A Cimeira de Guadalupe, o colapso do Xá e a ascensão de Khomeini ao poder

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 26 de Maio de 2008, aworldtowinns.co.uk

Publicámos recentemente vários artigos que analisavam a rota de colisão em que se encontram os EUA e a República Islâmica do Irão e que examinavam algumas das razões desse antagonismo. O seguinte artigo analisa a questão de um ângulo diferente, o do papel desempenhado pelos EUA na ascensão do regime de Khomeini ao poder em 1979, depois da queda do Xá (rei) apoiado pelos EUA.

Tal como o apoio de Washington às forças fundamentalistas islâmicas que combateram a ocupação soviética do Afeganistão, essa intervenção foi motivada pelos interesses do imperialismo norte-americano na sua rivalidade nessa altura com o bloco soviético. No período pós-Guerra Fria, sobretudo à medida que os EUA procuram aprofundar a transformação capitalista do Médio Oriente e instalar regimes mais ajustados às suas necessidades políticas e económicas actuais, as escolhas que fizeram durante essas décadas precedentes tiveram consequências negativas não previstas e de grandes consequências para o império norte-americano: essas forças fundamentalistas islâmicas reclamam agora – com algum sucesso – a bandeira da oposição aos EUA. Tal como a ascensão inicial do fundamentalismo islâmico ao poder no Irão, esta situação foi um acontecimento muito nefasto para as massas populares. Uma análise das razões porque e como os EUA ajudaram Khomeini a subir ao poder faz parte da desmistificação e denúncia da verdadeira natureza e objectivos dos imperialistas e das forças islâmicas que agora estão em conflito com eles.

O Dr. Ibrahim Yazdi era um dos conselheiros mais próximos de Ruhollah Khomeini quando o aiatola estava exilado em Paris, antes de regressar ao Irão em 1979. Ele é actualmente líder da Nehzate Azadi, uma organização nacionalista-religiosa. Ele concedeu recentemente uma entrevista à revista online iraniana Iran-Global. Essa entrevista esclarece vários aspectos do papel das potências imperialistas, e em particular dos EUA, na tomada do poder pelo clero e na instauração da República Islâmica do Irão.

Grande parte da entrevista centra-se em questões relacionadas com a Cimeira de Guadalupe. Para quem acompanhou a revolução iraniana, esse nome é familiar. Representou um momento chave na decisão das potências ocidentais de apoiarem a ascensão do clero islâmico ao poder no Irão. Essa conferência dos líderes de quatro potências imperialistas ocidentais (EUA, Grã-Bretanha, França e Alemanha Ocidental) realizou-se na primeira semana de Janeiro de 1979 na ilha caribenha francesa de Guadalupe. A sua agenda de trabalhos dizia respeito à situação mundial e à crise política no Irão, onde uma insurreição revolucionária popular estava prestes a derrubar o Xá, Mohammed Reza Pahlavi, um monarca que foi levado de volta ao poder num golpe de estado organizado pela CIA e pelos britânicos em 1953.

Em resultado das discussões dessa cimeira, os imperialistas ocidentais concordaram em acabar com o reinado do Xá e transferir o poder para os mulás liderados por Khomeini. Foi só depois dessa conferência que a comunicação social norte-americana se começou a referir à crescente oposição popular ao domínio do Xá e também à possibilidade de os EUA poderem não apoiar o Xá.

Embora tenha sido claro desde o início que as decisões tomadas na Cimeira de Guadalupe foram o resultado de negociações e acordos entre os imperialistas e Khomeini e as pessoas à sua volta, a dimensão dos acordos alcançados antes e depois da conferência foram mantidos escondidos das pessoas de dentro e de fora do Irão. No contexto desses tempos e dos de hoje, os imperialistas ocidentais tinham todo o interesse em esconder o seu papel na ascensão de Khomeini ao poder. As forças islâmicas reaccionárias e antipopulares do Irão mantiveram esse segredo durante várias décadas para não mancharem a cuidadosamente polida e falsa imagem anti-imperialista do seu regime, a qual, juntamente com a religião, é um pilar da sua pretensa legitimidade. É importante perceber que, embora essa entrevista traga alguns aspectos à luz do dia, ela apenas revela uma pequena parte da realidade dessa época e, em particular, das negociações ligadas à Cimeira de Guadalupe. Outras fontes, como entrevistas e memórias de algumas personagens e autoridades influentes dessa altura, entre as quais o livro do enviado especial do Presidente norte-americano Jimmy Carter ao Irão depois da queda do Xá, o general Huiser, fornecem mais detalhes. Mas muito mais tem que ser revelado antes de termos uma imagem completa do que ocorreu nos bastidores.

Há duas importantes razões para a necessidade de uma melhor compreensão dos acontecimentos que rodearam a tomada do poder pelos islamitas no Irão e do papel que os imperialistas nela representaram. A primeira é revelar mais completamente o papel dos imperialistas ao permitirem a instauração de um novo regime islâmico no Irão, o qual eles viam como a sua melhor escolha nessa altura. A segunda diz respeito ao aparecimento de movimentos islâmicos no Médio Oriente, à natureza do seu papel anti-EUA e ao desafio real que isso apresenta aos povos do mundo e às forças progressistas e revolucionárias.

Quem é Ibrahim Yazdi? É um dos líderes da corrente religiosa nacionalista cuja principal figura, Mehdi Bazargan, foi nomeado por Khomeini para formar um governo provisório após a queda do Xá. Esse governo caiu após a ocupação da embaixada norte-americana por estudantes pró-Khomeini. Depois disso e devido a conflitos com outras facções clericais, a organização mais importante dessa corrente, a Nehzate Azadi, foi afastada do governo e mesmo excluída de participar nas eleições parlamentares. Yazdi também foi um dos fundadores da associação iraniana de estudantes islâmicos inspirada pela Fraternidade Muçulmana, com base no Egipto e precursora de muito do Islão político de hoje. Ele foi próximo de Khomeini durante o exílio do aiatola em França – de facto, foi talvez o seu conselheiro político mais importante durante o período pré-1979. Regressou ao Irão com Khomeini e tornou-se num dos principais membros do Conselho Revolucionário de Khomeini e Ministro dos Negócios Estrangeiros do governo provisório.

Os EUA e a decisão de permitirem que o clero subisse ao poder

Yazdi diz nessa entrevista: “Em Janeiro de 1979, o canal norte-americano de televisão PBS convidou-me para um debate com Henry Kissinger sobre o Irão. Mas Kissinger não compareceu e enviou em sua substituição o seu assistente, o Sr. Josef Sisko.” Yazdi salienta que, antes de ir para os EUA, o Aiatola Khomeini o tinha autorizado a encontrar-se com responsáveis norte-americanos, se essa oportunidade surgisse. Continua ele: “Depois da entrevista na televisão, e antes de irmos para um restaurante, o entrevistador disse-me que tinha convidado o Sr. Henry Precht, chefe do Gabinete sobre o Irão do Departamento de Estado dos EUA, tanto para jantar como para conversações”. Yazdi não diz que assuntos foram discutidos nem qual a relação entre essa reunião e a Cimeira de Guadalupe. Ele continua silencioso em relação a outros assuntos possivelmente discutidos, relacionados com a transferência de poder para Khomeini e os seus parceiros.

Yazdi limita-se a dizer: “O meu entendimento dessa reunião foi que os responsáveis dos EUA estavam confusos e pouco esclarecidos e mesmo ignorantes em relação à situação no Irão. Na minha opinião, eles mantiveram até ao último minuto o ponto de vista que o Xá deveria ser mantido no poder e quaisquer mudanças ou reformas deveriam ocorrer sob o seu regime. Mas os diplomatas britânicos e israelitas, que estavam mais familiarizados com as questões iranianas e tinham um conhecimento mais profundo, tinham aconselhado o Xá a abdicar a favor do seu filho.” Falando sobre os EUA, acrescenta: “O que eles queriam saber era o ponto de vista da liderança da revolução sobre questões chave, entre as quais as relações com o Ocidente. Explicámos que não tínhamos nenhum problema com o Ocidente. Tudo o que queríamos era a nossa independência. Estávamos disponíveis para lhes vendermos o nosso petróleo. Dado que a essência da revolução iraniana era islâmica e anticomunista, eles não estavam preocupados com isso, mas queriam saber se o regime que iria subir ao poder conseguiria ou não enfrentar o comunismo.”

Na altura em que as massas iranianas se revoltaram contra o Xá, os EUA enfrentavam o Bloco de Leste encabeçado pela União Soviética, um país que antes fora socialista e que se tinha tornado no principal rival imperialista dos Estados Unidos. O que preocupava os EUA era o papel que o Irão iria representar nesse grande confronto. Nesse contexto, parece que Khomeini e os seus conselheiros asseguraram às potências ocidentais que governariam o país segundo os interesses dos imperialistas. Em resultado disso, os EUA aplicaram um novo plano.

Yazdi continua: “Os norte-americanos estavam preocupados com o vazio de poder que seria criado se o Xá saísse e com quem o preencheria. Por isso, eles concordaram com o seguinte: o Xá partiria e [Shahpour] Bakhtiar entraria (como primeiro-ministro). O Exército cooperaria então com a revolução e provavelmente encontraria uma posição na revolução. Por outro lado, Brzezinski [Zbigniew Brzezinski, Conselheiro Nacional de Segurança do Presidente Carter] acreditava que, na ausência do Xá, a única forma de bloquear o comunismo era uma coordenação entre o exército e o clero. O seu raciocínio era o de que o clero era anticomunista e que, nessa altura, também tinham capacidade para mobilizar as massas populares. As forças armadas estavam consolidadas e o Exército do Xá, de 400 000 homens, tinha sido doutrinado no anticomunismo e treinado para esmagar a revolta, pelo que uma aliança entre o exército e o clero poderia neutralizar o perigo do comunismo.”

O que Yazdi queria aqui dizer com comunismo era sobretudo o perigo de um governo ligado à União Soviética social-imperialista (socialista nas palavras, imperialista nos actos). Mas, ao mesmo tempo, não há dúvida nenhuma que os comunistas revolucionários e outras organizações genuinamente revolucionárias se estavam a expandir rapidamente entre as massas populares. Isso também era uma grande preocupação para o imperialismo norte-americano. De qualquer forma, os comentários de Yazdi explicam o que ocorreu em dois feriados religiosos (o Tasooa e o Ashoura, durante o mês islâmico do Moharram) no início de 1979. Do exílio, Khomeini convocou uma enorme manifestação para esses dois dias. Nela participaram centenas de milhares de pessoas. Dessa vez, o Exército não atacou a multidão. Isso foi uma alteração da sua reacção em relação a outras recentes manifestações de massas, sobretudo a de 6 de Setembro de 1978, que resultou num massacre. Desta vez, o Exército não interveio de forma nenhuma, nem mesmo quando as pessoas marcharam até aos seus tanques. Ao mesmo tempo, os líderes da manifestação lançaram as palavras de ordem “O Exército é nosso irmão” e apelaram às pessoas para darem flores aos soldados.

Aqui, Yazdi confirma que a liderança do movimento estava envolvida em algo mais que apenas propagar ideias reformistas e actos comprometedores a meio de uma situação revolucionária. Essa posição foi o resultado directo de negociações de bastidores entre os homens de Khomeini e representantes dos imperialistas ocidentais, em particular de responsáveis dos EUA. Khomeini e os seus parceiros estavam a negociar com os EUA e com outros imperialistas ocidentais, vendendo a revolução popular, de forma a abortar e matar a revolução. Eles visavam manter intacta a estrutura do estado reaccionário e antipopular então existente e apenas mudar os gestores deste estado. Esse estado permaneceria assim ao serviço da cadeia de relações económicas e políticas do sistema imperialista mundial.

Yazdi di-lo da seguinte forma: “O Sr. Khomeini aconselhou Carter que os representantes dos EUA no Irão com ligações ao Exército deveriam impedir a morte de pessoas”. Ele também confirma que “a visita de Huizer ao Irão não visava forçar o Exército a organizar um golpe de estado. Em vez disso, ele tinha ido para garantir que os militares não fariam nada que lesasse a reputação do Exército entre o povo. Os norte-americanos acreditavam que, se o Exército conseguisse manter a sua força intacta e cooperar com a revolução, então, depois da vitória da revolução, quando diminuísse o fervor popular, o Exército poderia facilmente reivindicar a sua posição enquanto parte da revolução.”

Esta entrevista também revela que, perante a iminente Cimeira de Guadalupe, um representante do governo francês pediu a Khomeini um relatório sobre a situação no Irão que reflectisse o ponto de vista de Khomeini e das pessoas à sua volta. Khomeini concordou de imediato. O relatório foi entregue por Sadegh Ghotbzadeh, uma das três principais pessoas que geriam as questões políticas de Khomeini quando ele estava em Paris, juntamente com Yazdi e Abdul Hassan Bani Sadr. (Bani Sadr tornou-se no primeiro presidente da República Islâmica depois da revolução, antes de ser afastado em 1981. Em Setembro de 1982, Ghotbzadeh foi acusado de planear um golpe contra Khomeini e foi executado.) Como diz Yazdi, esse relatório teve um importante impacto nos resultados da Cimeira de Guadalupe. Porém, o seu conteúdo nunca foi revelado e parece ter sido destruído.

Os contactos e os canais entre os aiatolas e os EUA

Yazdi também confirma que os contactos que ele, Ghotbzadeh e Bani Sadr organizaram com a ajuda do governo francês não foram o único canal nas relações entre Khomeini e os EUA. Como ele diz com base no seu próprio papel pessoal: “Nessa altura, o líder da revolução tinha três canais de contactos com os EUA. Um era em França. Já foram publicados documentos sobre essa relação. Outro canal era entre o Conselho Revolucionário, através de Mehdi Bazargan, do Aiatola Mousavi Ardabili e do Dr. Sehabi, com [William H.] Sullivan, o embaixador norte-americano no Irão. E o terceiro canal era o contacto directo e as negociações entre o Dr. [Aiatola] Beheshti e Sullivan. Stemple [John D. Stemple, analista da CIA e, nessa altura, agente político da embaixada dos EUA no Irão]. No seu livro, ele refere-se aos dois canais de Teerão, mas não escreve nada sobre as negociações entre o Dr. Beheshti e Sullivan.”

O Aiatola Beheshti era um dos mais reaccionários e brutais dos ajudantes de Khomeini e era muito influente nos círculos da liderança. Foi um dos arquitectos do massacre de revolucionários e comunistas iniciado a 20 de Junho de 1981. Foi morto por uma bomba colocada no Parlamento um mês depois. Rumores sobre a sua ligação directa aos EUA surgiram desde os primeiros tempos da revolução. Yazdi confirma e detalha os contactos entre Beheshti e as autoridades dos EUA, tanto com a embaixada norte-americana no Irão, como quando viajava para os EUA. Yazdi chama a esse canal a “chave perdida” para uma imagem mais clara das negociações entre os círculos de Khomeini e os EUA. Mesmo Yazdi, que foi um dos principais conselheiros políticos de Khomeini nessa altura, foi mantido afastado. Parece assim ter sido o canal mais secreto e importante de todos.

Diz Yazdi: “O Dr. Beheshti veio aos EUA alguns meses antes de eu sair dos EUA para Najaf [no Iraque, onde Khomeini montou o seu quartel-general antes de ir para França] e depois para Paris. Ele passou algum tempo comigo em Houston, e depois foi para Washington – e para Nova Iorque – onde esteve um mês. Não apareceu em público em nenhuma reunião de iranianos. E não sabemos o que esteve a fazer durante esse mês em que esteve em Washington e Nova Iorque. Na minha opinião, isso é importante. Enquanto o Conselho Revolucionário negociava com Sullivan, o Dr. Beheshti negociava com ele em simultâneo e separadamente; é preciso investigar isso melhor. Por exemplo, não é claro se Huizer se reuniu com ele ou não, quando o general foi ao Irão.”

Nesta entrevista, Yazdi diz que quando os estudantes ocuparam a embaixada norte-americana, eles obtiveram documentos relacionados com as negociações de Beheshti com Sullivan, mas Khomeini impediu-os de os tornarem públicos. A sua desculpa foi a de que “Beheshti é membro do Conselho Revolucionário, pelo que não é necessário publicá-los”. Como fonte disto, Yazdi cita Abbas Abdi, um líder da ocupação estudantil que agora é jornalista e um dos principais apoiantes do antigo Presidente Khatami, um autoproclamado reformista.

Os clérigos enquanto alternativa para os estrategas dos EUA

O entrevistador perguntou a Yazdi: “Então, segundo o plano de Brzezinski (a formação de uma aliança entre o Exército e os mulás), os EUA estavam a ver os clérigos como uma alternativa?” Ele respondeu: “Sim, como uma força que, depois do Xá, pudesse preencher o vazio político e impedir os comunistas de tomarem o poder político. Deixe-me pôr as coisas desta forma: os EUA viam o domínio do clero juntamente com a cooperação do Exército como sendo necessário para repelir o perigo do comunismo.”

Isto não só confirma que as potências ocidentais, particularmente os EUA, aprovaram desde o início a ascensão dos mulás ao poder, mas também que eles prepararam a aliança entre o clero e o Exército.

É esta a verdadeira história por trás do poder das forças fundamentalistas reaccionárias que gostam de alegar serem “anti-imperialistas” – forças que no seu momento mais radical estavam atarefadas a criar nos bastidores vários canais para estabelecerem acordos com os imperialistas. Ao mesmo tempo que lançavam ocas palavras de ordem anti-imperialistas para atirarem poeira aos olhos das massas, também abafavam a revolução contra o domínio norte-americano do Irão e assassinavam em massa os revolucionários.

Estas revelações vindas da boca de um dos mais próximos colaboradores de Khomeini mostram apenas uma pequena parte do grande conluio entre o clero e os imperialistas. Nos primeiros anos após os clérigos terem chegado ao poder, eles continuariam a fazer acordos secretos com os EUA, como o acordo a três entre os EUA, Israel e a República Islâmica, em que o Irão comprou armas norte-americanas a Israel para financiar os secretos esquadrões da morte do Presidente Ronald Reagan na América Central (conhecido como escândalo “Irão-Contras”).

Porque é que, apesar de tanta experiência e provas, algumas pessoas de entre as que se querem opor ao imperialismo ainda estão confusas sobre a natureza dessas forças islâmicas? Porque é que elas caracterizam os fundamentalistas islâmicos como anti-imperialistas e, além disso, apelam às massas e às organizações revolucionárias e progressistas para se aliarem a essas forças? Esta confusão é muito comum entre as correntes de esquerda nos EUA e nos países europeus.

A maior parte dos movimentos islâmicos que combatem a influência cultural do Ocidente não consegue definir nem levar a cabo um programa político muito diferente do da República Islâmica do Irão. Eles não conseguiriam, nem sequer querem, ir além do que foi implementado no Irão nas últimas três décadas. Por isso, qualquer apoio ou legitimação desses movimentos ditos anti-ocidentais resultará, em última análise, no apoio a esse tipo de programa político.

O próprio Yazdi, que participou na grande usurpação, a usurpação da revolução, concluiu que a sua aliança com Khomeini e os cleros foi um erro. Diz ele: “Agora que olho para o passado, a minha primeira crítica é que nós [todos os activamente envolvidos na revolução] estávamos unidos quanto ao que não queríamos. Dos intelectuais de esquerda aos muçulmanos tradicionais, todos tínhamos um objectivo: a queda do Xá. Todos queríamos ver a queda do Xá. Lutámos durante anos contra o seu despotismo. Foi por isso que não vimos o que deveríamos ter visto. Por isso, eu aconselho a geração mais jovem a ter mais cuidado, a definir primeiro o que quer e a chegar a um acordo quanto a isso, e não quanto ao que não quer.”

Não deveriam as massas e os revolucionários tirar lições dessa revolução usurpada que vão mais além do que mesmo as de Yazdi?