A “imprensa livre” e as “eleições livres” – Reflexões sobre Murdoch e os amigos

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 25 de Julho de 2011, aworldtowinns.co.uk

Um escândalo tem vindo a acossar todo o sistema político britânico, expondo muita da sujidade e a profundidade da corrupção de uma estrutura de poder frequentemente apontada como exemplo radioso do “mundo livre”. Os esforços continuados da classe dominante britânica para impedir o alastrar deste escândalo constituem mais uma exposição da hediondez deste sistema.

Após mais de cinco anos de suspeitas e acusações, é agora certo que os telefones de muitas centenas e possivelmente mesmo milhares de pessoas (segundo a polícia, cerca de 4000 números de telefone estavam na posse do principal hacker [pirata informático], mas alguns relatos dizem que podem estar envolvidos até 12 000 números) foram “hacked” (i.e, as suas conversas e mensagens foram escutadas ou lidas) para que fossem obtidas e publicadas informações incómodas ou lesivas sobre elas. A maioria delas eram celebridades – políticos, actores e modelos, estrelas do desporto e membros da família real britânica. Algumas eram pessoas comuns que tiveram o infortúnio de terem sido vítimas de crimes violentos e de depois verem a comunicação social banquetear-se sobre a sua miséria.

Até agora, a principal organização apanhada nesta mercantilização do sofrimento humano foi o News of the World [NOTW], um tablóide britânico publicado ao domingo e o jornal de língua Inglesa mais vendido do globo. O NOTW integra o grupo News International, que também inclui o Sun (conhecido pela sua combinação entre pornografia leve e “valores familiares”), o respeitado Times of London dirigido a uma audiência mais abastada e o British Sky Broadcasting (o maior canal pago de televisão da Grã-Bretanha). O News International é, por sua vez, a filial britânica da News Corporation, a segunda maior empresa de comunicação social dos EUA (depois da Disney), dona do canal televisivo Fox e de vários influentes jornais diários norte-americanos, entre os quais o Wall Street Journal. O principal proprietário e presidente da News Corporation é Rupert Murdoch, por vezes chamado de “dono das notícias” devido ao seu poder na comunicação social de todo o mundo, sobretudo nos EUA, Grã-Bretanha, Austrália e sudeste asiático, e que estava agora a tentar expandir o seu negócio no Médio Oriente.

Até agora, o escândalo na Grã-Bretanha já fez cair dois dos mais poderosos responsáveis da polícia do país, o principal dirigente da polícia britânica, Sir Paul Stephenson, chefe da Polícia Metropolitana (Scotland Yard), e o Comissário Adjunto da Polícia Metropolitana John Yates. Levou à demissão e detenção de Andy Coulson, o ex-principal spin doctor [manipulador de informação] do Partido Conservador e porta-voz do primeiro-ministro David Cameron, bem como à demissão e detenção de Rebekah Brooks, chefe executiva do News International, e à detenção e mesmo ao encarceramento de pelo menos dez dos editores e redactores do jornal. Também pôs em risco o lugar de Cameron e o futuro do seu governo de coligação, e pode vir a produzir mais vítimas se a classe dominante não lhe conseguir pôr fim.

Inicialmente, houve poucas indicações de que a detenção do editor do NOTW Clive Goodman e do detective privado Glenn Mulcaire, por aquilo que a polícia declarou ter sido um incidente menor e “isolado”, levaria a uma desgraça tão vasta e profunda para tantos dos líderes e instituições do país.

Goodman e Mulcaire andavam a vasculhar as mensagens telefónicas de conselheiros da família real britânica, à procura de material para mexericos escaldantes (ao contrário de outros países, a lei britânica de difamação torna arriscado que a comunicação social se limite a inventar “notícias”). Eles foram apanhados em Novembro de 2005, quando irritaram a família real por terem noticiado uma lesão no joelho do Príncipe William. Em Janeiro de 2007, Goodman esteve preso durante quatro meses. Mulcaire, depois de se ter declarado culpado de efectivamente ter feito as escutas, foi preso durante seis meses.

O caso continuou a atear-se e depois abrandou. Organizações noticiosas rivais revelaram ter sido encontrada em casa dele uma lista com os nomes de celebridades e outras figuras muito conhecidas cujos telefones Mulcaire tinha escutado – 3000 segundo um artigo de 2009 no Guardian. Pessoas famosas, entre as quais o ex-vice primeiro-ministro trabalhista Lorde John Prescott e a estrela de cinema britânico-americana Sienna Miller, fizeram queixa e/ou processaram-no. Por fim, a polícia confirmou alguns desses casos. A Procuradoria Pública (DPP) recusou-se a ampliar a investigação, apesar de um relatório interno dizer haver um “vasto leque” de vítimas. O chefe da DPP foi depois contratado por Murdoch.

Foi recentemente noticiado pelo The New York Times, o jornal que juntamente com o Guardian acabou por revelar os factos, que durante anos “altos responsáveis da Scotland Yard asseguraram ao Parlamento, a juízes, a advogados, a potenciais vítimas das escutas, à comunicação social e ao público que não havia nenhuma prova de que havia escutas generalizadas feitas pelo tablóide. Eles mantiveram insistentemente que a investigação original, que levou à condenação de um jornalista e um detective privado, tinha posto fim ao que chamaram de incidente isolado.”

Em vez de investigar, a polícia ignorou as provas. Quando o detective Mulcaire foi preso, de casa dele foram retiradas 11 000 páginas de apontamentos que listavam 4000 pessoas cujos telefones ele provavelmente tinha visado, entre os quais políticos de topo e responsáveis da polícia. Foram colocadas em sacos do lixo e abandonadas durante quatro anos num cacifo da polícia, não catalogadas nem separadas, e longe da vista.

O chefe da polícia da Grã-Bretanha na altura era Sir Ian Blair. Blair era o principal responsável da polícia quando esta, confundindo o canalizador brasileiro Jean Charles de Menezes por um árabe após os atentados de Londres em 2005, decidiu abatê-lo quando ele estava sentado numa carruagem do Metro. Em vez de atribuir a investigação à divisão de crimes especiais, Blair entregou-a a unidade de contra-terrorismo. O chefe dessa unidade era o agora demitido Yates. Yates mostrou o seu ímpeto enquanto agente responsável pela resposta da Scotland Yard a esse incidente, a qual resultou na ilibação da polícia. Segundo uma fonte citada pelo NYT, sentia-se que, com Yates, o caso estava em “mãos seguras”. Ao defender a sua decisão de ignorar as provas das escutas telefónicas, Yates disse: “Eu não me vou abaixar e olhar para os caixotes do lixo”. Mesmo após a notícia de 2009 no Guardian, ele recusou-se a reabrir a investigação.

Foi formada uma comissão parlamentar para investigar o caso. Depois de entrevistar actuais e antigos editores e jornalistas do NOTW, entre os quais o futuro secretário de imprensa do primeiro-ministro Cameron, Coulson, em Fevereiro de 2010 publicou um relatório em que acusava o jornal de “negligência colectiva”, e não de actividade criminosa por, diz o relatório, não haver nenhuma prova de que algum dos responsáveis do jornal, incluindo Coulson, soubesse das escutas.

Isto foi directamente refutado em Setembro de 2010 por um ex-jornalista do NOTW para o mundo do espectáculo, que disse ao The New York Times que a prática de escutas era generalizada no jornal e que Coulson encorajava activamente a sua equipa a interceptar as chamadas das pessoas visadas. Coulson negou “total e absolutamente” as acusações, mas o jornalista continuou a insistir nas suas alegações e forneceu mais detalhes à BBC e ao Guardian, até ter sido encontrado morto no seu apartamento, a 18 de Julho de 2011, exactamente na altura em que o escândalo atingia o seu pico. A polícia anunciou de imediato que não estava a tratar a morte dele como sendo suspeita.

Entretanto, enfrentando uma pressão crescente, em Janeiro de 2011 a polícia teve de reabriu o seu inquérito. O escândalo ficou sem controlo quando foi revelado que o NOTW tinha ordenado a invasão do correio de voz de Milly Dowler, uma menina de 13 anos sequestrada e assassinada em 2002. O detective privado do jornal, Mulcaire, não só tinha escutado o telemóvel à procura de pormenores lascivos, como tinha mesmo apagado mensagens (ele disse ter sido para libertar espaço para novas mensagens, mas provavelmente também foi para impedir outros órgãos de comunicação social de seguirem o exemplo do NOTW). Isso induziu os pais da menina a pensar erradamente que a desaparecida ainda estava viva e a usar o telemóvel.

A tempestade resultante do escândalo – que refuta a ideia de que Murdoch apenas dava ao público o que ele queria – acabou por levar às demissões e às prisões e induziu à formação de dois comités de investigação da Câmara dos Comuns, os quais interrogaram responsáveis policiais, Rupert Murdoch e o seu filho James, chefe da divisão britânica do império do pai, e outras pessoas.

O encobrimento continua

Agora que o assunto das escutas telefónicas já não é apenas uma questão de privacidade da família real, as pessoas estão cada vez mais repugnadas com as práticas da comunicação social e ainda mais com o envolvimento do governo na facilitação e depois no encobrimento das actividades de Murdoch. Ao mesmo tempo, está a decorrer uma espécie de batalha entre partidos políticos rivais, que se reflecte, entre outras formas, nas fidelidades políticas dos dois jornais que divulgaram o escândalo.

O Guardian de Londres está ligado ao Partido Trabalhista e o The New York Times, por sua vez ligado ao Partido Democrático dos EUA, tem sido nos últimos anos um parceiro de trabalho do Guardian. Eles tomaram uma decisão conjunta de iniciar uma cruzada de investigação total deste caso, embora digam que cada jornal fez o seu trabalho independentemente do outro. Até certo ponto, esta situação está a criar oportunidades para que outras facções políticas aumentem o seu quinhão ou influência no governo, à custa dos seus rivais. Porém, isto foi muito além do que eles esperavam e eles estão agora a tentar arduamente encobrir isto e limitar os danos ao seu sistema.

A classe dominante e os seus representantes, entre os quais o governo liderado pelos Conservadores, o Partido Trabalhista, o Parlamento e a comunicação social em geral, incluindo mesmo Murdoch e a sua empresa, estão a tentar reduzir a questão a saber-se se as escutas foram ou não uma infracção à lei e se Coulson e outros editores do NOTW sabiam disso ou não, ou se as autorizaram. O espectro de um império de comunicação social como o de Murdoch andar a escarnecer da lei de uma forma tão flagrante e repetida já é suficiente para enfurecer muita gente – mas isto está longe de ser tudo.

O papel da polícia na protecção do jornal de Murdoch e na ajuda às suas bisbilhotices já não pode ser negado. Foi divulgado que havia altos responsáveis da polícia e da justiça a trabalhar para o NOTW e que o NOTW enchia as fileiras delas, que trocavam informações e que havia relações pessoais de longa duração e muito próximas entre dirigentes das duas organizações. Estão agora a alegar que os editores de Murdoch pagavam individualmente à polícia por informações – e Rebekah Brookes já admitiu isso num testemunho anterior, na altura em que ela chefiava o NOTW, embora ela tenha recuado posteriormente. Mas a relação parece ter sido mais baseada em vantagens estratégicas mútuas que em subornos. Murdoch proporcionou à polícia os experientes manipuladores da opinião pública e a cobertura política de que ela certamente precisava, entre outras razões devido à sua desapiedada brutalização e mortes ocasionais de manifestantes e outras pessoas cujos direitos ela supostamente protege.

Os vínculos entre a família Murdoch e altos responsáveis do governo e líderes do Partido Trabalhista, e agora do Partido Conservador, também se tornaram claros para todos. Tem sido particularmente chocante para as pessoas saber que o primeiro-ministro tinha contratado o lugar-tenente de Murdoch, Coulson, como seu secretário de imprensa, mesmo depois de ter sido confirmado que pelo menos algumas das escutas tinham ocorrido quando Coulson estava no NOTW. De facto, Coulson foi o cérebro da estratégia de relações públicas de Cameron antes de este se ter tornado primeiro-ministro, e tem sido sugerido que Cameron o contratou precisamente para garantir o apoio do império de Murdoch ao Partido Conservador nas eleições.

Mas a lama de Murdoch tem caído na cara de políticos tanto do Partido Conservador como do Partido Trabalhista, embora nem toda a gente tenha reparado adequadamente. Por exemplo, sabe-se que durante uma década o NOTW espiou o líder trabalhista Gordon Brown, tanto quando ele era o Chanceler do Tesouro do governo de Tony Blair como quando ele próprio se tornou primeiro-ministro. Brown suspeitou disso desde o início, diz ele agora. O Sun de Murdoch chegou mesmo a tornar público, para grande angústia da família Brown, que se preocupava com a sua privacidade, que o seu filho bebé tinha acabado de ser diagnosticado com fibrose cística. Apesar disso, Brown nunca disse nada, e continuou a manter uma relação social próxima com Rebekah Brooks, que era responsável pelo Sun em 2006, na altura em que ocorreu esse incidente, e que depois se tornou na principal executiva da News Corp. Ele também continuou a manter relações próximas com a família Murdoch.

De facto, Brown e Cameron estiveram presentes no casamento de Brookes em 2009, e ela esteve presente na festa do quinquagésimo aniversário do Príncipe de Gales. O primeiro-ministro trabalhista Tony Blair também socializou com os Murdochs e com os executivos deles. Apesar da espionagem das suas vidas privadas, importantes figuras da estrutura de poder pareciam achar que o papel de Murdoch na sociedade era legítimo e útil.

A comunicação social em geral tem um papel muito importante na formação da opinião pública que as massas supostamente podem exprimir livremente na altura das eleições. Todos os grandes órgãos de comunicação social têm capacidade financeira para chegarem a milhões de pessoas. Ao usarem esse poder e a sua capacidade de se ligarem a vários estratos da sociedade, eles podem enquadrar as questões e os problemas do momento de uma forma que muitas vezes leva as pessoas a pensar que as soluções propostas pela classe dominante são as únicas possíveis. Eles também treinam as pessoas numa certa mentalidade – e Murdoch sobressaiu no encorajamento de um ponto de vista doentio, egoísta, hipócrita e cinicamente explorador. Desta forma geral, e por vezes de uma forma muito específica, a “imprensa livre” ajuda a impor às “pessoas livres” o que pensar e o que fazer.

Mas, ao mesmo tempo, a comunicação social pode desempenhar um importante papel na rivalidade entre os representantes políticos de diferentes facções da classe dominante. Para essas facções é importante ganhar o apoio dos tablóides e de outros órgãos de comunicação social (na Grã-Bretanha, a imprensa escrita está sujeita a menos restrições que a comunicação social radiodifundida) e dos grupos empresariais seus proprietários, os quais, por sua vez, em geral claro que são propriedade de grandes capitalistas monopolistas como Murdoch.

Como tem sido salientado, a lei, na sua majestosa imparcialidade, permite que tanto os ricos como os pobres durmam nas ruas, e também dá tanto aos ardinas como aos magnatas financeiros o mesmo direito a serem proprietários de impérios da comunicação social.

Nas décadas desde que Murdoch entrou na comunicação social britânica, nenhum partido ganhou umas eleições gerais na Grã-Bretanha sem o apoio dele. O apoio de Murdoch a Tony Blair em 1997 foi uma importante vantagem para o Partido Trabalhista nesse ano. Todos os partidos e políticos certamente gostariam de manter ou obter esse apoio. De facto, a influência dos tablóides é tão fortemente sentida pelos políticos que o líder do Partido Trabalhista Neil Kinnock culpou-a da derrota dele em 1992, apesar de as sondagens lhe serem favoráveis, devido à campanha que o Sun de Murdoch iniciou contra ele poucos dias antes das eleições.

Tony Blair e os seus aliados no Partido Trabalhista, com o seu projecto “Novo Trabalhismo”, já tinham estabelecido uma relação tão íntima com o NOTW e com Murdoch que Blair foi convidado a participar na conferência da News Corporation na Austrália em 1995. Brown apareceu ao lado de Murdoch no Fórum Económico Mundial de Davos em 2007. A história repetiu-se em 2008 quando o conservador Cameron se reuniu com Murdoch na Grécia para conquistar o apoio dele. Parece que chegaram a alguma forma de acordo, porque um mês depois o Sun mudou o seu apoio, de novo para os Tories (Conservadores).

Tem sido revelado que todos os últimos primeiros-ministros britânicos se reuniram repetidamente com Murdoch ou um dos seus principais executivos na Downing Street (embora pela porta das traseiras), a residência do primeiro-ministro, ou noutro lugar. “Cameron admitiu ter-se reunido 26 vezes em 15 meses com executivos de Murdoch – mas tem emergido que houve mais ocasiões, muitas outras”, segundo escreveu Polly Toynbee no Guardian.

Se a liderança dos principais partidos políticos e Murdoch se deram tão bem juntos, tanto que os políticos decidiram aguentar as ocasionais punhaladas nas costas, o que é que isso diz sobre a suposta “escolha” que esses partidos oferecem às pessoas nas eleições que são consideradas o último limite da “liberdade”?

Mas a relação entre o sistema político da classe dominante e a comunicação social não se limita a Murdoch. Foi nisto que a rivalidade entre diferentes grupos financeiros e políticos parece ter representado um papel neste escândalo, embora as diferenças políticas pareçam ter estado largamente ausentes neste caso, apesar das controvérsias públicas durante este período (sobre as guerras do Iraque e do Afeganistão e os cortes internos). A News Corporation de Murdoch já detinha 39 por cento da televisão B-Sky-B, mas estava a planear tomar o controlo total. Para isso precisava da autorização do governo, e seria difícil acreditar que Cameron e Murdoch e os executivos deste não a tenham discutido durante as suas reuniões. Questionado numa reunião de emergência na Câmara dos Comuns, Cameron foi forçado a admiti-lo, embora tenha insistido em que as conversações tinham sido “adequadas”.

Essa tomada de controlo, o ponto mais importante da agenda estratégica da News Corp, teria resultado no controlo da comunicação social britânica por Murdoch e teria mesmo ameaçado a posição da BBC. Houve oposição a isso dentro dos círculos dominantes. Se isso representou algum papel no encorajamento a denunciarem e desacreditarem Murdoch e o império dele na Grã-Bretanha, não é claro. Mas Murdoch retirou agora a sua oferta de aquisição.

Por fim, provavelmente por várias razões diferentes, a classe dominante britânica parece ter decidido pôr â prova e arrefecer o assunto na esperança de limitar uma maior exposição. A ida do pai e do filho Murdoch e dos seus principais executivos ao Comité Especial do Parlamento britânico para a Cultura, a Comunicação Social e o Desporto pode muito bem ter sido a peça final. De facto, ao contrário das descrições na comunicação social de um Murdoch a ser grelhado, ela foi uma tribuna para permitir a Murdoch negar qualquer coisa de errado, justificar a sua actuação e apresentar-se como vítima traída por um empregado em quem muito confiava, sem que fosse confrontado com as perguntas mais quentes. Não houve perguntas relacionadas com subornos, corrupção e chantagem.

Tal como Murdoch, Cameron tem-se recusado a admitir que fez alguma coisa de errado, o que pode muito bem ser o caso nos termos estritamente legais dentro dos quais os partidos e a comunicação social estão a tentar limitar o caso. Ele parece ter sobrevivido, apesar do seu profundo envolvimento com Murdoch, mas tem a defesa efectiva de que todos os partidos políticos e muitos dos outros pilares do sistema também estão envolvidos.

O líder da oposição Ed Milliband pode ter ido um pouco mais longe que outros na sua retórica, mas também ele teve que fazer concessões e levar o parlamento a assumir uma abordagem suave face a Murdoch e ao gang dele, tratando-os como convidados respeitados, em vez de criminosos. Vale a pena mencionar que Murdoch apoiou o irmão de Ed, David Milliband, na corrida deles à liderança do Partido Trabalhista, mas Ed teve a sua conta de reuniões com subordinados de Murdoch – e foi apanhado por não as ter incluindo no seu recém-publicado registo de reuniões.

A investigação da Câmara dos Comuns não foi feita para chegar à verdade mas, antes pelo contrário, para encobrir os crimes do império de Murdoch e, mais importante, a cumplicidade de um vasto conjunto de instituições políticas do sistema no favorecimento e na protecção de um império da comunicação social que não reflecte a opinião pública, mas que antes a cria, um império cujo objectivo é iludir e degradar as pessoas, emudecê-las e entorpecê-las, para propagar a ideia de que devido às eleições e à concorrência entre partidos políticos, de alguma forma o domínio do capital sobre a vasta maioria das pessoas não é uma ditadura.

Este é o verdadeiro quadro que emerge deste escândalo, e mostra a mentira – ou pelo menos deveria fazê-lo – do mito de um governo livremente eleito e um parlamento livremente eleito, uma comunicação social livre e justa e uma economia de mercado livre.