Arrastão, fabricação

Por N. Redol

10 de Junho – “Dia da Raça”, chamavam-lhe os fascistas. Como noutros anos, algumas dezenas de neonazis tentam pôr a cabeça na rua. São recebidos por jovens antifascistas. A polícia diz também ter sido atingida por algumas pedras. A extrema-direita não está satisfeita, precisa de criar um ambiente que lhe seja mais favorável. E desta vez ele vai surgir, a sua montagem está em marcha.

Impávido e sereno, Jorge Sampaio também celebra a data fascista. Desde manhã que está em Guimarães a distribuir medalhas e comendas, à esquerda e à direita, centenas delas. Pouco importa os protestos dos estudantes e a fome e a miséria mesmo ao lado, no Vale do Ave. Sindicalistas e outros lacaios traidores também lá estão para o receber. A mobilização policial é imensa. É um dia atarefado para as forças da repressão.

A polícia dita os termos da notícia

Enquanto Sampaio e os partidos parlamentares celebram e os fascistas se manifestam, despoleta a bomba a meio da tarde. Um comunicado oficial da polícia chega a toda a comunicação social, distribuído pelas agências noticiosas. Centenas de jovens teriam invadido uma praia dos arredores de Lisboa e praticado crimes a torto e a direito, “usando o método do arrastão”, segundo a PSP.

A polícia tinha dado o mote e criado o vocabulário. A partir daí foi uma bola de neve. Nenhum jornalista tinha ainda presenciado o que quer que seja, mas o fenómeno estava criado. Os noticiários repetiam a mentira policial, apresentando a ficção como factos. O pivot da RTP falava em dezenas de jovens, mas por baixo a legenda referia 500 pessoas envolvidas. A SIC ampliava a notícia, acrescentando roubos e violência. A TVI multiplicava, inventando bandidos que roubavam tudo o que podiam, usando “armas brancas”, cercando banhistas e espancando-os. Teria sido uma tarde de terror e pânico em Carcavelos. Havia fotos de jovens, sobretudo negros, a correr. E ninguém explicava que apenas fugiam da polícia.

Estranhamente, as únicas pessoas entrevistadas eram o porta-voz da polícia, o dono do bar da praia e a sua irmã. Eles apareceram repetidamente em todos os canais. O homem do bar, abertamente racista, nem se queixava de ter sido roubado, tinha fechado a loja antes de tudo acontecer, mas descrevia cenas de pavor. Saber-se-ia depois que fora ele a chamar a polícia, quando um grupo de jovens negros se juntou perto do seu bar, a cantar e a dançar. Demasiados “pretos” para o seu gosto. Também fora ele a tirar as fotografias que encheriam os telejornais dessa noite e as capas dos jornais da manhã seguinte.

Gerando o pânico e o ódio

Nos dias que se seguiram, a onda continuou a aumentar. Manchetes garrafais nos jornais. Já se tratava de uma acção que juntava todos os gangs da região de Lisboa. (Não passou de um ajuntamento de jovens de diversas etnias que celebravam o primeiro dia de férias).

O ambiente de histeria prolongar-se-ia por vários dias e teria efeitos duradouros. No dia seguinte, há incidentes com um grupo de jovens, que a imprensa identifica como “vindos de Lisboa, da zona da Cova da Moura” (repare-se como não se diz que eram da Cova da Moura, apenas se insinua a sua ligação a um bairro que a imprensa evoca sempre que quer falar em negros delinquentes). Os jovens nem sequer sabiam do inventado “arrastão”, tinham estado numa rave e quiseram ir à praia. O jornal Público noticiava que o grupo de jovens “invadiu a praia, lançando o pânico entre banhistas e comerciantes locais”. Com o clima de histeria criado, a simples presença de negros passa a ser ameaça. Continua o Público: “Depois de ter perseguido e dispersado os rapazes [a GNR] não encontrou vestígios criminais”. Resultado: um detido, uma vez mais por resistência.

As televisões socorrem-se de tudo para aumentar o clima de medo. Com a cumplicidade de CP/Refer, é divulgado ilegalmente o vídeo de um assalto num comboio de uma linha suburbana. No ambiente criado, o roubo de um telemóvel geraria o pânico numa outra viagem suburbana, com um comboio a ser parado fora da estação e gente a fugir por todas as portas, algumas delas ferindo-se na fuga precipitada.

Os neonazis rejubilam. Já podem convocar uma “grande” manifestação contra os imigrantes. Os fascistas do CDS/PP e os um pouco menos fascistas do PPD/PSD pedem o reforço da polícia e da repressão. Os “socialistas” agora no Governo falam em calma, mas mais agentes da repressão e sistemas de vigilância por todo o lado é o caminho que apontam.

Os primeiros indícios da fabricação

Alguns dias mais tarde, a poeira começaria a assentar e os factos a ficar mais claros. Quinhentas pessoas em acto criminoso organizado deviam deixar rasto, um enorme rasto, mas ele não se vislumbrava. Se tudo roubavam e espancavam quem podiam, deveria haver marcas, testemunhas, queixosos.

Os relatos da polícia começaram a reduzir de 500 para 200 e finalmente para 30 ou 40 o número de jovens envolvidos (segundo o relatório da PSP). Perante as notícias de acto organizado por um grande número de gangs da região de Lisboa, sabe-se que apenas foram presos 3 adolescentes. E nenhum por roubo, todos por resistência à autoridade. Muito pouco, quando se sabe que a intervenção policial resultou no espancamento a torto e a direito de dezenas de pessoas (ainda chegariam a pedir desculpa aos banhistas inocentes). O ministro António Costa (PS) e o presidente da Câmara de Cascais, António Capucho (PSD), elogiaram a carga policial e felicitaram a PSP.

A verdade começa a vir à tona da água

Começa-se também a saber que só há duas queixas por roubo. Mais uns dias e sabe-se que essas queixas se referem a roubos longe da praia. Aparecem alguns testemunhos de banhistas e jovens que contam uma versão diferente, nada que se pareça com um “arrastão” (a descrição usada no comunicado oficial da polícia). O jornal A Capital (uma semana depois, a 17 de Junho) levanta mais um pedaço do véu, num artigo intitulado “A história do arrastão que nunca existiu”.

O feriado do 10 de Junho coincidia com o início das férias grandes do ensino secundário e, como nos anos anteriores, milhares de jovens convergiram para as praias. Em Carcavelos, um grande grupo de jovens, brancos e negros, ouvia hip-hop num “tijolo” portátil. Aparentemente, no meio da confusão, houve um roubo, igual a tantos outros que acontecem em todas as praias portuguesas.

Pouco depois, chamada pelo dono do bar, chega a polícia a distribuir bordoada por cima de quem tem o azar de estar à sua frente. São usadas armas de fogo e houve tiros para intimidar os banhistas (a intimidação com armas de fogo é claramente visível nas fotos). Os jovens banhistas reagem e alguns são presos por resistência à autoridade. A prova de que a polícia atacou indiscriminadamente e sem atender à cor da pele é que, dos três detidos pela polícia, dois foram entrevistados por A Capital, e um deles era branco.

A fuga perante a carga policial é o que está retratado nas fotos. Os objectos que recolhem são os seus pertences e não o produto de roubos que se tentou fazer crer. Não houve uma única queixa de furto nessa praia correspondente a esse momento.

A jornalista Diana Andringa produziu um vídeo (disponível em www.eraumavezumarrastao.net) onde essencialmente recolhe as imagens das televisões e dos jornais, e onde se pode ver claramente a fabricação da notícia e do clima de histeria. Também recolhe depoimentos de testemunhas que contradizem a versão policial. E um testemunho que explica que os próprios “arrastões” no Brasil (que serviram de inspiração à polícia portuguesa) são essencialmente fabricações, também usados para criar um ambiente de racismo.

A quem serve este clima?

Esta onda xenófoba terá efeitos a longo prazo. Os actos racistas histéricos dos últimos dias serão repetidos. A discriminação, a perseguição e a intimidação dos imigrantes aumentarão. Nada disto acontece por acaso. Estão criados o pretexto e as condições para reforçar a situação de exploração desenfreada dos emigrantes (e, por tabela, de todos os outros trabalhadores). A direita e, em particular, a extrema-direita saem reforçadas. E por alguns momentos, o Governo conseguiu afastar a atenção da grave crise que o país atravessa e das medidas totalmente contrárias aos interesses de quem trabalha que pretende implementar.

4 de Julho de 2005