A propósito de uma certa participação eleitoral

Por I. Morais

Não tem sido nosso hábito comentar os pequenos episódios das eleições para as instituições da burguesia. E esta foi cheia de múltiplos episódios que atestam o descalabro da burguesia ainda impotente para impor a sua saída para a grave crise que atravessa.

Mas a acumulação de episódios vindos dos lados de uma suposta vanguarda maoista em Portugal, levou-nos a escrever esta breve nota. Esse grupo, cuja única actividade na sociedade se resume à participação nas campanhas eleitorais, reapareceu agora uma vez mais. E trouxe os amigos. Não os amigos da Revolução, não os elementos do povo que se destacam nas lutas das fábricas e das empresas ou os estudantes avançados. Não, quem eles trouxeram foram alguns velhos monárquicos e... Freitas do Amaral. Esqueçamos por agora, os velhos e reaccionários monárquicos, defensores de uma sociedade que os portugueses já rejeitaram há um século, que aparecem na campanha eleitoral pela mão desse grupo.

Garcia Pereira, dirigente e a face mais conhecida do PCTP/MRPP, escreveu um livro, “Ousar Lutar, Ousar Vencer, Ousar Sonhar” (é algo curioso o facto de o sonho vir apenas depois da luta e da vitória...). E quem escolheu Garcia Pereira para o prefaciar? Esse grande “aliado” da Revolução que é Freitas do Amaral. A apresentação do livro, no seu lançamento (em plena pré-campanha para assegurar os máximos estragos), esteve a cargo de outro ex-dirigente do PCTP/MRPP, Arnaldo Matos. E assim podemos ver os 3 lado a lado. Dificilmente se poderia ter imaginado, ainda há poucos anos, um tão grande abandono dos princípios, um volta-face tão profundo. Longe vão os tempos em que Arnaldo Matos dizia que “o CDS é inequivocamente um partido fascista, dirigido por fascistas e que serve os interesses fascistas”.

Um outro episódio noticiado pela imprensa foi o início da campanha eleitoral, dois dias depois. Nessas primeiras horas do período de campanha, uma brigada do PCTP/MRPP foi colar cartazes ao lado da sua sede. Garcia Pereira teve a honra de colar o primeiro e fê-lo, frente às câmaras da televisão, não numa parede vazia, mas sobre alguns cartazes que já lá estavam. E não sobre uns cartazes quaisquer, mas escolheu fazê-lo sobre uns cartazes de denúncia de George Bush (reproduzido ao lado)! Também este pequeno episódio tem um imenso significado político.

O PCTP/MRPP e os seus dirigentes desempenharam um importante papel revolucionário no passado e está ainda por fazer a sua história e perceber as raízes da sua degenerescência em partido reaccionário contra as massas. Entretanto registam-se aqui mais estes episódios que testemunham o seu actual estado de completo afastamento da via revolucionária.

16 de Fevereiro de 2005