Recebemos o seguinte comunicado do Colectivo de Solidariedade com Mumia Abu-Jamal (CMA-J):

Arrastão ao racismo

O dia 10 de Junho – o apregoado Dia da Raça de algumas décadas atrás – fez este ano disparar uma onda racista e xenófoba: o tão falado arrastão na praia de Carcavelos suscitou as aberturas dos telejornais e páginas e páginas de mentiras que contribuíram para a intoxicação pública até a exaustão. Chegou-se ao ponto de se fazer eco desta monumental mentira nas principais cadeias de televisão e jornais do chamado mundo civilizado. Este episódio ressuscitou uma vaga de comportamentos dignos de práticas do apartheid, práticas que condenamos e repudiamos.

Uma organização de cariz fascista e racista chegou a convocar uma manifestação contra os “criminosos”. Essa organização, sim, é um gang que conta no seu currículo com mortes e espancamentos. Nas faixas ostentadas por estes pseudo-justiceiros, eram visíveis frases xenófobas e racistas bem como comportamentos nazis, ao fazerem por diversas vezes a saudação nazi e apelos à violência sobre os imigrantes e os negros. Esta manifestação foi autorizada pelo governo e teve ampla cobertura policial, não fosse ser atacada por antifascistas.

Entretanto, os episódios de assaltos sucedem-se diariamente sendo empolados por determinada imprensa com vista a generalizar um clima de alarmismo, cujos resultados já se verificaram num comboio da linha de Sintra.

Pese embora se ter constatado já por diversas vezes que alguns órgãos de informação desmentiram através dos factos o que se passou no dia 10, ainda não vimos nenhum jornal ou televisão a apresentar desculpas aos leitores e espectadores pelas mentiras de que fizeram eco.

Pese ainda a existência de estatísticas que falam de uma acentuada diminuição da pequena criminalidade – porque a grande criminalidade é assunto tabu para os nossos investigadores jornalísticos – os fazedores de opinião mal formados persistem na mentira e na especulação, que de tanto repetidas passam por verdades.

O CMA-J não pode deixar de manifestar o seu veemente repúdio pelo que está a acontecer, responsabilizando os sucessivos governos pelo facto de não terem respostas à altura para resolver os problemas de exclusão, discriminação, miséria... Responsabilizamos em particular o governo Sócrates pelas consequências do clima gerado, como se este assunto contribuísse para a cortina de fumo com que tenta dissimular a sua política antipopular.

Reafirmamos que o crime não tem cor. Dizemos mais: aos imigrantes se deve a construção das infra-estruturas do desenvolvimento do país, como as auto-estradas, os hospitais, as escolas, as habitações... a Expo'98 e o Euro 2004 tão patrioticamente ostentados por alguns. Muitas vezes auferindo vencimentos baixos fruto da exploração a que são sujeitos e vivendo em condições deploráveis com as suas famílias em autênticos guetos, espaços de armazenamento de seres humanos.

Perante a avalanche racista, afirmamos que o criminoso não é o vizinho porque tem uma cor diferente, mas o criminoso é sim o capitalismo que nos explora a todos e ganha com a nossa divisão. A exploração não conhece cores, só se pode combater com a solidariedade.

Junho 2005

Colectivo de Solidariedade
com Mumia Abu-Jamal
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