Irão: “Qual é a mensagem de Mousavi?”

Do Serviço Noticioso Um Mundo A Ganhar (SNUMAG) de 1 de Fevereiro de 2010, aworldtowinns.co.uk

A luta radical do povo iraniano no Ashura (o feriado xiita de 26 de Dezembro) prenunciou novos desenvolvimentos no movimento popular e desencadeou reacções de pânico dentro de diferentes facções da classe dominante e outros sectores da burguesia. Face à extrema brutalidade do regime, os manifestantes defenderam-se, responderam e deram aos assassinos e arruaceiros do regime uma amostra do potencial poder do povo. Estas lutas aterrorizaram tanto a clique dominante como o sector do regime que foi afastado do poder, os líderes do chamado Movimento Verde (a oposição islâmica). O governo anunciou que nesse dia tinham sido presas 500 pessoas; uma organização de direitos humanos e advogados disse que entre 1000 a 2000 pessoas continuam na prisão. A localização da maioria delas é desconhecida e elas não têm conseguido contactar as respectivas famílias. Estão sob uma forte pressão para confessarem falsas acusações (Serviço em persa da BBC Rádio, 24 de Janeiro).

Mir-Hussain Mousavi e outros dirigentes verdes recuaram em relação às suas anteriores posições. Têm emitido comunicados a defender um compromisso de “saída da crise”. Em muitos casos, chegaram mesmo a condenar a luta popular. Ao mesmo tempo, estão à pedir à clique dominante que abandone o seu monopólio do poder, que coopere e se alie novamente a eles para salvar a República Islâmica e os seus princípios antes que a luta popular os esmague a todos. O comunicado n.º 17 de Mousavi e o discurso de Mohammad Khatami (presidente entre 1997 e 2005) no dia seguinte são os melhores exemplos conhecidos disto. Khatami condenou como “extremistas” os que gritavam palavras de ordem contra a República Islâmica e os Velayat-e Faqi (os princípios fundadores do controlo clerical da República Islâmica ou, por outras palavras, a pessoa e o lugar do Guia Supremo, que é actualmente Ali Khamenei). A 25 de Janeiro, Mehdi Karoubi, o outro principal líder verde, emitiu um comunicado a reconhecer a legitimidade do governo de Ahmadinejad. Disse que embora as eleições de Junho tenham sido “marcadas por uma gigantesca fraude”, “Ahmadinejad é o chefe do governo, ou por outras palavras, o presidente do Irão, porque o Guia validou as eleições”. Ao mesmo tempo que assim dava a sua mão ao regime, o comunicado de Karoubi estreitava o foco das suas críticas ao Aiatola Ahmad Jannati, dirigente do Conselho de Guardiães do regime que se tem destacado a pedir a punição dos dirigentes do Movimento Verde. A 27 de Janeiro, a República Islâmica enforcou duas presas detidas em ligação aos recentes protestos. Durante as principais orações do dia seguinte, Jannati disse: “Para glória de deus, deveriam ser executados mais membros da oposição!”. Começaram agora a ser julgados mais dezasseis manifestantes e cinco deles enfrentam penas de morte.

Há alguns sinais de negociações por trás dos bastidores entre as duas facções reaccionárias, para reprimirem o povo e impedirem uma maior radicalização. Por exemplo, o regime poderia sacrificar o juiz assassino Saeed Martazavi, responsável por muitas atrocidades na infame prisão de Kahrizak. Ahmad Khatami (que não tem nenhuma relação com o ex-presidente), o imã que dirige as orações de sexta-feira, fez um sermão onde, ao contrário dos seus duros discursos anteriores contra a facção rival, abandonou as suas habituais ameaças e, em vez disso, adoptou uma abordagem mais suave e chamou mesmo “irmãos” aos verdes.

Embora o poder dominante esteja a aumentar as suas atrocidades contra o povo e os verdes estejam a recuar, as pessoas estão a preparar-se para uma nova ronda de batalhas a 11 de Fevereiro, o aniversário da revolução iraniana.

O texto que se segue é um comunicado datado de 5 de Janeiro de 2010 do Partido Comunista do Irão (Marxista-Leninista-Maoista) que analisa o comunicado n.º 17 de Mousavi e o seu contexto.

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Entre ameaças de mais derramamento de sangue que os criminosos governantes do Irão estão a fazer contra o povo e na véspera dos seus julgamentos medievais, de mais prisões e de execuções mais rápidas das pessoas, o Sr. Mousavi emitiu um comunicado que atraiu muita atenção. O seu ponto central é a sua preocupação de que a República Islâmica se possa desmoronar e a sua queixa de que os seus avisos têm sido abafados pelas criminosas ameaças da clique dominante. Nesse comunicado, Mousavi recuou em relação à sua anterior posição de se recusar a reconhecer a legitimidade do governo de Ahmadinejad. Este recuo não se deveu as ameaças que os governantes estão a fazer contra o povo, mas sim a Mousavi temer que o que possa vir a acontecer não seja apenas uma mudança de governo mas o colapso e desaparecimento completo de todo o sistema islâmico.

Esse comunicado foi emitido excepcionalmente depressa, logo após as lutas militantes do Ashura, e tem a ver com as atitudes exibidas pelas pessoas e com as palavras de ordem que elas gritaram nesse dia.

Apesar dos altos e baixos, durante os últimos meses o movimento popular desenvolveu-se e ultrapassou as linhas vermelhas definidas por Mousavi e pela sua corrente. A liderança de Mousavi foi seriamente questionada e posta em dúvida por um crescente número de pessoas – não por todas, mas por um grande sector do povo. No Quds [Dia da Palestina, 28 de Setembro], a luta popular ainda se mantinha sobretudo dentro do enquadramento imposto pela liderança “verde”, mas a manifestação de 13 de Aban [4 de Novembro] viu a primeira aparição de palavras de ordem radicais e as pessoas a recorrerem a tácticas mais ofensivas. Nessa altura, Mousavi alertou contra essas palavras de ordem, chamando-lhes “desvios”, e exprimiu a sua preocupação com elas. Embora “Morte ao líder!” e outras palavras de ordem contra os Velayat-e Faqi que visam todo o sistema tenham sido repetidamente gritadas a 4 de Novembro, nos protestos do Dia do Estudante, a 6 de Dezembro, essas palavras de ordem foram gritadas ainda mais generalizadamente e foram amplamente popularizadas durante as lutas do Ashura.

No seu comunicado, Mousavi admite não ter convocado nenhuma manifestação no Ashura, mas que mesmo assim as pessoas encheram as ruas. O que ele quer dizer é que neste momento a liderança do movimento está a escapar às suas mãos. Mousavi e a facção rival dentro do regime estão conscientes do potencial perigo desta situação. Mesmo que não haja nenhum acordo, declarado ou não declarado, entre as duas facções rivais, ambas sabem que, enquanto o controlo do movimento popular estiver nas mãos de pessoas do círculo interno do regime, haverá sempre uma forma de o salvar e impedir o seu desmoronamento.

O comunicado de Mousavi é uma expressão da situação de emergência e preocupação com o rumo que o movimento popular está a tomar e com as suas consequências. Alguns aspectos importantes desta sublevação implicam que batalhas mais sérias e radicais estão a caminho, batalhas essas que podem lançar fogo aos palácios dos reaccionários e trazer para a frente novas abordagens que poderão pôr fim de uma vez por todas a todo o sistema.

Mousavi tenta pintar um falso quadro do que foi o movimento popular no Ashura, encobrindo a luta radial do povo, porque está bem consciente do potencial escondido dentro das diferentes camadas desta sublevação. Ele refere-se “aos que choram pelo Imã Hussein” [figura emblemática do xiismo cuja morte é comemorada nessa data], que (segundo ele) cantaram pacificamente elogios a Hussein nesse dia. Mas ele sabe muito bem que em 2009, pela primeira vez na história do Irão, o Ashura não foi comemorado como dia de luto religioso mas como grande festa popular. Ele sabe muito bem que os grupos dos que choravam eram um sector minoritário do povo, enquanto o maior sector do povo se afastou da tradição e hábitos religiosos e converteu o Ashura num dia de luta contra os reaccionários religiosos.

Se, como ele alega, Mousavi viu imagens chocantes desse dia, não há dúvida nenhuma que o que o chocou foram as mulheres de cabeça descoberta que participavam corajosamente em discussões entre a multidão. A visão de tantas mulheres sem véu não tem precedentes, nem sequer no início do movimento popular. Esta conduta ainda é rara mas pode vir a marcar o início de um novo estado de espírito que se pode espalhar rapidamente.

Mousavi diz ter “visto fotografias e vídeos que mostravam pessoas que viam as forças de segurança e os basiji como seus irmãos e (...) a tentar não lhes fazer mal”. Essas fotografias existem. Mas ele certamente também deve ter visto outros vídeos que o motivaram a escrever o seu mais recente comunicado. Esta foi a primeira vez em que as imagens enviadas para todo o mundo mostravam pessoas a dar uma lição aos arruaceiros basiji e a outras forças de repressão. Alguns vídeos mostravam jovens na ofensiva a atirar pedras e as forças repressivas em retirada. Mostravam pessoas a tomar pequenos postos às forças de segurança e por aí adiante. Ao porem espontaneamente as suas vidas na linha da luta, as pessoas estavam a exprimir a futilidade da supersticiosa convicção numa “abordagem pacífica” e a declarar no campo de batalha que irão responder à violência reaccionária e injusta com a sua própria e justa ira.

Embora esta atitude seja rara e esteja numa fase embrionária, pode ser o início de algo grande cuja característica mais importante é a passagem à ofensiva. Aos olhos de Mousavi e companhia, não estava previsto ser assim – era suposto que os criminosos basiji fossem considerados irmãos das pessoas. Mas a vigilância popular e a ira revolucionária reduziram os seus planos a nada.

Após os acontecimentos de 26 de Dezembro, a principal mensagem de Mousavi a todos os governantes da República Islâmica é a seguinte: “Ainda não é demasiado tarde”. Nem o actual círculo interno do regime nem os apoiantes “verdes” do sistema explicaram o que é que não é demasiado tarde, mas o próprio Mousavi exprimiu isso implicitamente no seu comunicado: ainda não é demasiado tarde para se voltar a meter o génio dentro da garrafa; ainda não é demasiado tarde para se chegar a um acordo de bastidores sobre este ou aquele parâmetro das eleições para afastar o povo do palco político e o tornar inactivo e para começar a reformar o sistema que se está a desmoronar. Não é demasiado tarde para espalhar a linha da conciliação nacional e inverter “o veredicto mudado pelo povo sobre o (nosso) sistema” e recuperar a confiança no sistema perdida pelo povo.

A importância do recente comunicado de Mousavi é que é um aviso do possível colapso de todo o sistema face ao alastrar das lutas militantes do povo, propagando o tipo de “desrespeito” pela religião que as pessoas manifestaram no Ashura quando chegaram mesmo a rasgar fotografias do [fundador da República Islâmica, o Imã Khomeini] e por aí adiante. Tal como todos os outros reaccionários, Mousavi precisa do apoio das pessoas, mas de pessoas que não vão além de chorar nas ruas pelo Imã Hussein e que face à opressão continuem desesperadas, humilhadas e silenciosas. Quem violar essas linhas vermelhas e sair fora de controlo deixa de ter qualquer utilidade para pessoas como Mousavi. O seu objectivo é canalizar uma vez mais a luta para os limites das contradições e diferenças dentro do poder dominante – antes que seja demasiado tarde. Entre essas diferenças estão as de saber como tornar os órgãos de repressão mais efectivos e como interpretar a podre e retrógrada constituição de forma a envolver novamente o povo no jogo “do pluralismo e da opinião das pessoas”. Do que eles estão realmente a falar é do pluralismo e da opinião das pessoas no topo da hierarquia do poder. Eles tentam assim voltar a impor o Islão antimulheres e escravizador com uma face nova e remodelada, a de um Islão generoso e misericordioso.

A linha do comunicado do Sr. Mousavi está de acordo com os objectivos que ele definiu durante a sua campanha presidencial: a salvação do sistema da República Islâmica e uma nova pintura por cima de alguns dos vergonhosos aspectos dos 30 anos do seu vergonhoso governo. Agora que se confronta com um movimento popular em desenvolvimento e que está a perder a sua liderança, ele vem apresentar a sua saída para a crise e para salvar o sistema antes que seja demasiado tarde.

A verdade é que as reivindicações fundamentais do povo não são de que o regime “reconheça a existência da actual crise”, como alega Mousavi, nem o regresso às urnas de 12 de Junho [a data das últimas pretensas eleições presidenciais]. Desde então, o nível das reivindicações das pessoas tem aumentado continuamente e hoje elas estão a exigir a extinção dos Velayat-e Faqi sem quaisquer condições prévias. Mas esta vaga não irá parar aqui. As pessoas devem considerar conscientemente o seguinte: está fora de questão e é impossível que as coisas voltem a onde estavam antes das eleições de Junho [como pede Mousavi]. Não há dúvida nenhuma que a exigência de liberdade e igualdade para todas as pessoas – independentemente do seu género, nacionalidade, terem ou não terem religião – está nos corações de todos os que lutam heroicamente contra os assassinos deste sistema reaccionário.

Não há dúvida nenhuma que o espírito de liberdade efervesceu mais nas nossas veias durante os últimos seis meses que em qualquer outra altura. Por isso, iremos gritar palavras de ordem claras contra o hijab [véu] obrigatório, pela liberdade de expressão e publicação, pela concretização dos direitos das organizações populares independentes e pelo direito à greve dos operários, professores, enfermeiros e outros trabalhadores. Não há dúvida nenhuma que os sacrifícios que o povo está a fazer na luta contra a opressão e a repressão serão mais claramente representados nas palavras de ordem Derrubar o sistema da República Islâmica no seu todo.

O comboio dos desenvolvimentos políticos no Irão está a acelerar e quem estiver no seu caminho será empurrado para o lado.