicamente e que tem o controlo de parte da economia interna, mas espera que obtendo um estado independente ou uma autonomia possa ser admitida no clube das grandes burguesias do Médio Oriente. Todas estas forças estão em luta política e militar entre si.

Agora, os fazedores de política e os analistas dos regimes reaccionários da região e das potências imperialistas estão a resmungar que Assad está a jogar a “carta curda”. Mas a questão aqui para nós é esta: Que oportunidades nos apresenta a situação no Curdistão? Será que os comunistas e os intelectuais revolucionários curdos irão erguer uma voz internacionalista e revolucionária contra todo o jogo em que os curdos são uma “carta” a ser jogada? O predomínio da liderança burguesa na luta do povo curdo não tem obtido e não obterá nada melhor do que o que vimos com o GRC no Iraque.

A ordem mundial está em grande tumulto e isso é excelente!

A intensificação das contradições do sistema capitalista tem aberto caminho às lutas e revoltas do povo contra o imperialismo e as estruturas políticas dependentes do imperialismo (os regimes dos países oprimidos). Porém, sem comunistas revolucionários que liderem o proletariado e os povos oprimidos com o objectivo da tomada do poder político e do estabelecimento de novas sociedades socialistas, estas revoltas não podem transformar-se em insurreições revolucionárias que ameacem a existência do sistema capitalista. A “Primavera Árabe” é um reflexo desta situação. As potências imperialistas e as classes reaccionárias locais estão a fazer tudo o que podem para canalizarem estas revoltas ao serviço dos seus interesses.